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  21/06/2022



Entidades cobram justiça por Bruno, Dom e Maxciel



 

A morte do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips repercutiu os ataques e ameaças vividos pelos povos da Terra Indígena do Vale do Javari (AM). Em todo o Brasil, entidades se manifestam reivindicando garantia da política ambiental e indigenista. Na terça-feira (21), às 12h, está marcada uma mobilização no Centro de Convivência da UFAM, para cobrar justiça pelas vidas de Dom, Bruno e Maxciel, assassinados por defenderem a Amazônia e os direitos dos povos indígenas. Eles se juntam ao mais de 200 ambientalistas assassinados(as) entre 2012 e 2020, estatística que mantém o Brasil como um dos países que mais mata defensores e defensoras do meio ambiente.

 

Na tarde de quarta-feira (15), data em que foram encontrados os restos mortais de Bruno e Dom, após confissão de assassinato por um dos suspeitos envolvidos no caso, a ADUA participou de um ato público em frente à sede da Fundação Nacional do Índio (Funai), em Manaus (AM).

 

 

Os e as manifestantes cobraram, por meio das falas públicas, faixas e cartazes, a responsabilização dos crimes, o fim da caça, da pesca e do garimpo ilegais na região, respeito à vida indígena e a saída do presidente da Funai, Marcelo Xavier. 

 

“O estado do Amazonas, o Estado Brasileiro, deveriam se envergonhar dessa barbárie, de uma terra sem lei, de uma terra sem governo. E as vítimas são exatamente aquelas pessoas que ainda tem a dignidade de defender o ser humano, de defender os direitos, de defender a democracia. Esse manifesto, esse repúdio, em solidariedade ao Bruno, ao Dom e às suas famílias, é absolutamente necessário para mostrar que tem sim gente nesse estado, nesse país, que ainda honra a dignidade humana, ainda preza pelos direitos e pela democracia. Uma homenagem justa e necessária, porque, de fato, matar os dois foi matar um pouquinho dos povos indígenas do Amazonas, dos povos do Vale do Javari, da Amazônia, do nosso país”, afirma o professor, indígena e membro da Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (Famddi), Gersem Baniwa.

 

Bruno era servidor licenciado da Funai e estava em atividade da Equipe de Vigilância da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), com objetivo de denunciar a atuação ilegal de pescadores, caçadores e garimpeiros.

 

Dom estava escrevendo um livro com o título “Como salvar a Amazônia”. Ele publicava reportagens sobre o Brasil em grande veículos como The Guardian, Washington Post, The New York Times e Financial Times.

 

Os dois foram vistos pela última vez na comunidade São Rafael, no dia 5 de junho, de onde seguiram rumo à Atalaia do Norte. A viagem que duraria duas horas não foi concluída.

 

Após a constatação do desaparecimento, centenas de indígenas realizaram as primeiras buscas, com a colaboração de policiais militares do 8º Batalhão de Tabatinga (AM). Foram mais de 24 horas para que a Polícia Federal (PF), o Exército, a Marinha e o Corpo de Bombeiros começassem a atuar no caso, o que resultou em grandes críticas ao governo por omissão.

 

Em entrevista ao SBT News, o presidente da república, Jair Bolsonaro, afirmou que o trabalho de Bruno e Dom era uma “aventura não recomendada”. "O que nós sabemos, até o momento, é que no meio do caminho (eles) teriam se encontrado com duas pessoas, que já estão detidas pela Polícia Federal, estão sendo investigadas. E realmente duas pessoas apenas num barco, numa região daquela, completamente selvagem, é uma aventura que não é recomendável que se faça. Tudo pode acontecer. Pode ser um acidente, pode ser que eles tenham sido executados. A gente espera e pede a Deus para que sejam encontrados brevemente”.  

 

 

Segundo nota da Univaja, desde 2021 as informações sobre as invasões na Terra Indígena Vale do Javari estão sendo enviadas ao Ministério Público Federal (MPF), à PF e à Funai. Nos documentos, foram indicados a existência de uma quadrilha de pescadores e caçadores profissionais, vinculados a narcotraficantes.

