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  13/04/2020 - por José Alcimar de Oliveira



O coronavírus e a linguagem da natureza: ou a dialética pelo avesso



Nossa arrogância nos afastou da natureza. O andar de cima imaginava-se a salvo em sua consciência de condomínio para abusar da natureza. Mas a natureza, por meio do coronavírus, deu ao andar debaixo o poder de manifestar a totalidade degradada para a qual a casa grande torcia o rosto. A natureza e sua pedagogia da dialética pelo avesso.

 

O coronavírus me fez voltar a Gadamer (1900-2002) -  isso mesmo, sua vida atravessou três séculos - ao lembrar que o auto-objetivante é a doença e não a saúde. Mas, como o pior é da lógica da cultura, a doença civilizacional se naturalizou de tal forma que parece impedir a objetividade da afirmação gadameriana. A pior doença é aquela impedida de ser objetivada. A lógica do capital é hábil nisso.

 

Quantas vezes, diante de consciências adoecidas, havia insistido Brecht em sua pedagogia do distanciamento, não social, no caso: peço com insistência, não digam nunca: ISSO É NATURAL. Estranhamente, fomos obrigados, todos - talvez ainda não - a nos ver, a nós e aos outros, pela mediação -  sem estatuto de mediação -  de um vírus e não, como seria esperado, pela medida cognitiva da cultura construída pelo ser social.

 

O Mouro de Trier, bem antes da emergência da questão ambiental, assinalava que o ser natural é o nosso corpo inorgânico. A natureza, a quem a cultura moderna ocidental tapou os ouvidos, grita agora por si, pelos pobres, por todos, pela linguagem de um vírus. Mas quando subsumida pela forma mercadoria a vida perde o poder de fala. E para voltar ao Mouro de Trier, no início do Capital, ele registra: "se as mercadorias pudessem falar, diriam: É possível que nosso valor de uso interesse ao homem".  Não é da natureza da natureza converter-se em valor de troca.

 

A propósito ainda da dialética entre natureza e linguagem, não resisto a dar voz a Walter Benjamin em sua Origem do drama trágico alemão ao reconhecer que se lhe fosse concedido o poder da linguagem, a natureza inteira pôr-se-ia em lamento. Mesmo sem estatuto teórico para isso e com a devida reserva, não reluto em dizer e para a alegria do autor das Teses sobre a história, que a natureza, rompendo o regime de silêncio e de heteronomia que lhe impôs a arrogância da cultura, recuperou ela mesma o poder da linguagem, ainda que por estruturas gramaticais viróticas. Não sei por quanto tempo. De qualquer forma, digo, impôs um silêncio inesperado à arrogância financeira da linguagem do capital e um freio de alcance global, seguramente transitório, à insana locomotiva capitalista. Fez pelo avesso o que nós da esquerda classista nunca conseguimos. Longe de mim biologizar a luta, nem transferir à natureza a luta da qual não podemos nos demitir. Por fim, manter na memória militante o aviso benjaminiano: o capitalismo não vai morrer de morte natural.

 

Ânimo forte e solidário a todos, mesmo sob isolamento social compulsório.

 

* professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra e filho dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos nove de abril do ano coronavirano de 2020.



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