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Viva Melhor


   


  13/12/2019 - por Araci Maria Labiak



Ditadura no interior e na capital



Apresentação


Como parte das comemorações pelos seus 40 anos de resistência na defesa dos direitos das/os docentes de ensino superior, a atual direção da ADUA-SSind. decidiu criar uma revista dedicada à reflexão crítica sobre o nosso país, a nossa sociedade e a nossa Universidade, uma revista de estudos e debates sobre o nosso tempo e os temas que nos dizem respeito.


Nesse sentido, o nome da nossa revista não poderia ser outro: Resistências – Revista da ADUA, afirmando o papel do nosso sindicato e de cada um de nós como sujeitos políticos críticos no mundo e resistentes no tempo em que vivemos.


Para este primeiro número, o tema escolhido foi Ecos e permanência da Ditadura na Amazônia. Com esse tema, Resistências aprofunda o debate sobre o atual momento político que vive o Brasil, inegavelmente um momento delicado, marcado por permanente crise política que se arrasta já há vários anos, colocando em risco tanto as instituições nacionais como as próprias condições de vida em sociedade.


Evidentemente a escolha deste tema não foi gratuita. Inegavelmente podemos caracterizar o governo Bolsonaro e os interesses que se uniram para levá-lo ao poder como uma reedição da Ditadura de 1964-1985, uma Ditadura Reeditada, inquestionavelmente piorada, se é que pode alguma ditadura ser considerada como melhor que outra.


Vale a pena lembrar as palavras de Florestan Fernandes em seu artigo “O significado da ditadura militar”, publicado em 1997, ao analisar as alianças de interesses que levaram ao golpe de 1964, palavras premonitórias e incrivelmente oportunas para descrever os dias atuais em nosso país: “[...] Os fios da contrarrevolução chegam aos nossos dias e de uma perspectiva militar que empobrece e inquieta as próprias forças armadas. [...] A ditadura, como constelação social de um bloco histórico de estratos militares e civis, não se.[...] A hegemonia militar perde [perdeu] terreno. A posição estratégica das elites militares – antigas ou renovadas – adquire, todavia, perspectivas de duração e de influência ultracompensadoras. Aquelas elites fixam-se ainda mais como esteio da defesa da ordem. Em suma, elas desprenderam-se da batalha militar (que não ultrapassou a encenação e alguns combates singulares), mas ganharam a guerra política. [...]” (Fernandes, 1997, 147-148).


Se hoje podemos dizer que vivemos uma ditadura disfarçada, devemos reconhecer que essa é ainda pior, ainda mais “pobre” do que a de 1964, uma vez que a concepção de país e sociedade que têm os militares hoje no poder, e os civis que a eles se aliam, é ainda pior, ainda mais “pobre” do que a de 1964, que levou o país aos desastrosos 21 anos Regime Militar e Ditadura.


Em sua maioria, os artigos reunidos neste nº 1 de Resistências foram escritos por colegas docentes da Ufam e outras Universidades, que responderam à “chamada para artigo” de parte da ADUA. Os 28 artigos aqui reunidos apresentam formatos diversos – ensaios, testemunhos, artigos de opinião e artigos acadêmicos – conformando quatro seções:


- Abrindo o Debate, seção especial com o mencionado artigo de Florestan, que, atualíssimo, lança luzes sobre o atual contexto político brasileiro;
- Ecos da Ditadura na Amazônia, artigos que discutem o impacto e efeitos da Ditadura na formação pessoal e da sociedade local amazonense;
- Permanências da Ditadura, artigos que analisam a herança do Regime Militar e da Ditadura ainda hoje presentes na vida nacional.
- A Ditadura Reeditada, seção especial com o artigo “Conspiração e corrupção: uma hipótese muito provável”, de José Luís Fiori e William Nozaki, que explicita antigos interesses sempre renovados, que constrangem a política nacional à “conspiração” por regimes de exceção, que assinala estratégias, sempre renovadas, de perpetuação da subordinação nacional a interesses imperialistas.

 

Com Resistências, a Diretoria da ADUA convida à reflexão crítica sobre o tempo em que vivemos, condição indispensável para a construção de uma sociedade mais justa, que acreditamos seja o propósito de todos nós docentes, sindicalizados ou não.
 

Boa leitura a todas e a todos!

