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Entrevista: "A Educação como prática da liberdade é ameaça ao modo político opressor"
Data: 13/03/2018

O impedimento do desenvolvimento da consciência crítica do povo brasileiro é o que está por trás da perseguição à figura de Paulo Freire nos tempos atuais. Defensor de uma educação libertária, o filósofo e educador pernambucano representa tudo que a ala conservadora e reacionária com ideias em franca expansão pelo país persegue. A tentativa de cassação do título de patrono da Educação Brasileira - derrotada na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado no dia 14 de dezembro de 2017 - é apenas a ponta do iceberg dos planos deste grupo favorável à implantação do tenebroso projeto Escola Sem Partido. Estas e outras ideias são discutidas nesta entrevista com o professor Agostinho Rosas.

A Educação progressista vem sofrendo ataques sucessivos: a tentativa de implantação do projeto Escola Sem Partido, a perseguição aos professores vistos como “doutrinários” e ao patrono da educação brasileira, Paulo Freire. Na sua opinião, quais os motivos fundamentais destes ataques?

Estou convencido de que os ataques frequentes que a população brasileira vem sofrendo, desde que o atual presidente instalou seu novo governo, vai contra a Soberania Nacional, implica em ações contra a democracia republicana brasileira. Nesse sentido, a retirada do título de patrono da Educação Brasileira de Paulo Freire é condição imposta por aqueles e aquelas que endossam as mordaças da Escola Sem Partido uma vez que “povo conscientemente crítico” é ameaça às mordaças. A educação como prática da liberdade é ameaça ao modo político opressor. E isto é tudo o que os representantes da escola sem partido temem.

Em seu método de alfabetização, Freire defendia que era preciso estimular o aluno a entender o contexto cultural e sua inserção nesta realidade. Podemos dizer que esse caráter inclusivo é um dos motivos pelos quais Freire e o que ele representa estão sendo perseguidos? A ideia é manter o cidadão nas trevas na ignorância, não despertar a consciência de cidadania?

O atual governo caminha na direção contrária ao respeito e dignidade humana. Suas práticas revelam certo modo arrogante do neoliberalismo, violento, negligenciado a manutenção da Soberania Brasileira. Dessa maneira, o pensamento filosófico, a teoria com a qual Paulo Freire explicou o sistema educacional e propôs transformação, é sem dúvida outra lógica, uma que se expressa contrária a todos os modelos de relações marcados por opressão. A prática educativa que emerge com a Educação Popular condicionada ao pensamento paulofreireano, com os princípios situados na emancipação política e humana do povo, na luta coletiva em defesa da humanização do ser humano, é ameaça ao poder opressor. Calar o povo, silenciar a diversidade e culturas tem sido o exercício político deste atual governo. Logo, Paulo Freire como Patrono da Educação Brasileira é, repito, ameaçador ao processo que vem privatizando o que é público no Brasil.

Uma proposta legislativa, de autoria do Escola Sem Partido, obteve as 20 mil assinaturas necessárias para que o Senado discuta a retirada do título de patrono do educador e filósofo pernambucano. Como podemos argumentar para expor essa incoerência? Quais foram as contribuições do pedagogo para a educação que o levaram a receber essa homenagem?

Incoerência? Qual? Para quem? Se pensarmos o conjunto de ações que o governo vem implantando, a maneira de impor normas aligeiradas desqualificando os direitos alcançados com a luta do povo, do trabalhador brasileiro, não me parece haver qualquer incoerência. Estão agindo em acordo ao que definiram por desenvolvimento da democracia brasileira. Observe que aqueles e aquelas que se uniram e foram às ruas contra Dilma, agora estão calados! Já não se vê aglomerados de pessoas travestidas de amarelo e verde nas ruas. Não parece haver incoerência neste cenário opressor. A incoerência vai se formando quando nos colocamos contrários e contrárias a este modo político de implantar normas rapidamente transformadas em leis. Assim pensando, diria que Paulo Freire representa este ponto de crise que o Escola Sem Partido vem provocando. Paulo Freire como patrono é símbolo que expressa esperança crítica orientando possíveis transformações na sociedade. Representa a força coletiva de enfrentamento aos modos opressores da antidemocracia, do antidiálogo, da antiparticipação autêntica do povo contra a intolerância e a negação dos Direitos Humanos e Sociais. 

