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Produção une humor e crítica social no teatro amazonense - Crédito: Alonso Junior/Divulgação
Sue Anne Cursino
A genialidade e a ousadia fizeram dona Dica prender o diabo em uma garrafa. Tudo o que ela queria era resolver umas coisinhas. O que resultou desse feito? Quem assistiu à peça “História pra boi dormir” sabe. Mas talvez poucas pessoas tenham ouvido falar dessa estreia, já que ela não estampou os grandes cartazes de Manaus. A voz dos e das artistas da companhia de teatro “O Pulo do Sapo” ecoou em um espaço modesto: um palco pequeno, cadeiras de plástico e o vento que circulava vindo dos leques das mulheres e de ventiladores. Nada de ar-condicionado na Manaus de 35 °C.
Tudo ao vivo, no gogó. Com pitada de crítica política e reflexão existencial em uma narrativa que segue pelo rumo da fantasia e da imaginação. Encenação feita por professoras(es), bailarinas(os), artistas, trabalhadoras(es) que dividem a rotina do “ganha-pão” com a paixão pela atuação.
A mensagem desse grupo é clara: o teatro independente de Manaus resiste. Sem incentivos públicos e na base da colaboração coletiva, a Companhia O Pulo do Sapo estreou o espetáculo “História pra boi dormir” no 28 de novembro de 2025 no Sindicato dos Trabalhadores de Telecomunicações (Sinttel), localizado no bairro de Aparecida, e ficou em cartaz até o dia 28 de setembro deste ano, transformando um espaço modesto em um palco de teatro vivo. Os planos não param por aí.
Raíz do Coletivo
Fundada em 2023, a Companhia O Pulo do Sapo surgiu a partir da participação de seus integrantes na companhia Teatro Experimental do Sesc (Tesc) e de oficinas no grupo Vitória Régia. A maioria das(os) integrantes atua profissionalmente fora dos palcos e algumas(uns) já tinham experiência como artistas de outras companhias. Aliando leituras dramáticas e pesquisas de cena, a companhia nasceu de uma ideia de produzir arte a partir da convivência e do trabalho coletivo.
O diretor e dramaturgo da peça “História pra boi dormir”, Geiber Teixeira, conta que o que move o grupo é a necessidade essencial de fazer teatro e o impacto que deseja causar no público: “Fazer teatro é muito difícil. Aqui em Manaus, quando há algum incentivo, vem por meio de editais concorridos. Mas não é por isso que a gente vai parar. O que nos move é o desejo de fazer teatro. Isso é uma necessidade humana, uma forma de criar e vivenciar o mundo”.
E foi com esse objetivo, após um ano e meio de preparação, que “História pra boi dormir” saiu das ideias para o palco. Geiber define o espetáculo como um “conto de fadas ao contrário”. “É uma tragédia cômica que fala um pouco do que vivemos. Na vida, a gente tem que se virar todos os dias tentando não ser passado para trás. A Dica representa boa parte da humanidade. A receptividade tem sido muito positiva; o público se identifica e sai satisfeito. O trabalho está pronto, mas o teatro não se cristaliza. Conforme os fatos acontecem na sociedade, no jornal e na política, nós vamos acrescentando novas camadas ao espetáculo”.
Dos bastidores à produção, a companhia apresenta uma proposta de arte crítica e de qualidade, seja em espaços fechados ou na rua, praças, escolas e locais que não exijam todo o aparato e a estrutura física de um grande teatro. Mas essa caminhada impõe obstáculos financeiros e logísticos. “Não há incentivo público, não há um mercado para o teatro. Produzir um trabalho teatral é muito caro, não só pelo pagamento do elenco, mas por tudo o que envolve a produção. A forma como fazemos no nosso grupo é na base do ‘todo mundo contribui um pouco’”, explica Geiber.

Cia. aposta em trabalho colabo rativo para manter teatro vivo - Crédito: Alonso Junior/Divulgação
Conseguir um local para ensaios e apresentações é uma das maiores barreiras na capital amazonense devido aos altos custos de aluguel. Atualmente, o espaço de ensaio e exibição do grupo é cedido pelo Sinttel, mediante uma taxa simbólica para manutenção.
Parte da conservação de materiais cenográficos, iluminação e equipamentos de som também é custeada pelos(as) próprios(as) integrantes. Dentre eles está Lucas Furtado, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), sindicalizado à ADUA e ator da companhia.
Além de levar para a sala de aula a consciência corpórea e a técnica de uso da voz e respiração, Lucas conta que o fazer teatral impacta diretamente sua vida profissional e pessoal. “O teatro, de certa forma, é um processo de cura. É um processo árduo e revolucionário. Tive a sorte de estar em uma companhia orgânica, composta por trabalhadores. Não é business, não estamos querendo ganhar dinheiro e fama, mas sim levar o teatro com conteúdo para a classe trabalhadora, para as comunidades. Isso fortalece tanto o meu senso político quanto o meu eu como sujeito histórico e minha atuação como profissional na educação”, afirma.
Após a temporada inicial, a Cia. planeja participar de festivais de teatro em Manaus, circular com novas temporadas, ministrar oficinas e promover trocas culturais com a comunidade, mantendo acesa a chama da produção artística independente na região.
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