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Ditadura no interior e na capital

 


Acabara de sair do Ensino Médio, vim para a capital, estudar na Universidade Federal do Paraná. Trabalhei um ano até que fosse o tempo de prestar vestibular. Carregando a ingenuidade característica dos que vêm do interior, aventurei-me. Era início dos anos 70. Pude dedicar-me aos estudos sem necessidade de trabalhar, nos dois primeiros anos. Isto possibilitou-me aulas de manhã, de tarde e uma ou outra disciplina no início da noite. Como havia um núcleo comum, cursava disciplinas em diversos cursos.


Logo de início, um impacto. Não conseguia entender: a Sociologia da Universidade se apresentava tão diferente da que estudara no Ensino Médio. Aquela, ministrada por um professor vindo do sul do país, que frente à perseguição das forças militares, num autoexílio se refugiara na cidadezinha, tinha uma função social. Era uma ciência possível de auferir e sanar mazelas sociais através da ação tendo como base aportes metodológicos e científicos, apropriados. Estudava a sociedade, “descobria” onde havia falhas, e intervinha, propondo soluções.


A Sociologia, que ora me era apresentada na universidade, continha uma neutralidade científica que não lhe permitia intervir. “Como assim?”, eu me perguntava. Era outra, e eu não entendia. Os autores, os teóricos eram os mesmos... Em algum lugar eu perdera algo. Expus ao professor minha dificuldade e solicitei mais leitura, bibliografia.


Ao ouvir que não se tratava de mais leitura, mas alcance de compreensão, obviamente, tomei como alusão a possível falha intelectual minha. Indignada lhe coloquei sobre a Sociologia que aprendera no interior. Tão visceral fora minha reação que o professor me deu nota máxima até o final do período... Odiei também. Pois eu, continuava na mesma dúvida.


Mesmo tendo colocado com clareza a situação pela qual passara e fora submetido, como alvo da Ditadura reinante no país, hoje muita gente lá do interior - amigo, parente, aluno ou vizinho do referido professor autoexilado - afirma que a Ditadura não existiu, que foi um tempo muito bom, de muita ordem.
E sabe, que para nós, daquele tempo lá, foi mesmo. Nada mudara. Vivíamos como que numa bolha feliz, colorida pelos sonhos de criança promovida à juventude assepticamente. A ditadura era real para o professor e seus colegas, que também vieram para a cidadezinha, na mesma situação.


Fui vivendo, também na universidade, numa bolha protetora da inocência, que mesmo sendo chamada pelo DOI-CODI para ser uma “espiã”, “dedo duro”, como se queira, levar-lhes informações sobre conversas e atos suspeitos de meus colegas, não aceitei porque jamais me vi numa situação de delatora! Mas não entendi a gravidade do que estava ocorrendo. Somente mais tarde, quando, através de programas de pastorais que participava, entre elas a Pastoral Carcerária, deparei-me com a realidade, nua e crua. Dentre os presos que visitávamos levando alento, conforto e assessoria jurídica, estavam os presos políticos! Soube de suas famílias, as torturas passadas por uns e outros. Conhecê-los, e às suas famílias, foi aterrador. Aí sim, caíram muitas fichas, a casa, a cara, o mundo.


Analisando este quadro, penso que por isso me seja possível compreender um pouco e/ou relevar quem diz que não houve Ditadura, que afirme ter sido um tempo bom. Viver numa bolha ilusória do distanciamento seja pelo ar condicionado dos escritórios, das pastas 007, dos paletós e das gravatas, das estatais, ou das empresas e instituições privadas, seja pelo entorno incauto, asséptico, higienizado pelos estrangeiros trabalhadores, sedentos de ascensão socioeconômica, ou escravizados por compatriotas, seja pelo laurel dourado das escolas e universidades que ensinavam e ensinam antigas e suaves lições de viver para a guerra (santa ou da conquista, do domínio, contra o perigoso inimigo distante que um dia poderá se fazer presente) e morrer sem razão.
 

Hoje, olhando o passado, nem tão distante, mas o suficiente para aflorar profundo entorpecimento, pode-se perceber a existência de quem pense, quem diga não ter existido a Ditadura. Amenizada ou negada que foi a tortura, a morte, a perseguição, a perversidade no campo e na cidade. Ocorrida somente no corpo e na alma dos “brancos” pobres, dos negros, dos indígenas, dos intelectuais, das classes trabalhadora e média. A elite, jamais.
Foram, no entanto, violentados, atingidos, massacrados, tantos quantos os agentes da Ditadura puderam abater, perseguir, torturar, desaparecer, no interior e nas capitais.


Araci Maria Labiak, Antropóloga, madjawe@hotmail.com



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