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  01/06/2026 - por José Alcimar de Oliveira





Foto: Sue Anne Cursino/Ascom ADUA

Articulista destaca que não existe capitalismo humanitário

 

José Alcimar de Oliveira*

 

O sistema do capital é a mais bem organizada e legalizada forma de subtração de tempo e de vida à classe trabalhadora. Sob esse sistema se estruturou a mais abrangente e intensa forma de trabalho alienado. Segundo Marx, o trabalho é “(...) uma condição de existência do homem (do ser social), independente de todas as formas de sociedade, eterna necessidade natural de mediação do metabolismo (grifo nosso) entre homem e natureza e, portanto, da vida humana”. Noutras palavras, o trabalho é a categoria central, definidora da existência do ser humano como ser social e da humanização do ser social. Foi pelo trabalho que o ser humano transformou a natureza e, por esse processo, transformou a si mesmo e se fez homo sapiens. Significa dizer: foi pela condição de homo laborans (o que faz) que o ser humano objetivou a natureza e, pela natureza, pode objetivar a si mesmo, tornando-se por consequência homo sapiens.

 

Bem ao contrário da concepção cartesiana, que está na raiz da forma que o trabalho adquiriu sob o sistema do capital, que radicaliza a separação entre fazer e pensar, entre trabalho manual e trabalho intelectual, o trabalho do ser social não se estruturou originariamente por essa dicotomia, que hoje se aprofunda, entre fazer e pensar. Preso à sua concepção abstrata da razão e à época (reconheço) desprovido de mediações teóricas para pensar a impossibilidade de uma natureza abstrata e intocada pela história, Descartes, esse genial protocapitalista, só conseguia pensar o ser o humano como inerentemente racional, como uma substância que pensa, uma res cogitans, para dessa substância concluir sua existência: eu sou uma coisa que pensa (ego sum res cogitans). Mas ao cartesiano existo porque penso, como se possível fosse pensar sem existir, é preciso contrapor o penso porque existo da filosofia do materialismo histórico e dialético.

 

Necessário é dizer que somente por meio dos braços e mentes da classe trabalhadora é possível pensar o estatuto epistêmico do trabalho, verdadeiro princípio ontológico e educativo da classe trabalhadora. Para desfazer a farsa da retórica burguesa, que dissemina a mentira social de que o trabalho em sua forma capitalista dignifica a pessoa humana, impõe-se como dever da classe trabalhadora reafirmar o método da luta de classes, condição necessária e única para a organização e a formação da consciência de classe da única classe que trabalha e produz riqueza. As primeiras três décadas do século XXI escancaram a verdade que se impõe à consciência coletiva: não existe capitalismo sustentável, humanitário, promotor de justiça social.

 

 

O dominante discurso ideológico da burguesia parasitária reúne tragédia, farsa e escárnio: de um lado, se beneficia da escala 0x7 e, de outro, se organiza com os setores mais retrógrados do Estado burguês, notadamente da parte mais venal e antipovo do Parlamento, para impedir a aprovação da Emenda Constitucional que propõe a escala 5x2. A burguesia parasitária, bem representada pelo Parlamento, prefere falar em dia do trabalho, separado da classe trabalhadora, e abstraído de mãos e mentes que trabalham. O jornalismo lixo do corporativismo burguês faz eco à grita da classe dominante e dissemina o pânico social sob a alegação de que o fim da escala 6x1 trará desemprego em massa, produzirá falência e comprometerá a indústria e o comércio, mas fecha os olhos diante da indecente desigualdade social, da pornoconcentração de riqueza nas mãos da plutocracia. Indecente mesmo é submeter e condicionar o direito ao trabalho e o trabalho da classe trabalhadora a condições históricas de alienação, de exploração, que subtraem vida e tempo e tempo de vida a quem trabalha.

 

Não nasce livre quem nasce sob os grilhões da miséria e menos ainda nasce igual. Quem nasce em condições de miséria já nasce desigual, desamparado, desassistido, sujeito a morrer antes do tempo e, se sobreviver ao nascimento, estará sujeito a não desenvolver plenamente suas potencialidades físicas e intelectuais. A miséria é fruto da desigualdade social, jamais resultado de uma determinação da natureza e sempre mata antes do tempo. O sistema do capital é inerentemente entrópico. Como escreve o Mouro de Trier, é um sistema que devora as duas fontes de toda a riqueza: a Terra e o Ser Humano: o Ser Humano enquanto classe trabalhadora. Diferentemente da entropia como lei física e irrevogável, inscrita na natureza, a entropia do sistema do capital é histórica e socialmente resultante de um padrão de produção e consumo inseparável de colapso ambiental e barbárie social. A parte mais predatória e parasitária da burguesia brasileira do século XXI continua saudosa da cruel e degradante jornada de trabalho do capitalismo do século XIX.

 

Fora da organização política e sem consciência de classe seguirá absolutamente assimétrica à luta do indivíduo diante da força social da desigualdade produzida pelo sistema do capital. Os ideólogos do sistema envenenam a consciência coletiva com a tese fraudulenta da meritocracia e do exceptivo êxito individual. Mas ocultam que a exceção, mesmo que sempre possível, será sempre individual e apenas confirma o poder universal e social da regra: quando apenas um ou poucos se apropriam do que pertence a 100 é a miséria coletiva que prevalece. A fome, o desemprego, o trabalho degradante, o desalento, a desassistência social, a falta de moradia, a falta de acesso à educação e aos serviços de saúde, ainda que afetassem somente uma única pessoa, já onerariam a toda a humanidade. Tempo é vida. Conforme a bela definição de Antonio Candido, tempo não é dinheiro, tempo é o tecido da nossa vida. Pelo fim da escala 6×1: dar tempo à vida, vida ao tempo e tempo de vida à classe trabalhadora!

 

*Alcimar é 2º vice-presidente da ADUA e professor do Departamento de Filosofia da Ufam.



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