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Viva Melhor


   


  22/10/2026 - por Marcelo Seráfico



Política, dessensibilização e desafetação



Charge do Nando Motta (Brasil247)

 

Mais uma vez, uma família de políticos põe em causa o afeto entre amigos e pessoas das famílias brasileiras. Pela terceira eleição consecutiva, um Bolsonaro que se autointitula defensor da família, de Deus e da pátria, desperta em quase metade dos eleitores brasileiros sentimentos que vão do apoio envergonhado à paixão desvairada.

 

Em 2018, quando Jair Bolsonaro participou e venceu as eleições presidenciais, o fez definindo os termos ideológicos que marcariam, dali em diante, o discurso político da ascendente extrema direita nacional. Talvez se possa resumir a fórmula vocalizada por ele e "pensada" por Olavo de Carvalho como _fascismo-de-esculacho_, uma combinação entre alguns dos preconceitos estruturantes do fascismo (misoginia, homofobia, aporofobia, racismo, xenofobia) com o anacronismo esquizóide (patriotismo transnacional, cristianosionismo), o extremismo ideológico e a superficialidade afetiva.

 

Os discursos e as práticas de Jair Bolsonaro, desde antes de chegar à Presidência, eram evidência de um coração e uma mente em sintonia com esse ethos, a um só tempo, fascista, anacrônico-esquizóide, ideologicamente extremado e afetivamente superficial.

 

Sua forma de se dirigir à sociedade, a grupos específicos dela - como às mulheres, aos negros e aos LGBTQPIA+ e mesmo a seus familiares, indicava e indica a visão de mundo autoritária nutrida por essas fontes.

 

Aliás, foi exatamente isso que o notabilizou como vereador e deputado federal. Sua popularidade nasceu e cresceu como caricatura, anedota, divulgada por programas humorísticos, jornalísticos e de auditório dos canais de TV aberta brasileiros.

 

Sim, a grande imprensa brasileira transformou, ao longo de décadas, o horror, o absurdo, o desrespeito, o esculacho político em entretenimento, normalizando-o e conferindo a ele legitimidade sem se questionar sequer sobre a legalidade de muito do que era verbalizado. Mas essa é outra história...

 

Enquanto o capitão expulso do Exército se alistava ao exército das forças políticas reacionárias nacionais, formava ao mesmo tempo sua milícia urbana, constituída pela própria prole e pelos laços que mantinha com as forças de insegurança do Estado do Rio de Janeiro - o Comando Vermelho, o Escritório do Crime de Rio das Pedras, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e o Governo do Estado do Rio de Janeiro.

 

A partir de 2019, já Presidente da República, o domínio político do bolsonarismo ideológico se ampliou.  Do grande lucro dos pequenos negócios das atividades ilegais das milícias, das lavanderias de chocolate, dos empreendimentos imobiliários, da parte da raposa do salário dos servidores etc., o clã passou a voos mais altos.

 

Associada às corporações da fé, às Big Techs, às Bets, ao Agro, à Faria Lima e à Bala, a família fez da dificuldade de governar um país a oportunidade de prosperar. Respirando os ares do tempo, fez "business as usual". Dos escândalos hoje revelados, aparecem nomes que entraram para a família Bolsonaro antes e durante o governo do pai Messias: Daniel Vorcaro, Willer Tomas, Careca do INSS... eles se somam a Adriano da Nóbrega, Fabrício Queiroz, Frederico Wassef, Ricardo Barros, Osmar Terra, Nise Yamagushi, Eduardo Pazzuelo dentre os muitos que agiram orientados pelo fascismo-de-esculacho.

 

No decorrer dos 4 anos do mandato de Jair, o país viveu o caos econômico induzido pela política ultraneoliberal do governo, o caos da pandemia de Covid 19 potencializado pela necropolítica governamental e o caos da própria política, cujas bases institucionais foram sistemática e cuidadosamente solapadas pelos representantes do fascismo-de-esculacho, que as minaram por dentro dos poderes dos quais fazem e faziam parte, excetuando-se, por óbvio, o Executivo.

 

A crítica radical à República foi varrida pelo esculacho superficial da corrupção. A solução para os problemas nacionais estava posta: as milícias nas ruas e nas redes e nos corações e mentes o fascismo-deesculacho, uma contribuição tropical ao totalitarismo.  

 

Fruto de uma sopa de letrinha preparada por pastores caloteiros, cristãos surubeiros, políticos corruptos e brasileiros entreguistas para defender suas famílias, seus interesses e seu deu$, essa ideologia da novilíngua conquistou grande parte da declinante nação.

 

Porém, passadas as tragédias, exaurido o país, o Messias patrono da desgraça não se reelegeu, apesar do esforço ilegal sobre-humano empenhado em impedir as pessoas de votarem e, depois, de impedir a posse de Lula, o Presidente eleito - o que incluiu até um plano de assassinato dele, de Geraldo Alckmin, seu vice, e de Alexandre de Moraes, ministro do STF responsável pela condução do pleito e das investigações que levaram, posteriormente, ã prisão do falso messias.

 

Pois bem, chegamos aos últimos meses do mandato de Lula e estamos diante de uma nova eleição. Bolsonaro, o pai, permanece preso por tentativa de golpe de Estado e outros crimes. Mas, como é comum ocorrer no Brasil, da prisão continua a tocar os negócios e decidiu que seu filho 01 assumiria a boca, ou melhor, a candidatura a Presidente da República. Afinal, era o único em condições de fazê-lo com chances de vitória, dada sua trajetória - segundo Chico Chico, Flávio gabaritou o código penal.

O 02, Eduardo, foragido da justiça brasileira, por encontrar-se nos EUA conspirando contra o país não pode pisar em solo nacional, a menos que queira fazer companhia ao pai.

O 03, Carlos, responsável pelo comando do Gabinete do Ódio da Presidência da República, nos tempos do pai presidente, não teria o equilíbrio necessário para funções executivas desse porte, daí ter sido escalado para ser senador por Santa Catarina, tendo sido eleito.

E o 04, Jair Renan, ainda jovem e pouco experimentado, não revela toda a desenvoltura dos irmãos com as limitadas capacidades cognitivas que caracterizam a linhagem Bolsonaro.

Por enquanto, é uma promessa cunhada por alguns como "inimigo da sinapse".

 

Flávio, o escolhido do Messias, cumpriu com o papel que lhe foi atribuído pelo pai nessa campanha, mostrando-se um tipo quase-ideal de fascista-do-esculacho. Reproduziu com orgulho todos os preconceitos, nonsenses, extremismos e platitudes que se espera de um legítimo Bolsonaro.

 

Qual a surpresa?

 

A surpresa dessas eleições não está nessa família nem tampouco nos políticos profissionais que os apoiam, mas sim nas pessoas que permanecem votando neles e reivindicando o combate à corrupção, a crença no cristianismo, o amor à família e a defesa da pátria.

Vocês que assim fazem talvez não tenham se dado conta, mas foram corrompidos e, como seu líder, habitam um submundo. Por isso, precisam ver o mundo superficialmente.

 

O afeto de vocês é uma mentira. Mas não é uma mentira para quem dizem sentir afeto. É para vocês mesmos. É o autoengano necessário para preservar alguma dignidade, quando nenhuma existe mais. A dessensibilização transformou-se em desafetação e o que resta é o cinismo e a hipocrisia.

 

Vivam plenamente na vastidão desse deserto!

 

 







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