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  13/10/2021 - por José Alcimar de Oliveira



O cântico fraterno, spinozista e antiburguês de Francisco de Assis



 

A misericórdia é o amor à medida que o homem é afetado de tal maneira que se enche de gáudio com o bem de um outro e, contrariamente, se entristece com o mal de um outro (Benedictus de Spinoza, 1632-1677)

 

 

01. Francisco de Assis (1182-1226), que não nasceu Francisco, mas Giovanni, filho de Pietro di Bernardone, teve seu nome mudado para Francesco, que no italiano da época seria francesinho, talvez uma homenagem de seu pai à França, país que integrava o circuito de suas atividades de rico comerciante de tecidos. Quando Francisco nasceu, na ascendente e próspera burguesia da cidade de Assis, na rica Itália Central, seu pai encontrava-se na França. Não foi vítima, portanto, da miséria pensada por Gramsci, em seu texto inacabado, A questão meridional, em que problematiza a existência de duas Itálias num mesmo país presidido pela autocracia capitalista. No caso do Brasil a questão meridional implicaria discutir contraditórias mediações sociais.  Francisco de Assis, por sua origem de classe, escapou à miséria da Itália do Sul, àquela época ainda longe de ser unificada. Nasceu em berço dourado e desfrutou da boa vida dos jovens ricos de seu tempo. Com pouco mais de 20 anos, ao se identificar com a Boa Nova Samaritana de Jesus de Nazaré, entrou em conflito com suas origens burguesas, rompeu relações familiares com o pai e assumiu a pobreza evangélica como modo de vida e posição de classe. Sei que a terminologia classista aqui referida e tanto mais o método da luta de classes não têm a aprovação do Mouro de Trier. Creio que Alain Badiou (com a ajuda de Le Goff,  Chesterton e Boff), poderá mediar um possível diálogo entre o Mouro de Trier e o Chico de Assis.

 

02. Letrado, Francisco tinha conhecimento dos movimentos de contestação que muitos jovens em sua época organizavam contra a hegemonia do regime da cristandade medieval. Mesmo que não aderisse ao modo de vida transgressor dos goliardos, com sua crítica aos abusos do mundo clerical, Francisco também percebeu e se inquietou diante de uma Igreja rica, cercada e mantida pela miséria em que vivia a maior parte da população da chamada Idade Média. Foi um tipo de Gandhi medieval. Tomou abuso pelos excessos e cretinice da posse do ascendente modo de vida burguês e decidiu se fazer pobre com os pobres. Por volta de 1206 estava ele cuidando dos leprosos na cidade de Gubbio, perto de Assis. No meu tempo de seminário menor franciscano, aqui em Manaus, década de 1970, por volta dos 20 anos, nos deslocávamos a cada domingo, pela manhã, até a Colônia Antônio Aleixo, para a celebração da missa com os nossos irmãos segregados pela lepra. Exatamente naqueles anos, precisamente em 1976, celebrávamos os 750 anos da morte daquele a quem chamávamos de Nosso Seráfico Pai Francisco. Com aqueles irmãos postos à margem da Manaus Zona Franca, embalada pelo capitalismo industrial de montagem e montada na exploração da abundante força de trabalho indígena e caboca, na distante Colônia Antônio Aleixo, moravam as irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, as saudosas FMM, religiosas brasileiras e de diversos países, como França, Espanha, Itália, Suíça, que, com devotado espírito missionário, deixaram seus países de origem para cuidar dos mais empobrecidos entre os empobrecidos.

 

03. A Colônia Antônio Aleixo, em Manaus, fazia parte de nossa “questão meridional” ainda sem o estatuto teórico gramsciano. As ditas doenças tropicais não foram produzidas pela natureza. Menos ainda, como era difundido no Medievo, resultavam de castigo divino. Não tínhamos leitura nenhuma de Gramsci nem de outros teóricos críticos para perceber no capital, com suas estruturas de desigualdade, a origem dos dilaceramentos sociais. Para ser sincero, até nos deslumbrávamos diante da fria e excludente luminosidade do consumo.  Mas era viva a nossa identificação com o mundo dos pobres. Nosso deslocamento até a Colônia Antônio Aleixo dava-se por estrada de chão batido e a que hoje é a Zona Leste, a mais populosa de Manaus, ainda tinha sua geografia marcada pela vastidão verde e aquática, com poucos e esparsos moradores. Marcados pelo ímpeto da juventude, tal como o Francisco medieval, os seminaristas íamos e voltávamos à e da Colônia Antônio Aleixo sem nenhum medo de contaminação. Muitos de nossos colegas nos advertiam sobre o perigo do contato com aqueles irmãos. De nossa parte, o que restou na memória não foi o medo, mas a alegria de a cada domingo voltar à Colônia Antônio Aleixo e ser recebido com alegria por seus moradores em regime de confinamento e pelas Irmãs Franciscanas.

 

04. Por minha condição de teólogo sem cátedra, ou mais afinado com a heterodoxia, que imagino tenha movido Jesus de Nazaré e Francisco de Assis, arrisco-me a considerar o Poverello medieval um gramsciano avant la lettre em seu esforço teológico de traduzir para os pobres e desde o mundo dos pobres o Evangelho como Boa Notícia. O talvez mais renomado pesquisador e historiador do mundo medieval, ex-presidente da prestigiosa École de Hautes Études em Sciences Sociales, Jacques Le Goff, cujo discipulado historiográfico se deu com ninguém menos do que Fernand Braudel, afirmou numa fascinante biografia de São Francisco de Assis que “a novidade da mensagem de Francisco, a novidade de seu estilo de vida e de apostolado abalaram em primeiro lugar seus contemporâneos”. Abalaram sobretudo a seus pais. O ímpeto transformador de Francisco de Assis, ainda que depois muito do que viveu e projetou tenha sido desidratado pela instituição, foi o de tentar revolucionar as estruturas da Igreja a partir de dentro. Bem ou mal, já havia de forma embrionária intuído o conceito hegeliano de Aufheben, que inclui os movimentos de afirmação, negação e superação. Afirmava o projeto de Jesus de Nazaré. Negava o modo de vida de uma Igreja que se protegia dos pobres. Superava pelo testemunho de vida o status quo, bem estabelecido, da nada evangélica cristandade medieval. 

