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  03/06/2020 - por Padre Justino Sarmento Rezende



Povo Yanomami possui práticas culturais que garantem a sustentabilidade de suas vidas



Iniciando a conversa!

 

Eu nasci no ano de 1961. Papai era do povo Ʉtãpinopona-Tuyuka e mamãe do povo Yepamasa-Tukano, da região de Pari-Cachoeira. Os Desano, Mirititapuia, Yebamasa, Bará, Hupda, Tukano, Carapanã, Tariano, Piratapuia, Wanano, Kubeu, Arapaso são nossos conterrâneos da bacia do Rio Uaupés, do município de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas - Brasil. Nos anos de 2010-2016 convivi com os Yanomami do rio Marauiá, no município de Santa Isabel do Rio Negro. Em 2020 voltei para esta região.

 

Antes que eu entrasse na área, devido à Covid-19 surgiram as medidas dos governos, na esfera municipal e estadual, decretando a quarentena, isolamento social, suspensão de atividades escolares no Amazonas. Seguindo essas orientações os Yanomami decidiram sair de seus xaponos (comunidades) para os acampamentos mais distantes. É uma forma de se protegerem.

 

É pela primeira vez que eu vejo, com os meus 59 anos, uma pandemia tão assustadora. No tempo em que eu era criança chegaram as epidemias de sarampo e coqueluche que fizeram muitas vítimas, assim contavam os meus pais. Na epidemia de coqueluche morreu a minha irmã mais velha, primeira filha de meus pais. Minha mãe contava que eu sobrevivi de coqueluche. No tempo em que eu estava estudando no internato salesiano, pelo ano de 1973, morreu outra irmãzinha de 6 anos de idade, de coqueluche.

 

As experiências tristes de perder filhas faziam com que os meus pais ficassem com muito medo ao ouvir dizer que vinha a epidemia de sarampo e coqueluche. Já se organizavam para ir aos acampamentos, distantes da comunidade. Desses acampamentos vinham à roça buscar as mandiocas para extrair goma (tapioca) para poder fazer beiju e farinha. Cada família ou grupos de famílias formavam os acampamentos próprios. Ali surgia estilo de vida próprio, de convivência e trabalho.

 

Os isolamentos sociais serviam para defender as famílias de uma região. Alguma família mais corajosa permanecia na comunidade para servir de ponte entre as comunidades da região e as famílias acampadas. Ela que informava como estava a situação da epidemia na região.

 

Quando eu era criança eu vi minha mãe chorando várias vezes sentada no chão, no centro da nossa casa. Com a curiosidade de uma criança eu perguntava: mamãe, por que está chorando? Ela me dizia: deixa-me chorar, vá brincar! Posteriormente, o meu pai contou que a minha mãe chorava ali no centro da casa, pois ali estava enterrada a minha irmã. Ele dizia que ela continuava vivendo conosco. Poucas vezes eu vi o falecimento das pessoas, pois os nossos pais não permitiam que nos aproximássemos do falecido, pois segundo eles a mesma doença que levou à óbito poderia atingir quem não estivesse protegido. Os sábios com um cigarro faziam rápida cerimônia de proteção. O pai da família chamava seus filhos, fumava o cigarro e soprava a fumaça sobre o corpo da criança. Também os velhos faziam o mesmo procedimento.

 

Os adultos juntavam-se na casa do falecido. As mulheres sentadas próximo do parente do falecido choravam em voz alta, narrando sobre as ações boas que o (a) falecido (a) realizava dentro da família e na comunidade. Também alguns homens choravam. Choravam em grupo. Enquanto isso, alguns homens iam buscar uma canoa. Depois cortavam em duas partes para colocar dentro o corpo do falecido. Outros homens iam à capoeira ou no cemitério cavar o túmulo. Os parentes choravam inconsolavelmente até o enterro.

 

Os parentes ainda choravam por mais alguns dias. Depois o Basegʉ, agenciador da proteção (benzedor), usando o seu cigarro ou bebida no nível metafísico, desliga o fio de conexão existente entre as pessoas que vivem no mundo dos vivos e quem vive no Boriwi – mundo dos falecidos. O basegʉ envia todas as coisas utilizadas pelo falecido no Boriwi. Aos parentes oferece a cuia de bebida da alegria, faz fumar o cigarro da alegria e os deixa sentar no banco da vida e alegria. Desta forma, os parentes nesse mundo e o falecido noutro mundo seguem vivendo. Apesar dessa crença, o meu avô me contava que os falecidos visitam aos seus parentes todos os dias, chegam em forma de ventania leve no final de cada dia.

 

Nos anos de 2010-2016, aceitando a sugestão dos meus superiores salesianos fui ajudar na missão salesiana junto ao povo Yanomami, no Rio Marauiá, nos seguintes xaponos: Komixiwë, Pohoroá, Tabuleiro, Balaio, Piranha e Serrinha. Foi a primeira vez que convivi com os Yanomami.

