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Bastidores do 36º Congresso do ANDES-SN revelam enfrentamento contra retirada de direitos



Data: 07/03/2017

Por Daniel Amorim

Como todo grande Congresso de categorias profissionais, também o do ANDES-SN tem seus bastidores reveladores. Além das tradicionais plenárias e grupos mistos, o 36º Congresso, realizado de 23 a 28 de janeiro em Cuiabá (MT), registrou dois momentos bastante importantes ali ocorridos. As entrevistas coletivas com Guilherme Boulos, um dos coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), e da professora do curso de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Sara Granemann, possibilitaram aos jornalistas que cobriam o evento uma compreensão aprofundada sobre temas como a segregação social no espaço urbano e a contrarreforma da previdência do governo Temer. Outro registro de bastidor foi o ato promovido pelas mulheres participantes contra o assédio sexual perpetrado por professores delegados. A denúncia pública mobilizou o apoio de congressistas e inspirou ações específicas contra essa prática nos círculos universitários.

Boulos

No final da tarde do dia 23, recebemos a informação de que Guilherme Boulos participaria de debate no teatro da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), onde se concentraram as atividades do congresso. Até então, seu nome não constava nos folders distribuídos aos participantes. Pouco antes de compor a mesa, da qual também participaria Maria Lúcia Fattorelli, da coordenação nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, o ativista e professor recebeu os jornalistas na sala de imprensa. As perguntas, também elaboradas sob o calor da hora, trataram de questões diversas, mas complementares: a luta das classes menos favorecidas pelo direito à moradia, a especulação imobiliária como reflexo da lógica capitalista, a reforma da Previdência e os efeitos nefastos da PEC 55.
 
A questão que não poderia ser deixada de lado, no entanto, dizia respeito à onda crescente de perseguições aos movimentos sociais. No dia 17 de janeiro, Boulos foi detido pela Polícia de São Paulo durante uma reintegração de posse em São Mateus, na zona lesta de São Paulo. Na ocasião, ele prestava apoio às famílias despejadas do terreno, chamado Ocupação Colonial. “Fui indiciado com base na teoria do domínio do fato (que afirma a responsabilidade do autor a partir de sua posição decisória, sem considerar sua ação direta no ato). Usaram o mesmo argumento para prender o (ex-ministro) José Dirceu no julgamento do Mensalão. Mas não havia provas. É uma situação sem precedentes”, analisou Boulos ao refletir sobre o caráter cada vez mais autoritário – e imparcial – do poder judiciário no Brasil. (Confira a entrevista nas páginas 6 e 7).

Granemann

Na noite de terça-feira (24), os jornalistas se encontraram com a professora Sara Granemann para abordar detalhes da contrarreforma da Previdência anunciada pelo Governo. Por meio de uma análise que combina erudição e reflexão crítica, Granemann explicou por que os defensores da medida se aproveitam de uma falácia para defender a medida. “Se falarem dela sob qualquer outro argumento, não terá a força de tentar se tornar uma verdade científica, comprovada com números (...). Isso é o financiamento da grande ambição do Capital, porque há uma massa de recursos tão gigantesca que só a Previdência pode acumular e isso é parte importante, não exclusiva, mas central, do recrudescimento das crises e das possibilidades de expansão dos capitais”.

Já ao final da entrevista, Granemann teceu comparações entre os sistemas previdenciários de diferentes países para propor a seguinte tese: em nações que passaram por revoluções, é mais difícil alterar um sistema de acesso justo à aposentadoria. “Mesmo que seja revolução burguesa, com expropriação de uma classe pela outra, ou que se tenha elementos de luta revolucionária, como teve no México. Eles têm uma constituição elaborada em 1917, que é muito mais avançada que a nossa no campo da Previdência. Portugal também teve uma revolução e tinha uma constituição e políticas previdenciárias muito mais avançadas. Está em debate uma contrarreforma da previdência lá? De jeito nenhum”, concluiu.

Assédio

Fora de qualquer programação, o que ocorreu desde os primeiros momentos da inscrição de delegados ao Congresso, revelou-se uma situação constrangedora (e contraditória) de assédio sexual e moral, que culminou em ato público denunciador realizado pelas mulheres participantes. As monitoras (alunas) que trabalhavam na infraestrutura do Congresso, desde os primeiros momentos, denunciaram investidas de assédio sexual de docentes delegados nos corredores do Teatro e nos espaços da festa da noite de quarta-feira (25). Durante o ato, ficou evidenciado igualmente atitudes de assédio a algumas professoras delegadas.

No começo dos debates da tarde do dia 26, professoras da UFMT subiram ao palco do Teatro e manifestaram seu repúdio à conduta dos colegas. O ato foi replicado com mais visibilidade na manhã de sábado (28), último dia do evento. Segurando cartazes, entoando refrões sobre a representação da mulher latino-americana e batendo tambores, as mulheres – agora de praticamente todas as delegações - tomaram o palco, num ato que culminou com a leitura de um manifesto, duro e indignado, contra o machismo. Vários delegados homens manifestaram sua solidariedade participando ativamente do ato.

Esta situação impensada, mas real, provocou a coordenação do GT Política de Classe para as Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual do ANDES-SN a propor, em reunião de março, que o Sindicato Nacional institua um Observatório de Práticas de Racismo, Lgbtfobia e Violência Contra a Mulher nas Universidades, a partir das Seções Sindicais, com a intenção de denunciar essas práticas e gerar ações militantes.

Fonte: ADUA



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