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  24/06/2021 - por José Alcimar de Oliveira



A força da retrotopia: quando a ordem se faz ordem do dia



 

Vossa terra está assolada, vossas cidades, incendiadas. Os inimigos, à vossa vista, devastam vosso país. É uma desolação, como a ruína de Sodoma (Is 1,7).

 

               01. No Brasil da ordem acima da lei até a filosofia positiva de Auguste Comte é vítima de uma degeneração epistêmica. É sabido o quanto o conceito de ordem é caro ao celebre autor da “lei dos três estados”. Mas é impossível encontrar no pai do positivismo o menor resquício de negacionismo e ódio à ciência.  Seu conceito de ordem postulava uma base científica. Mesmo numa filosofia avessa ao pensamento dialético, como é a teoria da ciência de Auguste Comte, aí identificamos uma verdadeira apologia ao pensamento científico. Visitasse o Brasil em 2021 Comte imaginaria encontrar-se na França do Medievo.

 

               02. O Brasil de 2021 nos obriga a reabilitar Descartes e Comte. Reativar o bom senso e o culto à ciência. O que nos impõe contornar, ou pelo menos temporariamente suspender (ou pôr em regime de contenção, porque contornar é impossível) as ideias de Kant, Hegel, Marx e Engels sobre o devir iluminista do conhecimento.  À política de destruição do débil Estado nacional soma-se o ódio ao conhecimento, científico inclusive. Ganha corpo a política de desativação do debate político, de substituição da realidade pela impostura da realidade politicamente falsificada. Esse processo de regressão nas conquistas civilizatórias está ancorado em pelo menos cinco moventes ideológicos a seguir objetivados e em permanente estado de ativação: 

 

               03. O MEDO à liberdade de ir, de vir, de pensar, de falar, de escrever e de publicar.  Afinal, o medo é um movente imóvel e se capilariza mais ligeiro do que a esperança. O medo gera o imobilismo, é retensivo, recolhe e acua.  A esperança nasce do agir, é expansiva, acolhe e move. Para revisitar Espinosa: “Porque a multidão livre conduz-se mais pela esperança que pelo medo, ao passo que uma multidão subjugada conduz-se mais pelo medo que pela esperança: aquela procura cultivar a vida, esta procura somente evitar a morte”.

 

               04. O MAL ideologicamente personificado (porque o mal abstrato, metafísico, só interessa aos filósofos) pelas imagens e pelos discursos da esquerda e da crítica, pelo outro convertido em inimigo a ser eliminado. A política do mal opera pelo estigma. O estigma é da ordem do extirpável. Numa leitura enviesada e míope de Heráclito e Parmênides é como se o mal fosse a contradição dialética e o bem a ordem metafísica. Porque no ser não há espaço para o não-ser. O que é, é. O que não é, não é. Simples assim. Diante disso, como se justificaria Jesus de Nazaré ao dizer que veio “trazer fogo sobre a terra (o fogo símbolo da dialética heraclítica), e como gostaria que já estivesse aceso! ” (Lc 12,49)? Numa carta, considerada apócrifa, do evangelista João consta que Jesus de Nazaré costumava ler os Fragmentos de Heráclito em seu refúgio na Betânia. Palavra de origem hebraica que significa “morada dos pobres”.  

 

               05.  O ÓDIO à vida, à teoria e ao próprio pensamento. Para a política do ódio (fascismo) a teoria conspira contra a prática. O Brasil tem pressa e a solução (final) não pode ser sabotada pela nocividade e ociosidade do debate democrático. O ódio imprime velocidade ao agir porque dispensa a argumentação. O ódio é refratário ao compreender. Segundo Espinosa, o ato de “compreender é, pois, a virtude absoluta da mente” (est igitur mentis absoluta virtus intelligere). Um ser afetado de ódio tem a sua compreensão embotada. Ainda segundo Espinosa, “tudo aquilo que apetecemos por estarmos afetados de ódio é desleal e, no âmbito da sociedade civil, injusto”. O ódio des-humoriza a quem odeia. Torna-o um ser biliático. Quem que faz do ódio uma forma de vida, ou é privado do rir, ou tem um riso difícil, de natureza mecânica, artificial e carente de interioridade.  

 

               06. A INSEGURANÇA fabricada e disseminada como mecanismo de contenção social e de legitimação da ordem acima da lei. O Brasil está entre os países em que mais se disseminou a indústria da segurança. E custa caro ter acesso à sensação de segurança. É como o líder religioso que alimenta e vive do demônio que simula expulsar. É necessário criar insegurança para valorizar e ampliar o circuito mercantil da segurança. Por isso, o apelo e o fetiche pela ordem. A ordem hoje se sobrepõe à Constituição. A Constituição gera o caos. A ordem nos salva e protege. A grande cavalgada da ordem contra o caos poderá nos conduzir ao Estado de exceção, imune à desordem e ao conflito, e já de fato em curso.

 

               15. A RETROTOPIA (Bauman) que nos levará ao passado ideal. Nosso futuro está mesmo é no passado. Somente o passado, resgatado pela falsificação da história e destruição da memória, e ao alargar suas fronteiras no presente, pode nos mover ao futuro. Não há futuro se no presente não nos voltarmos para o passado. É por isso que o “anjo da história” de Walter Benjamin tem os olhos vidrados no passado. O fundamentalismo religioso e a ordem miliciana são suportes axiológicos do progresso regressivo. O Brasil será enfim remido pelos valores do Amor à Pátria, da Segurança da Propriedade Privada, do Progresso em Cadência, da Restauração da Família Cristã, da Liberdade de Ir, Vir e Empreender e, acima de tudo, de voltar a ter Deus Acima de Todos.

 

*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos 22 dias de junho do ano pandêmico de 2021.

 

Charge: Reprodução/The Economist







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