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Viva Melhor


   


  17/12/2019 - por José Basini



A Aurora que Procuramos



Apresentação


Como parte das comemorações pelos seus 40 anos de resistência na defesa dos direitos das/os docentes de ensino superior, a atual direção da ADUA-SSind. decidiu criar uma revista dedicada à reflexão crítica sobre o nosso país, a nossa sociedade e a nossa Universidade, uma revista de estudos e debates sobre o nosso tempo e os temas que nos dizem respeito.


Nesse sentido, o nome da nossa revista não poderia ser outro: Resistências – Revista da ADUA, afirmando o papel do nosso sindicato e de cada um de nós como sujeitos políticos críticos no mundo e resistentes no tempo em que vivemos.


Para este primeiro número, o tema escolhido foi Ecos e permanência da Ditadura na Amazônia. Com esse tema, Resistências aprofunda o debate sobre o atual momento político que vive o Brasil, inegavelmente um momento delicado, marcado por permanente crise política que se arrasta já há vários anos, colocando em risco tanto as instituições nacionais como as próprias condições de vida em sociedade.


Evidentemente a escolha deste tema não foi gratuita. Inegavelmente podemos caracterizar o governo Bolsonaro e os interesses que se uniram para levá-lo ao poder como uma reedição da Ditadura de 1964-1985, uma Ditadura Reeditada, inquestionavelmente piorada, se é que pode alguma ditadura ser considerada como melhor que outra.


Vale a pena lembrar as palavras de Florestan Fernandes em seu artigo “O significado da ditadura militar”, publicado em 1997, ao analisar as alianças de interesses que levaram ao golpe de 1964, palavras premonitórias e incrivelmente oportunas para descrever os dias atuais em nosso país: “[...] Os fios da contrarrevolução chegam aos nossos dias e de uma perspectiva militar que empobrece e inquieta as próprias forças armadas. [...] A ditadura, como constelação social de um bloco histórico de estratos militares e civis, não se.[...] A hegemonia militar perde [perdeu] terreno. A posição estratégica das elites militares – antigas ou renovadas – adquire, todavia, perspectivas de duração e de influência ultracompensadoras. Aquelas elites fixam-se ainda mais como esteio da defesa da ordem. Em suma, elas desprenderam-se da batalha militar (que não ultrapassou a encenação e alguns combates singulares), mas ganharam a guerra política. [...]” (Fernandes, 1997, 147-148).


Se hoje podemos dizer que vivemos uma ditadura disfarçada, devemos reconhecer que essa é ainda pior, ainda mais “pobre” do que a de 1964, uma vez que a concepção de país e sociedade que têm os militares hoje no poder, e os civis que a eles se aliam, é ainda pior, ainda mais “pobre” do que a de 1964, que levou o país aos desastrosos 21 anos Regime Militar e Ditadura.


Em sua maioria, os artigos reunidos neste nº 1 de Resistências foram escritos por colegas docentes da Ufam e outras Universidades, que responderam à “chamada para artigo” de parte da ADUA. Os 28 artigos aqui reunidos apresentam formatos diversos – ensaios, testemunhos, artigos de opinião e artigos acadêmicos – conformando quatro seções:


- Abrindo o Debate, seção especial com o mencionado artigo de Florestan, que, atualíssimo, lança luzes sobre o atual contexto político brasileiro;
Ecos da Ditadura na Amazônia, artigos que discutem o impacto e efeitos da Ditadura na formação pessoal e da sociedade local amazonense;
Permanências da Ditadura, artigos que analisam a herança do Regime Militar e da Ditadura ainda hoje presentes na vida nacional.
- A Ditadura Reeditada, seção especial com o artigo “Conspiração e corrupção: uma hipótese muito provável”, de José Luís Fiori e William Nozaki, que explicita antigos interesses sempre renovados, que constrangem a política nacional à “conspiração” por regimes de exceção, que assinala estratégias, sempre renovadas, de perpetuação da subordinação nacional a interesses imperialistas.

