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  28/04/2020 - por Marcelo Seráfico



O vírus e a vida no capitalismo global



Nos primeiros meses de 2020, duas questões distintas, mas convergentes, tomam a cena brasileira. Uma delas tem amplitude mundial e outra é específica do país batizado com o nome de uma mercadoria. Ambas são sintomáticas de uma dupla tragédia cuja convergência aponta para grandes desafios a serem enfrentados por todos os defensores de uma sociedade justa, livre e igualitária.

 

A primeira, e nova, questão tem a ver com a propagação do Corona vírus pelo mundo e com seus efeitos sobre a saúde dos cidadãos. Descoberto em Wuhan, China, no final de 2019, o vírus causa a doença Covid-19 naquelas pessoas cujo sistema imunológico está fragilizado por enfermidades que já tinham ou naquelas em que o organismo é cobrado a reagir com a mesma agressividade do ataque viral.

 

Deixando de lado as hipóteses conspiratórias sobre a origem do vírus, as análises que dão conta de que esteja relacionada às repercussões da expansão da fronteira agrícola na China sobre as condições de vida de parte da população são as mais prováveis, e já vem sendo apontadas há tempos a propósito do surgimento de outros vírus (WALLACE, 2016). O desmatamento de florestas e sua substituição pela produção de monoculturas em escala industrial, expulsou trabalhadores dos lugares que antes habitavam, dos quais retiravam sua subsistência, e obrigou-os, também, a ir para outras áreas e a explorar outros recursos – como as carnes de caça – dos quais pudessem sobreviver. Isso levou ao contato dos humanos com formas de vida que, inofensivas em outras espécies animais, para nós podem ser fatais.

 

O Corona vírus, como o SARS, o H1N1 ou a AIDS não é, portanto, um fruto, puro e simples, do consumo proibido de proteínas valorizadas por determinadas “culturas”, como desejariam alguns apologistas do “Ocidente”. Mais que isso, é expressão do modo como alteradas por processos globais, as relações sociais se modificam localmente. A malária, a leishmaniose, a dengue e a chicungunha, para ficarmos em algumas bem conhecidas no Brasil e na Amazônia, são outras das enfermidades que nos chegam como desdobramento da racionalidade bárbara indutora do modo pelo qual nos apropriamos da natureza.

 

O Corona vírus encontrou no mercado de Wuhan os corpos nos quais pode promover a síntese determinada pelos processos de exploração e espoliação econômica a que foi submetida parte da sociedade chinesa. Sua propagação pelo mundo é mais um emblema da dialética perversa do capitalismo global. A lógica da produção de mercadorias pariu o novo Corona vírus e este conquistou o planeta!

 

Uma epidemia converteu-se em pandemia graças a fatores que nada tem de naturais. No que avança, o vírus que nos obriga ao isolamento social para evitá-lo, expõe em praça pública alguns dos impasses civilizatórios da sociedade capitalista.

 

Como equilibrar a dinâmica econômica e a proteção da vida das pessoas? Como proteger a vida sem sacrificar ainda mais a liberdade individual? Como assegurar a cada indivíduo a mesma proteção?

 

De súbito, o mundo e a razão que o guiava, neoliberal (DARDOT & LAVAL, 2016), foram desafiados pela realidade trágica dos hospitais em colapso, da carência de profissionais da área de saúde, da inexistência de estratégias de ação, da falta de meios para diagnosticar a doença, da morte em massa, dos corpos não velados e enterrados em valas comuns.

 

Claudicantes, os governos dos Estados nacionais buscaram respostas. Cada um a seu modo, negou ou aceitou a doença como um problema real. Cada um a seu modo, contribuiu para matar ou salvar vidas.  Quanto maior a resistência patológica em aceitar a realidade, maior a tragédia.

 

Problemas guardados nos armários do poder por políticos, empresários e profissionais mais ou menos bem remunerados, voltam à cena pública, contra sua vontade e assombrando-os: o papel do Estado e do investimento público, a liquidação dos sistemas públicos de saúde, a desigualdade de acesso aos serviços públicos, as implicações políticas da concentração de renda etc. Uma série de temas tornados irrelevantes pelo neoliberalismo reinante volta à cena pública graças a uma tragédia e exigindo respostas rápidas.

 

De fato, o que está em causa é nosso modo de produzir e reproduzir a vida. E isso não é pouco!

 

No momento em que escrevo este breve artigo, há três respostas sendo formuladas por aqueles ocupados de imaginar o mundo depois da crise. Uns estão empenhados em aproveitar o momento para fazer o que se acostumaram a fazer: promover o butim do fundo público e aprofundar as desigualdades. Outros empenham-se em buscar formas de, combatendo os efeitos do vírus sobre a saúde humana, combater as práticas destrutivas da economia capitalista sobre o ambiente e as desigualdades sociais. Outros, ainda, ao fazer esse combate tem em mente a necessidade de superação do próprio modo de produzir a vida material e espiritual que, ao fim e ao cabo, nos trouxe a essa situação.

 

É nesse quadro de alternativas que se colocam todas as sociedades do mundo, hoje. Suas histórias, impasses e expectativas específicas se mesclam ao desafio comum.

 

A sociedade brasileira experimenta os trágicos efeitos da convergência do problema sanitário e da morbidez política governamental O avanço da extrema direita na cena política nacional levou a que um candidato cuja família mantem estreitos vínculos com o crime organizado, defensor de ditaduras, entusiasta da tortura, avesso à ciência, misógino e propagador de mentiras fosse eleito presidente do País, em 2018. Um ano depois de sua posse, contabilizam-se retrocessos inegáveis em todos os setores da vida social brasileira, mas particularmente naqueles que dizem respeito aos direitos sociais assegurados pela Constituição de 1988.

 

E desse ponto de vista é inegável que o Brasil governado por Jair Bolsonaro está à frente, inclusive, dos EUA de Donald Trump. O líder apresenta aos liderados a alternativa oferecida pelo assaltante ao assaltado: “A bolsa ou a vida!”. As vítimas, plenamente identificadas com o algoz, entregam-lhe a vida e clamam pelo sacrifício da vida de todo e cada cidadão cuja fé não seja suicida.

 

Trabalhadores do campo e da cidade, povos indígenas, quilombolas, mulheres, LGBTQI+, cientistas, professores, lutadores sociais, sem-teto e sem-terra, enfim, todos e todas, se tornaram alvos preferenciais da extrema direita organizada na sociedade civil e, a partir de janeiro de 2018, encrustada no Estado.

 

O candidato que fez das mãos em forma de arma e de uma frase de inspiração nazista símbolos de sua campanha, tem demonstrado que nada do que faz ou diz tem cunho estritamente eleitoral. Não! Seus gestos e palavras expressam, realmente, o que pensa e deseja. E mais importante ainda, expressam o que pensa e deseja parcela substantiva da sociedade brasileira, desde setores que detém, de fato, as armas políticas para alvejar a sociedade até segmentos desta já atingidos ou em vias de sê-lo.

 

Por isso, o desafio entre nós é duplo, pois a necropolítica e a economia da catástrofe encarnam-se de modo brutal em um governante e em uma horda de seguidores fanáticos. É preciso vencer a política de morte por eles proposta e caminhar no sentido de outra sociedade.

 

Como fazê-lo?

 

*Marcelo Seráfico é professor da graduação e pós-graduação do Departamento de Ciências Sociais da Ufam.



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