 

A minha vida tuyuka e minha trajetória acadêmica em Filosofia, Teologia e Educação não foi suficiente para me ajudar na aceitação das tradições do povo Yanomami. Senti um profundo estranhamento de mim mesmo e de outro povo. Teórica e discursivamente possuía um bom domínio sobre a questão da interculturalidade, diversidades socioculturais, inculturação (encarnação), fortalecimento das culturas, autonomia, autodeterminação dos povos, valorização e respeito pelas culturas. Na prática tinha que ressignificar todos esses instrumentos mentais.

 

O povo Yanomami possui muitas práticas culturais que garantem a sustentabilidade de suas vidas e de seus xaponos: cerimônias diárias de paricá, os especialistas cantam e dançam com suas vozes fortes que ressoam longe, somem nas florestas, sobem nas alturas, penetram no nosso chão e subterrâneo. Seus sons circulam pelas casas circularmente organizadas. Se no cotidiano é assim, nas festas é muito mais, quando todos os homens, mulheres, jovens e crianças bem pintados com urucum e com detalhes com linhas pretas em seus corpos dançam, gritam todos ao mesmo tempo, suam.

 

Os homens usam braceletes nos seus braços com plumas de pássaros papagaio e arara. Nos seus cabelos enfeitam com plumas de mutum, gavião, etc. Quando todos cantam os sons se espalham pelo xapono, pela floresta que está muito próxima do xapono, os sons das pisadas penetram no subterrâneo e sons se espalham entre as nuvens.

 

Aí estava eu com o meu modo tuyuka. Eles pintavam todo o meu corpo com suas pinturas. Às vezes eu queria pintar minhas pinturas tuyuka, mas eles me diziam: não dá para ver nada! Vamos pintar com as nossas pinturas. Eu precisei ser iniciado mesmo na academia Yanomami. Os velhos xamãs e seus filhos diziam: vamos pintar com as pinturas próprias do tuxaua! Eu dizia: eu não sou tuxaua! Eles diziam: o padre é como um tuxaua. Eu pensava: será que eu vou me acostumar com esse povo e sua cultura?

 

Eu nem imaginava como era essa festa. Para o meu espanto os jovens e as crianças vinham contando com alegria: padre, nós teremos uma grande festa! Eu perguntava: festa de que? Eles logo diziam: morreu o nosso parente; o senhor vai participar? Eu dizia: não sei como funciona? De todas as maneiras eu percebia que eles estavam alegres.

 

Os Yanomami aos quais eu me refiro nesse texto são dos xaponos citados acima, não conheço as diversidades de práticas Yanomami sobre os funerais. Nos xaponos onde eu convivi durante sete anos, quando alguém morre realizam a cerimônia de cremação do falecido. Somente numa ocasião eu presenciei a morte de uma criança em um dos xaponos. Alguns homens encarregados buscam a lenha, preparam o fogo e fazem a cremação. Os parentes choram. Choram até a realização da festa. No final da cremação, os homens encarregados juntam os ossos no cesto e guardam bem protegidos para a festa.

Para mim, a festa fúnebre marcou profundamente. Passado alguns dias e semanas os parentes organizam a festa. Muitas vezes convidam os parentes de outros xaponos e outras vezes até de outra região. Buscam muitos cachos de banana pacovan e deixam amarrados no travessão da casa de cacique. Os homens bons de caça são indicados a irem se acampar, matar a caça e moquear (secar ao fogo) quantidade suficiente para oferecer no almoço da grande festa. Nesse período no xapono começa a dança em cada noite: até meia noite são as mulheres que cantam e dançam; depois da meia noite até ao amanhecer são os homens. Eu participei em diversas festas.

 

No penúltimo dia de tarde é a chegada dos caçadores. Todos os moradores se juntam num lugar para as pinturas, caciques, mulheres, jovens, adolescentes e crianças. É uma festa! Eu era convidado e participava. Deixava que eles pintassem todo o meu corpo, seguindo a sua tradição. Os homens fazem a cerimônia de soprar o paricá nesses momentos.

 

Os caçadores chegam e entram no xapono dançando e gritando. Em suas costas carregam jamaxis grandes de carne de caça. Os demais ficam assistindo a dança deles. Quando eles terminam é a vez de quem ficou no xapono. Costumam entrar em pares a cada vez, um segue dançando para direita do xapono e outro para o lado esquerdo. Deve-se dar uma volta inteira no xapono. No final, todos se juntam para dançar e cantar enfileirados. Dança e canto continua a noite toda.

 

Ao amanhecer, um encarregado ou familiar do falecido carrega o cesto com os ossos para dançar. Todos os moradores dançam e cantam. Os parentes ainda choram pelo falecido. Terminada a dança, todos se juntam na casa do cacique para a cerimônia de pilação dos ossos. São os mesmos homens que cremaram o corpo que fazem a pilação. Duram duas horas aproximadamente. Os parentes próximos choram. Os demais ficam olhando, sentados e outros deitados na rede. As mulheres encarregadas de preparar a alimentação seguem trabalhando. Mas a grande quantidade de mingau de banana pacovan já está pronta.

 

Concluída a cerimônia de pilação, os organizadores pedem para trazer as panelas de mingau de banana. Os caciques põem as cinzas de falecido no mingau e mexem bem antes de tomar. Os familiares do falecido e os caciques são os primeiros a tomar o mingau. Eles tomam bastante, pelo menos três cuias.

