
Foto: Daisy Melo/Ascom ADUA
Daisy Melo
Engajada na defesa dos direitos das mulheres, a ADUA participou em março das manifestações pelo Dia Internacional de Luta das Mulheres Trabalhadoras (8 de março) em Manaus e Parintins. Durante o mês, a Seção Sindical também lançou uma nota pública pela data e a série temática “Mulheres em Luta” com vídeos destacando as trajetórias de professoras.
Com palavras de ordem como “A nossa luta é todo dia. Somos mulheres e não mercadoria” e “Criança não é mãe e estuprador não é pai”, manifestantes foram às ruas na área central da capital amazonense no 8 de março. Com concentração na Praça do Relógio e caminhada até o Largo São Sebastião, a ADUA participou do ato com o mote “O medo não vai nos parar! Mulheres da Amazônia pela Vida e por Direitos!”, organizado pelo Fórum Permanente das Mulheres de Manaus (FPMM), composto por mais de 40 entidades e coletivos.
Durante a caminhada, as(os) manifestantes encontraram-se no cruzamento das Avenidas Eduardo Ribeiro e 7 de Setembro, com a III Marcha das Mulheres Indígenas de Manaus e Entorno, que havia iniciado ato na Aldeia da Memória Indígena, na Praça Dom Pedro II, também no Centro. Com tema “Nosso corpo, nosso território: somos as guardiãs do planeta pela cura da terra”, a atividade foi organizada pela Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime) e reuniu representantes de povos como Apurinã, Kokama e Munduruku.
No ato no Largo, a presidente da ADUA, Ana Lúcia Gomes, leu a nota pública da Seção Sindical. “A Diretoria da ADUA vem a público afirmar sua solidariedade classista à luta coletiva das mulheres trabalhadoras, desempregadas, subempregadas, das que sobrevivem da informalidade, das negras, indígenas, de todas as cores e raças, das vítimas do machismo, do feminicídio, da misoginia, do sexismo e das muitas formas de opressão que se multiplicam no Brasil e no mundo sob a subjetividade social capitalista”, diz trecho do documento.
Participante da III Marcha, a professora Danielle Munduruku destacou a resistência das mulheres indígenas. “O movimento resiste há mais de 500 anos e está nas ruas para mostrar que o nosso corpo-território-memória resiste (...) Se hoje posso gritar no Dia Internacional de Luta das Mulheres que sou uma mulher indígena é porque mulheres antes de mim resistiram aos processos de violência”. Em seu discurso, a docente chamou a atenção também para a violência causada pela crise ambiental e pelo capitalismo. “João Paulo Barreto, do povo Tukano, afirma que o primeiro corpo de uma mulher indígena é a Mãe Terra, a primeira a ser violentada a partir dos processos de colonização. A mulher que gera vida precisa ser cuidada, mas essa terra continua sendo violentada de diferentes maneiras”.
Também durante a III Marcha, a cacica Xitara Apurinã falou sobre a importância da defesa da educação escolar indígena. “Educação escolar indígena é não parar de falar nossa língua materna, é não esquecer nossa dança, nossa cultura, como cada povo, o Sateré, o Apurinã, o Kokama, o Munduruku, o Mura, todos nós temos nossa cultura, nossa história de vida, a história do povo que precisa ser respeitada”. Em sua fala, a cacica Bia Kokama destacou outras lutas das mulheres indígenas. “A conquista da moradia, da saúde, da educação. Nós precisamos disso. Precisamos nos unir de verdade, parentes. A educação e a saúde diferenciadas são nossos direitos”.

Foto: ICSEZ-Parintins/Divulgação
No mesmo dia, Parintins realizou o ato “8 de março fechado! A gente faz o feriado”, na Praça da Catedral. Organizada por movimentos sociais, coletivos feministas e trabalhadoras, incluindo docentes da Ufam e da UEA, a atividade contou com panfletagem nos semáforos e falas contundentes ao microfone, conclamando a sociedade a se unir à causa feminista. “Hoje é um dia de luta, de resistência, dia em que as mulheres em todo país estão unidas. E são mulheres que se levantam todos os dias contra o patriarcado, as opressões e a desigualdade de direitos”, disse a professora de Artes Visuais do ICSEZ/Ufam, Clarissa Suzuki.
As(os) participantes do ato na ilha deram o recado, somando-se às mobilizações internacionais pela data. “As manifestações celebram as conquistas políticas e sociais das mulheres, mas sobretudo é um clamor para que a vida das mulheres seja respeitada em todos os lugares, para que não sejam vítimas do feminicídio, nem de outras formas de violência e opressões, tenham mais garantias e possam continuar avançando”, disse a 1ª secretária da ADUA, Valmiene Florindo.