 

A Univaja acredita que a morte de Dom e Bruno configura um crime político, uma vez que Bruno recebia ameaças de madeireiros, garimpeiros e pescadores. “O assassinato de Pereira e Phillips constitui um crime político, pois ambos eram defensores dos Direitos Humanos e morreram desempenhando atividades em benefício de nós, povos indígenas do Vale do Javari, pelo nosso direito ao bem-viver, pelo nosso direito ao território e aos recursos naturais que são nosso alimento e garantia de vida, não apenas da nossa vida, mas também da vida dos nossos parentes isolados”. 

 

O crime relembrou o caso do indigenista e ex-servidor da Funai, Maxciel Pereira dos Santos, assassinado em 2019, em Tabatinga (AM). Ele atuava na Frente de Proteção Etnoambiental, setor responsável pela operações de fiscalização na região. Até hoje, a morte do agente não foi esclarecida pela PF. Em entrevista concedida à Agência Pública, a viúva de Maxciel, que não quis ser identificada, questionou: “Por que não fizeram o mesmo sobre o Max? Fiquei muito revoltada. Eu me coloco no lugar da família deles, mas por que deixar a gente de lado?”

 

Segundo o relatório da ONG Global Witness, desde 2012, início do levantamento, até 2020, foram 227 pessoas assassinadas no Brasil, sendo ambientalistas que atuavam na defesa do meio ambiente e de direito a territórios, terra e meios de subsistência.

 

Comoção e resistência

 

Além das manifestações que estão sendo realizadas desde o desaparecimento do indigenista e do jornalista, entidades que atuam pelas causas indígenas também prestaram solidariedade às famílias da dupla e aos povos indígenas por meio de notas públicas.

 

A Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (Famddi) declarou que a Amazônia sob ameaça de garimpeiros, exploradores da madeira e de narcotraficantes não é uma “aventura”, mas sim um lugar real, com mais 30 milhões de pessoas, onde também habita o maior contingente de povos originários. Neste sentido, a entidade exige esclarecimento sobre a pergunta "Quem mandou matar Bruno e Dom Phillips?"

 

“Que a memória dos mártires de ontem e de hoje seja presente e mobilize as forças democráticas para a realização do ato de Justiça e a adoção de medidas que assegurem os direitos humanos dos povos indígenas, das comunidades tradicionais, dos quilombolas. O sangue escreve a nossa resiliência”.

 

 

A ADUA enfatizou que o “Estado democrático de direito não combina com ataque ou ameaça à dignidade da pessoa humana. Quando a justiça é fraca na defesa da vida, sobretudo da vida em estado de vulnerabilidade social, prevalece a lei da força”, completando que “Bruno Araújo Pereira (indigenista) e Dom Phillips (jornalista) uniram suas vidas, suas profissões, seu compromisso ético e humanitário para defender a Amazônia em seu ser social e natural”.

 

 

O ANDES-SN reafirmou a resistência contra o projeto genocida, etnocida e ecocida, que agrava o processo de extermínio que se sustenta por meio dos grandes projetos do capital. “Em que pese que tal problema não é recente, a política que mata ambientalistas, defensore(a)s das água e da terra ganha um novo capítulo perverso com eleição de Bolsonaro, pois agora é o presidente do país que estimula, verbal e fisicamente, que as organizações criminosas avancem sobre as matas, sobre as terras indígenas ou quilombos”.

 

 

O curso de Pedagogia Intercultural para professores indígenas do Vale do Javari, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), também pediu atenção da sociedade para o Vale do Javari.

 

“A morte destes dois agentes dos direitos humanos coloca em evidência as políticas de morte de um governo que enfraquece, desestrutura e exerce autoritarismo com os órgãos de proteção, fiscalização e atenção aos povos indígenas. Incentivando, orientado, protegendo ou sendo deliberadamente omisso diante da violação de territórios e corpos indígenas que sofrem as violências do narcotráfico, da exploração de madeira, da mineração, da caça e da pesca predatória”.

 

A UFAM manifestou pesar e solidariedade, afirmando “juntamo-nos às vozes que pedem a responsabilização pelas mortes daqueles que como nós, prezam pela floresta e pelos povos da floresta”.  

 

Novos atos públicos estão marcados. Dos dias 20 a 24 de junho, acontece uma vigília em frente à sede da Funai em Brasília. Em Cuiabá (MT), haverá manifestação na terça-feira (21), às 17, na Praça Alencastro.

 

 

 

 

 

Fotos: Ascom ADUA

 

Fontes: ADUA com informações da Amazônia Real, G1, Terra, Univaja, Ufam, Agência Púbica e Famddi



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