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Viva Melhor


   


  20/09/2021 - por José Alcimar de Oliveira



Paulo Freire, educador do oprimido como classe



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O otimismo, em sua essência, não é um ponto de vista sobre a situação presente, mas uma força vital, uma força da esperança onde outros resignam, uma força para manter a cabeça erguida quando tudo parece falhar, uma força para aguentar reveses, uma força que jamais cede o futuro ao adversário, mas o reclama para si. Certamente existe também um otimismo covarde, tolo, que deve ser rejeitado. Mas ninguém deve colocar sob suspeição o otimismo como vontade voltada para o futuro, mesmo que ele erre centenas de vezes (Dietrich Bonhoeffer, 1906-1945, pastor protestante executado a mando de Hitler no dia 09 de abril de 1945).

 

 

01.  É neste ano, de acelerada regressão cognitiva e política, que o Brasil que se recusa a entregar o futuro às forças do ódio organizado como forma de governo, celebra o centenário de nascimento de seu maior educador, Paulo Freire, nascido em 19 de setembro de 1921. A Pedagogia do Oprimido, de 1968, seu livro mais conhecido e objeto de estudo nas principais universidades dos cinco continentes, é a terceira obra na área de ciências sociais e humanas mais citada no mundo, segundo a London School of Economics. Exilado do Brasil pela ditadura empresarial-militar em 1964, Paulo Freire só pôde regressar à sua pátria em 1979 por força da Lei da Anistia e sua volta definitiva ocorreu somente em 1980. Em maio de 1982 esteve pela primeira vez em Manaus, calorosamente recebido e saudado pela população, sobretudo estudantes e trabalhadores da educação. Guardo até hoje comigo, em folhas amarelecidas, as anotações que fiz de seu encontro na Universidade Federal do Amazonas.  A Manaus de 2021 ganharia muito se revisitasse, pelo exercício da memória, a Manaus que recebeu Paulo Freire em 1982.

 

02. Quase 40 anos depois de sua vinda a Manaus e no ano do centenário de seu nascimento, o Patrono da educação brasileira está, há pelo menos cinco anos, sobretudo a partir do golpe jurídico, parlamentar e empresarial de 2016, submetido à mais retrógrada campanha de desqualificação que já se fez a um pensador brasileiro. Paulo Freire é vítima de um duplo exílio no Brasil:  em vida em 1964 e em morte neste 2021. Parece que a boa consciência da estupidez quanto menos o conhece mais o detesta. Enquanto seus leitores, estudiosos e militantes de sua práxis educativa e libertadora sentem-se intimidados e muitos nem ousam pronunciar seu nome, os fanáticos andam à solta, nas instituições de ensino e fora delas, a atacá-lo sem que jamais tenham tido contato com o seu legado pedagógico.   Vítima do ódio e da ignorância de gente boçal e reacionária, Paulo Freire é de outro Brasil. O Brasil de Paulo Freire, o nosso Brasil, é o país da educação “como prática de liberdade”, da educação como “um ato de conhecimento, (como) uma aproximação crítica da realidade”. Em Paulo Freire método não é procedimento técnico, é antes teoria do conhecimento. Paulo Freire não criou um método, mas uma teoria dialética (porque dialógica) da educação.

 

03. O que ocorre neste 2021 é a demonstração da parte de um Brasil que regride rumo às sombras. As sombras da ignorância avançam mais rapidamente do que as luzes da razão histórica. É triste verificar, sobretudo nas redes sociais, pessoas que nunca leram uma só linha da grandiosa obra de Paulo Freire seguirem esse andor de ignorância e intolerância. Sou um leitor e admirador de sua obra teórica e de sua práxis política e educativa desde 1978, quando iniciei o Curso de Filosofia e Teologia no antigo Cenesch, vinculado à CNBB Norte I. Triste do país que desonra seus mestres. Triste do país que promove o fanatismo. O fanático vive da vontade de crença e sua cabeça obstinada é permanentemente reativada por um tipo de dissonância epistemológica: estado cognitivo de uma mentalidade que faz da alienação seu alimento cultural, fidelizada que é pela ignorância, e que consiste em rejeitar de forma quase instintiva aqueles conteúdos cuja consciência foi programada para rejeitar, independentemente da força objetiva da prova. O fanático é um prisioneiro mental, alguém possuído pelo objeto de sua crença. É escravo de um duplo ódio: ao conhecimento e à política. Combina misologia e misogoria.

