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  09/10/2023


‘Aqui não chega socorro na seca’, relatam comunidades em lago no Amazonas - Agência Pública



 

 

Por Rosiene Carvalho para Agência Pública 

 

“Quando começou a boiar direto, a gente já sabia: vai morrer muito peixe. O rio seca, eles (peixes) ficam aqui no lago, pensam que não vai secar e morrem. Queria que você visse. Desde o roelo (filhote de tambaqui), branquinha, aracu. Morrem os mais fracos.”

 

Nascido e criado na área ribeirinha do município de Manacapuru (AM), o pescador e barqueiro Arnoldo Paiva, de 43 anos, lamenta da beira da sua voadeira o tapete formado no Lago do Piranha com milhares de peixes mortos, durante três dias, como efeito da estiagem no rio Solimões no fim de setembro. O município é um dos 19 em estado de alerta no Amazonas. Outros 40 estão em situação de emergência em função da vazante.

 

A casa do barqueiro é uma das flutuantes da comunidade de pescadores na RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável) do Piranha. Com a voadeira – uma canoa de alumínio com motor de popa –, transporta as crianças da comunidade para a escola. Por passar mais tempo no rio que na terra firme, aprendeu a entender os sinais do Solimões, nas cheias e vazantes, ano após ano. 

 

“A seca está mais forte, mas se parar de descer [o nível do rio] em Manacapuru, não morre mais peixe. Mas se não parar…”. A sede urbana de Manacapuru fica a pouco mais de 100 km de Manaus. Cerca de uma hora de carro. Para chegar ao lago, o tempo gasto depende das condições do rio.

 

A morte de peixes no Piranha, que a experiência da convivência com o rio ajudou Paiva a prever, é um dos problemas que afetam o ambiente e as comunidades da calha do rio Solimões, um dos mais volumosos da bacia amazônica e que se aproxima da maior estiagem de sua história, potencializada por uma combinação entre o aquecimento anormal do oceano Atlântico e a ocorrência do El Niño. Dos 40 municípios do Amazonas em situação de emergência, 21 estão na calha do rio. 

 

O El Niño, fenômeno climático de aquecimento das águas do Pacífico, ocorre em intervalos, não regulares, de quatro a sete anos. Um deles, em 2010, resultou na pior seca de rios já registrada na Amazônia, quando peixes também boiaram mortos pela insuficiência do volume de água na maior bacia hidrográfica do planeta.

 

Naquele ano, a comunidade do Lago do Piranha, cuja estrada de acesso é o rio, ficou isolada, o que está prestes a ocorrer novamente, caso a vazante não cesse nos próximos dias. 

 

O tempo de deslocamento entre a cidade e a comunidade e o gasto de combustível aumentaram. No sábado, quando a Agência Pública esteve na região, o trajeto de Manacapuru até o lago durou quase quatro horas – o normal seria em torno de uma hora. Entre ir à cidade para fazer compras e voltar para a comunidade, a jornada está levando cerca de nove horas.

 

Desde a orla de Manacapuru, o desenho do Solimões interage com a paisagem. As palafitas de madeira guardam nas paredes as marcas da última cheia. Hoje, estão a cerca de 20 metros acima do nível da água.

 

Após 38 minutos de viagem contra a correnteza, é preciso diminuir a velocidade da embarcação. Quem faz o percurso com frequência, sabe que, para enfrentar os efeitos da seca, é o momento de usar o remo, único instrumento disponível para escapar de um possível encalhe. Mais uma hora, e o rio começa a mudar de cor: a água barrenta escurece e toma aparência de uma lama entre cinza escuro e preto.  

O sedimento deixado pela seca do Solimões forma ilhas onde antes era vastidão de água. Em todas elas, o cheiro de peixe morto é forte. Diferentes espécies em decomposição são disputadas por urubus e jacarés. Gaivotas, mergulhões e garças, em grupos grandes, sobrevoam de perto o rio sem interesse nos peixes apodrecidos. 

 

A região do lago é um berço ecológico escolhido por várias espécies de animais para reprodução. O odor de peixe podre só ameniza quando um outro problema se sobrepõe: a fumaça das queimadas que também pioraram no estado a partir de setembro.

 

Foi naquela altura da travessia que a reportagem cruzou com o barqueiro Paiva e família. No trecho de pior navegabilidade, eles avaliavam cada centímetro de água antes de avançar para evitar encalhe nos montes de sedimentos, que deixam o rio mais raso. Os ribeirinhos voltavam da cidade após comprar alimentos, água potável e vacinar o neto de cinco meses.

 

Na embarcação, a mulher de Paiva, a pescadora Francisca Pinheiro de Moraes, 42, vigia o neto que ora dorme, ora sorri numa cadeirinha de segurança de carro. Uma filha ajuda a mãe, a outra, com o remo, manobra as curvas para o pai. Um toldo ameniza o calor do sol quente sobre os passageiros. 

 

Apesar dos cuidados, a voadeira encalhou em um trecho onde o rio – que é um dos maiores do mundo – chegou a cerca de meio metro de profundidade. No ponto mais seco e enlameado, a voadeira dos ribeirinhos precisou ser empurrada pela embarcação da reportagem para deixar o atoleiro. Os ribeirinhos seguiram o trajeto da rotina com a aparência no semblante de quem conhece o curso do rio, sem demonstrar aflição. A embarcação navegou lenta até entrar na comunidade, cerca de quatro horas após deixar o porto de Manacapuru.