Sobre a temática “8 de março fechado! A gente faz o feriado”, a docente explicou que esta tem relação com uma reivindicação feita desde 2019 pelos movimentos sociais locais para que a data seja um feriado municipal. “O propósito é interromper neste dia o trabalho feito ininterruptamente pelas mulheres, para que haja uma folga coletiva, afinal o direito ao descanso também é uma pauta”. A manifestação também foi um momento para lembrar aquelas que contribuíram com os avanços na luta das mulheres. “Os panfletos traziam marcos históricos da luta das mulheres, inclusive em Parintins, entre eles a construção de um memorial nas imediações da delegacia, simbolizando as mulheres vítimas da Covid-19 e do feminicídio na cidade”.
Violências
Durante o ato organizado pelo FPMM no Centro de Manaus, as integrantes do Fórum Alessandrine Silva, Marília Freire, Vitória Gomes e Francii Pantoja Mura realizaram a leitura de um manifesto. O documento chama atenção para dados alarmantes relativos às violências de gênero sofridas pelas mulheres na cidade e reivindica ações para solucionar as questões a partir da criação de políticas públicas concretas, prevenção e punição, visando a erradicação dos problemas a fim de garantir condições justas e dignas para as mulheres de Manaus.
Entre os dados citados no manifesto estão os de violência contra meninas e mulheres no Amazonas da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-RCP). Conforme o levantamento, em 2024 foram registrados 5.806 casos, sendo meninas de 10 a 14 anos as mais atingidas, representando 28,4%. Do total, 32,7% dos registros foram de violência física e 30,1% sexual. Especificamente em relação aos casos de violência sexual, 43,2% são de estupro de meninas abaixo de 14 anos. Sobre essa problemática, o Fórum alertou que “é fundamental a implementação de programas de educação sexual e combate ao abuso infantil, assegurando que professoras(es) e profissionais de saúde estejam preparados(as) para identificar e intervir nesses casos”.
Outro alerta feito pelo manifesto foi de que a cada quatro horas uma mulher é assassinada na região Amazônica. O dado é do relatório “Assassinatos de Mulheres no Amazonas: cenários após uma década da Lei de Feminicídio no Brasil”. O Fórum Permanente das Mulheres de Manaus destacou que “estes assassinatos possuem relação direta com o menosprezo à condição feminina e evidenciam a prevalência de estereótipos culturais discriminatórios por razões de gênero”. Ainda conforme o documento, 50,1% da população de mulheres do Amazonas está exposta a feminicídios, violências física, sexual, psicológica, além de xenofobia e racismo.
“Para além da justa indignação, faz-se necessário fortalecer as iniciativas que estão colaborando no enfrentamento das diversas violências, como a Lei nº 14.541/2023, que determina o funcionamento ininterrupto das delegacias especializadas, fortalecendo o encorajamento às denúncias e ampliando o acesso à proteção para as vítimas, ou como a Ronda Maria da Penha, no Amazonas, que tem como objetivo a fiscalização das medidas protetivas de urgência. Essa estratégia precisa ser melhor financiada e expandida para outras regiões da capital e do interior do estado”, alertou o Fórum.
No ato, o FPMM também chamou a atenção sobre a violência obstetrícia que tem inclusive como uma das consequências a morte materna. A entidade alerta que o Amazonas ocupou o primeiro lugar no país em morte materna nos anos de 2014 e 2018 e continua mantendo os primeiros lugares dos piores Estados para nascer. A pobreza menstrual foi outro problema levantado e que atinge diretamente meninas e mulheres em situação de vulnerabilidade. A falta de acesso a absorventes e saneamento adequado faz, por exemplo, com que meninas faltem à escola, comprometendo a educação e perpetuando um ciclo de exclusão e precariedade. “O Estado precisa garantir políticas públicas que assegurem a distribuição gratuita de absorventes para meninas e mulheres em situação de vulnerabilidade, incluindo aquelas que vivem em comunidades ribeirinhas, indígenas e periférica, considerando as distâncias dos grandes centros e buscando regionalizar as distribuições”, afirma o Fórum.
Educação, saúde, segurança e políticas ambientais estiveram na pauta do 8 de março das mulheres no Estado. As manifestantes comemoram conquistas, mas também reivindicaram proteção dos direitos conquistados e melhorias para continuar avançando. Em apoio à causa, a ADUA, representada pela Diretoria e outras(os) docentes sindicalizadas(os), esteve presente nas redes e nos atos presenciais manifestando a defesa irrestrita de uma vida digna para cada mulher, sem violência ou qualquer forma de opressão.

Foto: Sue Anne Cursino/Ascom ADUA
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