 

Eu nunca tinha participado dessa cerimônia. No fundo do meu coração eu estava torcendo para que eles não me convidassem para tomar o mingau. Porém, os tuxauas logo me convidaram para tomar o mingau misturado com as cinzas de falecido. Meu corpo estava resistindo àquele momento. Com muito custo terminei de tomar os três copos previstos. A resistência psicológica àquela prática cultural me deu a sensação de que eu estar com febre, diarreia, dor de cabeça, etc. Eu fiquei deitado na minha rede e pensando naquele momento. Eu parecia estar muito arrependido e triste. Eu estava consciente de que para os Yanomami é um grande evento sociocultural. Eu pensei comigo mesmo: eu tenho sair desse meu sentimento. Levantei e voltei para ver a festa que continuava ainda, com as crianças tomando o mingau. Eles me perguntaram: você gostou de tomar mingau? Eu disse: sim, gostei bastante. Somente na primeira vez que eu senti daquele jeito. Nos sete anos de permanência participei dessas festas várias vezes.

 

Fechando a conversa

 

A pandemia da Covid-19 provocou-me a refletir sobre esse tema de enterro e cremação dos falecidos: Covid-19 atinge as raízes das cerimônias rituais fúnebres dos povos do noroeste amazônico e o povo Yanomami?

 

Enquanto a pandemia estava distante daqui e com poucas informações não causava grande preocupação. Na medida em que a pandemia veio nos cercando de todas as formas, em quantidade grande de informações, de países atingidos, número de casos suspeitos, confirmados e mortes foi gerando mais medo. Está pertinho de nós e nos preocupa. Entramos em regime de quarentena e isolamento social.

Eu percebo que a Covid-19 é uma doença destrutiva mesma. Há quem não acredita nisso. Ela destrói o sentido familiar e social que se tem pelo doente e ao falecido. Vejo que os parentes não podem nem chegar perto para despedir-se no caso da morte. Em diversos países cremaram e noutros enterraram em números grandes numa mesma cova. Essas situações me provocam a pensar em nossos povos do noroeste amazônico e ao povo Yanomami. De algumas semanas para cá eu ficava refletindo comigo o quão trágico seria se atingisse o povo Yanomami da região donde eu atuo, onde a tradição é cremar e fazer a festa. Igualmente triste seria para os povos do Alto Rio Negro que despedem de seus entes queridos chorando de perto.

 

Com a morte do primeiro Yanomami, vítima de Covid-19, em Boa Vista, na semana passada surge uma questão que eu imaginei que apareceria. As lideranças Yanomami reivindicam explicações pelo enterro do jovem na cidade, sem escutar e sem consentimento dos parentes.

 

É um tema que precisa ser estudado conjuntamente, Yanomami, os médicos, especialistas em leis e especialistas de outras ciências. A vítima de Covid-19 que foi a óbito, ainda transmite o vírus? Qual é o alcance de coronavírus no corpo humano? Atinge até aos ossos?

 

O que me parece estar em disputa para a tradição yanomami é o aproveitamento dos ossos do falecido como matéria importante da festa fúnebre. O aproveitamento das cinzas da vítima de Covid-19 contaminaria aos Yanomami se tomarem o mingau de banana misturado com as cinzas do falecido, vítima do coronavírus?

 

Fico a imaginar que não é somente um problema judicial que poderia levar a dizer: nós queremos levar o corpo de nosso parente para o nosso xapono para cremar segundo a nossa tradição; não envolveria somente a questão do advogado e juiz dar a causa ganha para essa reivindicação. De diferentes pareceres de especialistas teria que se questionar se tal ação não põe em risco as vidas de outros Yanomami? Yanomamimente teria que decidir para o bem de todos, que dessa vez não é possível seguir a tradição. Certamente, já tenha algum estudo desse tipo.

 

A Covid-19 atinge profundamente as cerimônias rituais fúnebres dos povos do noroeste amazônico, dos Yanomami e de todos os povos do mundo, pois tira a dignidade da pessoa humana viva e do falecido, de fazer despedida e de ser despedido, de agradecer e ser agradecido pelos familiares, amigos e conhecidos. No caso do povo Yanomami impossibilitaria a realização da cerimônia ritual fúnebre do parente, com a participação dos moradores de um xapono e os parentes de outros xaponos. A cerimônia ritual fúnebre cria conexões com as vidas humanas, vida dos espíritos, vidas do mundo, harmonização da convivência e apaziguamento de tudo que pode nos prejudicar.

 

*Padre Justino Tuyuka é do povo Ʉtãpinopona-Tuyuka, Sacerdote salesiano. Licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, mestre em Educação, doutorando em Antropologia Social (PPGAS/UFAM) e pesquisador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI/UFAM).

 

**Artigo publicado originalmente no dia 14 de abril de 2020 em www.socioambiental.org

 

Fotos: LEONARDO PRADO/SECOM PGR/REPRODUÇÃO, MICHAEL DANTAS/AFP/REPRODUÇÃO e RACISMOAMBIENTAL.NET/REPRODUÇÃO



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