 

Ao chegar em casa, Francisca desabafa: “Pra quem olha quando está cheio, não diz que seca assim. E ainda não está bem seco. Vai ficar só lama até Manacapuru e aí só passa de rabeta. Se secar mais, fica difícil para a gente. Por causa da criança. Se adoecer… A gente pede a Deus que não adoeça, porque aqui não chega socorro na seca.”

 

Com a cesta básica do mês e a expectativa de mais água potável chegar da cidade no dia seguinte, a preocupação da pescadora, além da saúde dos filhos e neto, passou a ser a nova ameaça de suspensão das aulas. O atraso escolar vem desde a pandemia. Era Paiva que deixava as apostilas em cada uma das casas para os alunos da comunidade, quando a escola fechou por dois longos períodos. 

 

“Não queria que parasse porque atrasa muito. Ela (aponta para a filha de 16 anos, mãe da criança de cinco meses) quer fazer faculdade”, afirma a mãe.

 

Paiva também quer que os filhos avancem nos estudos e conta com orgulho que uma filha se formou em Manacapuru e é a única professora da comunidade. Diz que outro filho é bom de computador. Na casa, com energia elétrica há dois anos, os eletrodomésticos são geladeira, televisão e rádio. A internet costuma funcionar à noite.  

 

“Para os meus filhos, eu acho que a cidade é melhor. Para quem trabalha na cidade, se estudar, se arranjar um bom trabalho, não pega sol. [Viver da] pescaria é complicado”, disse.

 

O lago impede que falte proteína para os ribeirinhos. Mesmo com a seca, as famílias se alimentam de peixe. A estiagem e a falta de armazenamento adequado, porém, prejudicam o escoamento para venda. Nem todos têm geladeira. Nos varais das casas flutuantes, postas salgadas de peixes secam estendidas ao lado de roupas. 

 

Na casa da pescadora Ingrid Ferreira Levi, de 30 anos, o fogão tinha panela com peixe, as crianças comiam biscoitos e a mesa estava arrumada com uma garrafa de café. Ela disse que foi ruim passar dias com fumaça dentro de casa e depois com o cheiro dos peixes podres. A dificuldade atual tem sido água potável. Há dias em que é inevitável tomar água do lago, diz a pescadora.  

 

“A gente sempre traz água de Manacapuru, na cheia e na seca. Quando não tem, a gente toma do rio, põe o cloro. Meus vizinhos todos consomem água daqui. Nem todo mundo tem condições de comprar. Mas com a poluição dos peixes mortos ficou ruim”, disse. 

 

Vender peixe piorou para os que não têm voadeira, relata Ingrid: “Quem vai de canoa para levar os peixes, gasta em torno de seis horas. Tanto na ida quanto na volta. É o caso da maioria. Os moradores que vendem peixe têm esse sufoco”.

 

A pescadora mora na comunidade desde que casou, mas não se arrepende de trocar a sede urbana de Manacapuru pelo Lago do Piranha. “Tem gente que pensa em ir para Manacapuru, mas de lá a gente já veio. Se você só tiver um real, lá você não come. Aqui, jogo a malhadeira bem aí”, diz apontando para a porta a menos de meio metro do rio. “Aqui você almoça e janta peixe. Tem só o barulho da rabeta. Mas não incomoda tanto quanto a poluição dos carros que tem na cidade.”

 

Na orla de Manacapuru, por volta de 17h30, com sol ainda quente, o casal de pescadores Francilene da Silva, de 37 anos, e Chaberlan Pereira dos Santos, de 42, chega à beira do rio em busca de lugar para atracar a pequena embarcação de madeira. No chão do barco, bodó, pacu e pescada. Pela frente, 25 minutos de subida até em casa numa lama escura. A cada passo, as pernas afundam, o que dificulta a caminhada. 

 

Parte do trajeto é feito com os pés descalços. As sandálias vão nas mãos para serem preservadas da lama.  

 

“Peixe tem muito, mas a gente não pode levar para a feira devido às dificuldades [provocadas pela seca]. A gente está tirando só para o alimento mesmo”, reclama Chaberlan, enquanto se prepara para fazer duas voltas: uma carregando o motor do barco e a outra uma saca com peixes, aparentando cerca de dez quilos. O pescador leva o motor para casa desde que o barco foi furtado no ano passado.

 

Enquanto Chaberlan caminha, outros moradores empurram na lama uma lancha para alcançar o rio. Francilene observa o marido e comenta que ele sente dores nas costas. Ela conta que, na cheia, faturam R$ 200 por dia com a pesca e, agora, conseguem apenas R$ 20 para comprar arroz e alguns alimentos para casa. 

 

“A gente sai pra pescar um dia, outro não. Está ficando muito longe. Na cheia, a gente pesca e encosta lá em cima.” 

 

A pescadora diz que a terra, na região onde mora, não é boa para plantar, e quando não tem peixe, comem salsicha com os três filhos, de 1 a 3 anos de idade. Seu olhar se volta para o rio e ela diz não entender porque ele seca tanto. “Só Deus.”

 

Em Manacapuru, segundo o censo de 2022, 3.257 pessoas vivem da pesca como atividade econômica e para subsistência. No site do Ministério da Pesca e Aquicultura, constam cadastros de 5.350 pessoas recebendo seguro defeso na cidade, entre dezembro de 2022 e março de 2023. 

 

Em todo o estado, o último boletim da Defesa Civil do governo do Amazonas apontava 64.448 mil famílias atingidas pelos efeitos da estiagem.

 

 

Leia a reportagem completa publicada no 6 de outubro de 2023 na Agência Pública aqui

 

Foto: Edmar Barros/Agência Pública 

 

 



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