 

Com Resistências, a Diretoria da ADUA convida à reflexão crítica sobre o tempo em que vivemos, condição indispensável para a construção de uma sociedade mais justa, que acreditamos seja o propósito de todos nós docentes, sindicalizados ou não.
 

Boa leitura a todas e a todos!

 

 

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A Aurora que Procuramos  

 

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: Esta vida, assim como tu vives agora e como a vivestes, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes…”

Friedrich Nietzsche (Gaia Ciência)

 

Como explicar o eterno retorno do autoritarismo de Estado? Onde procurar os motivos que identifiquem a barbárie que tomou conta da nação brasileira com a chegada de Jair “Messias” Bolsonaro à presidência?

 

De forma imediata pode-se até cogitar num voto de castigo ao lulismo sobre a base do ressentimento de setores políticos e sociais que perderam lucratividade, e da mídia oportunista e global inflamada intencionalmente sobre a cleptocracia do Partido dos Trabalhadores.

 

Mas, contudo, os efeitos produzidos pelas insatisfações e manipulações mencionadas, motivos mais substanciais acredito, podemos encontrá-los olhando muito mais atrás. E neste sentido, imagino as tarefas não feitas pelos diversos governos nacionais advindos ao cessar da ditadura militar de 1964 a 1985. A procura de verdade, justiça, paz, responsabilização aos militares, investigação dos desaparecimentos forçados, compensação das vítimas e suas famílias, pouco ou nada se avançou, apesar da atuação da Comissão Nacional da Verdade. Os governos de turno lavaram as mãos e a classe política-jurídica foi conivente; tampouco a sociedade civil conseguiu se organizar de forma efetiva para evidenciar ante a opinião pública e internacional as suas reclamações.

 

Tudo isso sem considerar que pendências ainda mais básicas, porém simbolicamente significativas, não foram acertadas. Refiro-me à mudança de nomenclaturas autoritárias, verdadeiras toponímias do terror engessadas na memória do povo brasileiro, e recorrentes no nome de ruas, prefeituras e diversas localizações urbanas. Os nomes Presidente Figueiredo, Castelo Branco, e de outros personagens infames, responsáveis pela morte e desaparecimento de centos de cidadãos brasileiros, formam parte de um cotidiano fantasmagórico e aterrorizante, naturalizado sócio-espacialmente com o passar dos anos.

 

Outro assunto ritornello, que guarda relação com correlatos promovidos pelo Plano Condor dos anos 1970-1980 na América Latina, e que eu gostaria destacar de forma mais categórica, refere-se à “delação premiada”. Como que tirado de um pesadelo de alguma ficção cinematográfica, o Brasil se transforma num breve lapso no país do “dedo duro” sob a falsa visão corretiva e pseudo-moralizante do super-herói Juiz Moro, “premiado”, nos primeiros momentos do atual governo, como plenipotenciário representante da Justiça do país.

 

A delação premiada teve e tem um efeito simbólico poderosíssimo, uma espécie do desastroso 7 x 1 no futebol imposto pela Alemanha à seleção brasileira, no imaginário nacional mais recente: desmoralizou, desarmou, humilhou o povo brasileiro, deixando-o impotente e com vergonha, sem voz e sem expressão. Mas, a delação premiada também alentou as cinzas ainda quentes do fascismo e fundamentalismo presentes em setores políticos, jurídicos e empresariais, que convivem historicamente com o status quo e os privilégios usurpados pela classe política-empresarial e judiciária, e seus obedientes lacaios, sedentos do revanchismo e da justiça por mãos próprias.

 

Deste pesadelo, devemos despertar, nutrindo a vigília militante com os sonhos de um país mais justo, combatendo os privilégios, superando as desconfianças, medos e discriminações para, assim, voltarmos a acreditar no melhor que temos.

 

José Basini, Departamento de Antropologia, Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal do Amazonas (UFAM), lupusesteparium@gmail.com



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