 

 

05. Ter-lhe-ia sido mais cômodo e funcional fundar uma Ordem segundo o modelo canônico já estabelecido pela Igreja Medieval, com seus suntuosos mosteiros beneditinos. Se assim tivesse feito, a aprovação pontifícia de sua proposta de vida evangélica teria sido célere. Francisco optou por outro devir, radical e originário, porque para ele, como vai dizer depois o Mouro de Trier, agir radicalmente implicava tomar as coisas pela raiz. Sem afrontar com discurso a normalidade do vigente paradigma beneditino de vida religiosa, Francisco de Assis opta por escrever uma breve Regra de Vida inspirada na itinerância do Evangelho de Jesus de Nazaré. Em 1209, mesmo que verbalmente, e não sem inconfessável desconfiança papal, obteve a aprovação de seu projeto de vida pobre e itinerante pelo Papa Inocêncio III. Estava fundada a Ordem dos Frades Menores, OFM. Comparado a Comte, seu conceito de Ordem não teria a aprovação do fundador do positivismo, com seu lema “Amor, Ordem e Progresso”: amor por princípio, ordem como fundamento e o progresso por fim. Conflito e luta de classes não faziam parte do projeto positivista de ordenação social.  Em Francisco de Assis a Ordem (Ordo) implicava introduzir desordem evangélica na velha ordem da cristandade medieval, muito bem instalada no sedentarismo dos grandes mosteiros. Os Frades Menores, no máximo, deveriam habitar tendas, jamais suntuosos conventos. Mas como até o Diabo reconhece no filme A Encruzilhada, “nada nunca é como a gente quer que seja”. As tendas itinerantes deram lugar a grandes conventos e igrejas.

 

 

06. Seria muito difícil, tenso mesmo, um diálogo entre Francisco de Assis e Thomas Hobbes. Francisco era habitado e movido de forma antecipada pelo conceito spinozista dos bons afetos, da alegria, da misericórdia, da comunhão fraterna dos homens entre si e destes com a natureza. Ao contrário do homem lobo do homem – homo homini lupus – base autoritária do Estado-Leviatã hobbesiano, Chico de Assis preferia a solidariedade, o diálogo e a alegria ao egoísmo, ao autoritarismo e ao medo. É célebre em Francisco o episódio do Lobo de Gubbio, pequena cidade perto de Assis, na região da Úmbria, cujos moradores, sobretudo os pastores e seus rebanhos, viviam atormentados pelos ataques de um lobo feroz. Presididos pelo medo, os eugubini, como eram chamados os moradores de Gubbio, se organizaram com as armas de que dispunham para dar cabo do perigoso lobo. Conforme atestam os I Fioretti (um belo florilégio sobre os primeiros tempos do modo de vida franciscano), Francisco tomou conhecimento do que ocorria e foi ter com o lobo – fratello lupo – e logrou um acordo de paz entre a besta cruel e os citadinos. A única condição imposta para o acordo era que os habitantes da cidade se comprometessem a alimentar o lobo. Segundo os registros, o lobo ainda viveu por dois anos em Gubbio, e sempre bem alimentado, andava com civilidade de porta em porta, sem fazer mal a ninguém e sem que ninguém lho fizesse, nem mesmo os cães.

 

07. Inspirado em Francisco de Assis, cuja festa celebramos a cada 04 de outubro, o Papa Francisco, o mais franciscano dentre os jesuítas, lançou no dia 03 de outubro de 2020 a Carta Encíclica Fratelli Tutti, sobre a fraternidade e a amizade social. Igualmente inspirada no ideário de Francisco de Assis foi também sua Carta Encíclica, de 2015, Laudato Si’, Louvado Sejas, sobre o cuidado da casa comum. No início do século XIII, antes da emergência da questão ambiental, Francisco de Assis já protagonizava uma forma de vida orientada pelo cuidado e relações de simbiose entre cultura e natureza, entre o ser social (dito humano), o ser orgânico (flora e fauna) e o ser inorgânico (ar, água e terra). Tratava a todas e todos como irmãs e irmãos. Há muito de spinozismo antecipado em seu belo Cântico das Criaturas. Há mais convergência do que oposição entre o Deus feito criatura de Francisco e o Deus sive Natura de Spinoza. Francisco de Assis não pode ser responsabilizado pelo que se fez depois do seu projeto. Se tivesse chegado à Amazônia indígena no tempo em que viveu, na virada decisiva do século XII para o XIII, ele estaria entre aquelas e aqueles que logo estabeleceriam relações de empatia e de fraternidade com os povos originários da Grande Amazônia e da Pátria Grande. São Francisco é o mais universal dos santos, de Assis, na Itália, de Canindé, no Ceará ou de Anamã, no Amazonas. Junto com Santo Antônio, está entre os santos mais populares do povo brasileiro. Talvez por ser franciscano, Santo Antônio é único santo igualmente popular e Doutor da Igreja. Uma belíssima exceção. São Francisco, que fraternalmente conviveu com Santo Antônio, o chamava de “meu bispo”.

 

 

*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Aos dez dias de outubro do ano do morticínio de 2021.







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