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  03/07/2020 - por Felipe Demier



Autonomia, burocracia e pandemia: a volta ao normal na universidade brasileira



Autores como Weber, Trotsky e Poulantzas já assinalaram a força social da burocracia e seu papel eminentemente conservador. Conferir funcionalidade à ordem, naturalizá-la e, sobretudo, preservá-la, eis a sua tarefa principal. Poderíamos dizer, sem muitos riscos, que os tempos de pandemia demonstram, com nitidez, tal perspectiva, e o fazem de modo cinzento e tépido, bem ao gosto burocrático.

 

Dialeticamente, seu conteúdo é a submissão de todo conteúdo à forma, e todo ele pode ter que mudar para que a forma fique como está e, assim, conserve aprisionada qualquer forma crítica ao conteúdo do sistema. Nessa conjuntura anormal, toda ação burocrática tem por fito a manutenção de sua própria inércia estrutural, todo o seu ânimo excepcional almeja não mais do que a vigência da regras apáticas do sistema, todo o seu óleo crítico serve apenas à dinâmica acrítica das engrenagens da máquina, toda a sua emoção com o retorno “à normalidade” é fruto de seu amor ao insípido ramerrão, e todo o seu ímpeto não visa senão à conservação da lógica da coisa – sem nunca questionar, claro, a coisa da lógica. Sua regra, claro, é a manutenção das regras, mesmo em tempos de exceção.

 

As universidades talvez sejam um exemplo perfeito dessa racionalidade irracional com a qual opera a burocracia nesses dias tão estranhos, onde não só a poeira, como também a razão fica escondida pelos cantos. Sem que haja qualquer pressão significativa por parte dos poderes políticos, e nem mesmo da parte do capital, as burocracias universitárias se esforçam para se adaptar ao novo de modo que o velho possa continuar a funcionar, mesmo que o faça adoecido – no sentido figurado, mas também no real. Como uma Deusa ex-machina, a burocracia coloca em movimento todos os seus órgãos para que o sistema não pare, e seus servos amantes da servidão que sempre cultuaram papéis os dispensam tão rapidamente quanto os cristãos novos dispensaram Israel, pois, mesmo que a forma tenha que ser digital, o importante é a volta ao normal da própria forma. Centenas de reuniões são realizadas, ofícios são enviados à porfia, cobranças por cobranças são feitas em demasia, e as instâncias de cima demandam respostas das de baixo alegando terem sido demandadas pelas suas superiores, as quais, por sua vez, alegam que as coisas “já estão sendo feitas”, sabe-se lá por quem, e que assim o estão porque “havia uma cobrança”, sabe-se lá de quem, para que assim o fosse. Solitários, ensimesmados, entediados e carentes, muitos cientistas, movidos talvez pelo espírito gregário e pelo pavor que a combinação de certo tempo livre e livros nas estantes pode provocar em mentes de “pouco treino sociológico”, para citarmos Deutscher, abandonam talvez uma das raras oportunidades de se fazer ciência e clamam pela volta às atividades rotineiras em nome da defesa da universidade e da ciência. Já os altos burocratas acadêmicos, que se apaixonaram pelo zoom com a mesma celeridade com que se tornaram alérgicos à reflexão, envidam esforços para que, invertendo Brecht, “tudo posa parecer natural”, afinal, mergulhados no “silêncio imposto pela estreiteza de sua inteligência e seu pequeno alcance”, diria Balzac, eles “têm, nas grandes circunstâncias da vida, uma solenidade natural”.

 

“Todos os outros cursos já estão discutindo a volta”, “a faculdade tal já está decidida a voltar”, a outra “já marcou data para o retorno”, “todas as outras pós-graduações já voltaram”, algumas “sequer pararam”, “a Sucupira [sim, a Sucupira é um novo sujeito] está pedindo mais comprovações scanneadas”, “os prazos estão mantidos”: é esse o léxico dogmático de uma universidade cuja burocracia, a rainha do dia a dia, insiste em negar implicitamente a pandemia, mesmo sabendo explicitamente da sua existência. Supostamente discípula da razão, a burocracia universitária a nega tal qual Pedro a Cristo. Numa lógica burocrática que esconde seu sujeito, pois o sujeito já se tornou ela própria, professores, técnicos-administrativos e alunos se tornam todos sujeitados, alienados por um fazer-se universitário que parece existir sem eles, fora deles, e que os obriga a “fazer o que tem que ser feito”, afinal, “não há outro jeito”. Assim, muitos que reivindicam a tal “autonomia universitária” se sujeitam a dizer que “temos que voltar, de um jeito ou de outro, pois tudo já está voltando”, esquecendo-se de que em meio a esse tudo não há nada, simplesmente nada de normal nessa volta à normalidade, pois não há um só sequer fator novo na pandemia brasileira que a justifique.

 

Não houve lockdown no país, e nem mesmo isolamento social a sério, mas o aumento da pressão empresarial e governamental parece conduzir muitos na universidade a uma espécie de fetichismo do fator tempo, como se o simples passar deste fosse suficiente para modificar as coisas, o que é o mesmo que achar que de tanto ficar suja na pia à espera de mãos que a lave a pilha de louça converte-se, numa bela manhã de outono, em limpa, ou pelo menos em já não tão suja: “já tá bom, né? As coisas parece que já estão melhorando, né? Já dá pra gente ir fazendo algumas coisas que antes não fazia, né?”. Assim, para muitos insignes membros da nossa intelligentzia burocrática universitária, parece mais razoável voltar a dar aulas sob 60 mil cadáveres do que simplesmente cogitar que, talvez, este ano já esteja academicamente condenado.

 

Em tempos de uma mórbida naturalização da normalidade, cujo odor fétido se faz sentir mesmo com máscaras, talvez a verdadeira defesa de uma vida normal passe por reconhecer que não pode agora o capital e o neofascismo decidir quais são as normas, pelo menos não na universidade. Esse ano letivo não deve existir nas universidades brasileiras, assim como também não deveria existir nas escolas do país, e essa possivelmente seria a melhor resposta prática ao neofascismo que celebra a letalidade como a nova normalidade. Oferecer normalmente disciplinas normais nesse ano anormal e retomar as atividades docentes neste ano que amargamente já vimos que não existiu será tão válido quanto o currículo de um ministro que não foi.

 

*Felipe é doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

 

**O texto foi publicado originalmente, no dia 2 de julho de 2020, em esquerdaonline.com.br



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