Em sua leitura, qual a real dimensão do impacto da obra de Freire no contexto educacional brasileiro?


O pensamento teórico-filosófico com o qual Paulo Freire situa seus quefazeres encontra suas raízes no processo de emancipação humana e política. Ao conotar ser humano como ser de relações, transita por argumentos sócioantropológicos superando paradigmas que centram sua lógica na dimensão dos contatos. Nesse sentido, pensa educação orientada por elementos de certa dialeticidade condicionada por práxis radical. Digo a Educação como prática da liberdade, problematizadora, dialógica pressupõe comunicação verdadeira, rigor metódico, pesquisa mediada por uma ética humana universal. Pressupõe trabalho orientado por radicalidade de pessoa situada e datada, condição essencial à compreensão de ser humano como sujeito histórico e de cultura. Por isso mesmo podemos pensar a ação pedagógica organizada por valores da práxis humana constituída no movimento de sua incompletude e busca do ser mais coletivo. Daí que os impactos estejam orientados por elementos da práxis libertadora. Práxis que exige relação de pessoas comprometidas com o coletivo. Práxis que exige reconhecimento dos inéditos viáveis, das habilidades humanas em se apropriar do contexto e com ele refletir-decidir-agir com radicalidade amorosa. Tal práxis pedagógica em educação é intolerante aos modelos opressores que teimam em coisificar o ser humano. Consequentemente, o sistema educacional pensado e trabalhado por Paulo Freire vai disponibilizar condições para que mulheres e homens, em seu tempo histórico e culturas, possam assumir posição crítica no enfrentamento de quaisquer meio de opressão contra a vida.

Um dos argumentos do grupo para essa perseguição a Paulo Freire é de que ele responsável pela falência do sistema educacional do país, que a metodologia implantada por ele falhou. Para o senhor, quais fatores contribuem verdadeiramente para o atraso do nosso ensino?

Penso que este argumento esteja marcado por fragilidades sem precedentes. Mesmo porque, se fosse verdadeiro, a questão seria facilmente resolvida. Simplesmente isolaria o problema da educação nacional brasileira e ela seria imediatamente conduzida ao sucesso. A questão não é bem assim. A solução do problema da educação brasileira não está situada na cassação do título de patrono da Educação Brasileira de Paulo Freire. Como disse antes, este é um problema político que implica em decisões mais profundas, com implicações sobre as bases que darão sustentação à sociedade brasileira. A questão gira no em torno da pergunta: que sociedade o Brasil vai se tornar? Sob a perspectiva do Escola Sem Partido o caminho do Brasil está bem claro, estamos afundando e a tendência será de irmos mais e mais para um espaço em que direitos humanos e sociais sejam coisas do passado. Estamos em queda livre, marcados por práticas da corrupção, suborno. Estamos assistindo o Brasil ser privatizado! Assim, as políticas públicas sugerem deslocarem os recursos do verdadeiro Brasil para outro que parece estar no imaginário dos detentores do dinheiro. Portanto, o atraso do ensino nas escolas brasileiras, da educação infantil ao ensino superior, está acompanhado por este contexto temeroso em que o Brasil se encontra instalado.

Neste cenário reacionário - criado pela extrema direita conservadora - em relação às questões de gênero, crença e arte, quais são os principais desafios para a nosso sistema educacional já que temas como estes estão sendo proibidos de serem discutidos em sala de aula?

Há um cenário reacionário, contrário do processo de acolhimento democrático e republicano que vem acirrando medidas de certo silenciamento cultural. Temas como diversidade, gênero, sexualidade estão sendo amordaçados por este modelo arrogante de se fazer política pública. Contudo, desacreditar na competência humana de superação, de enfrentamento, jamais! Estou convencido de que quanto mais absurdos estejamos sendo expostos, mais criticamente devemos nos posicionar. Precisamos encontrar alternativas de enfrentamento eficientes. Talvez o exercício da indignação responsável, cuidadosa seja um valor com o qual, enraizados, possamos caminhar com "contramarchas", radicalmente situadas para o enfrentamento das injustiças contra o povo, contra a sociedade brasileira.

Arte: Thomaz Fernandes

Fonte: ADUA
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