 

04. Para falar de suas raízes e de sua grandiosa e orgânica origem intelectual, Paulo Freire é um filho legítimo do pensamento dialético de Sócrates, Jesus, Hegel, Marx e dos grandes pensadores e educadores do século XX. A sua pedagogia dialógica, cujo conteúdo classista é devedor da tradição materialista histórica e dialética da filosofia, se constitui não a partir do sujeito burguês, pertencente a um ambiente cultural e político que Habermas denomina de comunidade ideal de fala, mas antes a partir do sujeito histórico submetido como classe à situação estrutural da exploração da burguesia sobre o proletariado. Sua pedagogia é a da superação do mutismo a que o povo é condenado a viver, impedindo-o de falar de si como oprimido e de falar contra a opressão de classe. O sujeito social e histórico a quem Paulo Freire dedica sua Pedagogia do oprimido é revelador de sua opção classista: “aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam”.

 

05. Dentre os pensadores e educadores do século XX, um pensador brasileiro pouco lembrado é Álvaro Vieira Pinto, a quem, na sua Pedagogia do oprimido, Paulo Freire chama de “mestre brasileiro”. A este grande mestre (de Darcy Ribeiro, inclusive) Paulo Freire manifesta seu agradecimento por ter consentido que citasse sua portentosa Ciência e existência: problemas filosóficos da pesquisa científica ainda antes da publicação. Já disse mais de uma vez que a melhor definição de Paris, cidade que até hoje não conheço, e que há 150 anos foi palco do primeiro Governo Operário e Comunal da História, me veio de Walter Benjamin: um imenso salão de biblioteca atravessado pelo Sena. Quisera que o maior monumento de Manaus fosse uma biblioteca de frente para o rio Negro. Que povo poderá se assenhorar das armas da crítica e do conhecimento num país em que a política de governo incentiva e facilita mais a circulação de armas do que de livros?

 

06. Em homenagem a Álvaro Vieira Pinto, reproduzo uma citação de Ciência e Existência feita por Paulo Freire em sua Pedagogia do Oprimido: “O método é, na verdade, a forma exterior e materializada em atos, que assume a propriedade fundamental da consciência: a sua intencionalidade. O próprio da consciência é estar com o mundo e este procedimento é permanente e irrecusável. Portanto, a consciência é, em sua essência, um ‘caminho para’ algo que não é ela, que está fora dela, que a circunda e que ela apreende por sua capacidade ideativa. Por definição, a consciência é, pois, método, entendido este no seu sentido de máxima generalidade. Tal é a raiz do método, assim como tal é a essência da consciência, que só existe enquanto faculdade abstrata e metódica”. Diria que pelo método a leitura da palavra, sempre antecedida pela leitura do mundo, é que o oprimido pode dialetizar o mundo e a palavra. Alfabetizar, em Paulo Freire, não é soletrar mecanicamente fonemas. É ler a palavra a partir do mundo do oprimido. É agendar no calendário dialético a práxis da undécima Tese de Marx sobre Feuerbach.  

 

07. Paulo Freire lidava com pessoas, com nome-carne-e-osso, de mil- e-tantas-misérias, como diz o grande Guimarães Rosa; falava com o oprimido, do oprimido e a partir do oprimido como classe social.  Diferentemente da burguesia inflada de si, ressentida, contente e assassina, que lida apenas com números. A burguesia conta com meios para assepsiar a realidade, tergiversar, manipular os fatos. Para a linguagem burocrática dos tecnocratas a manipulação das consciências está sempre na ponta da língua e os problemas reais do povo são facilmente escamoteados. O Brasil hoje converteu-se numa usina de falsificação da história, de destruição da memória e de mitificação da realidade. Tudo dentro e sob o controle da ordem do crime, da barbárie e da necrocracia. Sem indignação ética e justa revolta, e sob o método da luta de classes, não cessará a torrente de morticínio desta pandemia, sobretudo devastadora para a classe que vive do trabalho e produz a riqueza de que é impedida de se apropriar. Vida longa à memória irredenta do educador Paulo Freire, que fez da práxis educativa um ato de conhecimento e um itinerário de libertação do oprimido como classe. 

 

*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA - Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, no dia 19 de setembro do ano do morticínio de 2021.

 







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