Foto: Eline Luz/ANDES-SN
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ATL 2026 ocorreu de 05 a 11 de abril ereuniu indígenas de mais de 390 povos
Você já ouviu falar no Acampamento Terra Livre (ATL)? O ATL é a maior mobilização indígena do país e uma das mais importantes de Abya-Yala. Nessa mobilização, lideranças indígenas de todas as regiões do país acampam em Brasília e a tornam uma grande aldeia multiétnica por pelo menos sete dias.
Mas não se engane que o ATL não acontece de qualquer maneira, pois o movimento indígena possui governança e se organiza de maneira internacional, nacional, estadual, regional e municipal. Dessa maneira e respeitando a governança do movimento indígena, é a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) que organiza em nível nacional, a partir das bases e da governança do movimento indígena, o ATL.
Em 2026, entre 05 e 11 de abril, Brasília mais uma vez foi territorializada por representantes dos mais de 390 povos indígenas, oriundos dos diferentes biomas brasileiros, falantes de mais de 200 línguas Indígenas¹, com suas especificadas, culturas e tradições, além dos povos indígenas de diferentes outras regiões de Abya-Yala e não indígenas.
Sob o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós!”, a 22ª edição do ATL, para além de articular e desenvolver temáticas na Tenda Principal, faz de toda a capilaridade do próprio acampamento zonas para fomentar o debate político em torno das questões e especificidades dos povos indígenas. Todo o espaço físico reservado ao ATL transfigura-se em múltiplos territórios indígenas com suas atividades diversas e organizadas a partir da perspectiva de segmentos (educação, mulheres, juventude, entre outros).
As diferentes atividades ocorrem dentro e fora da área demarcada pelo ATL, com visitas e articulações entre as lideranças indígenas e o Estado nas suas diversas representações e instituições. Dessa maneira, a semana que se inicia no dia 05 abril escancara a pluridiversidade de povos, culturas e línguas ainda negada pela República Federativa do Brasil, além de consolidar a governança do movimento indígena.
Para além de um ato político, o ATL é um importante espaço de trocas de saberes geracionais e interétnico. Por meio de rodas de conversas, palestras, marchas, vendas de artesanatos e apresentações culturais, as pessoas presentes no ATL de 2026 experimentaram cânticos, rezas, narrativas, artesanatos e presenças de diferentes corpos-territórios-memórias.
Foram dias de reafirmação de força, de fortalecimento de parcerias e, principalmente de fortalecimento da governança do movimento indígena na defesa dos direitos constitucionais e territoriais. O ATL preconiza mobilizações indígenas que aconteceram ao longo do ano de 2026.
Consolidando a governança do movimento indígena, a Apib, principal instância de organização e mobilização indígena do país, é quem coordena a realização do ATL na esfera nacional. Criada em 2025, a Articulação é resultado do movimento indígena organizado (Fig. 01).
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Em sua composição temos as seis representações das regiões brasileira, a saber: Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), Articulação dos Povos Indígenas da Região Sudeste (Arpinsudeste), Conselho Guarany Yvyrupa (CGY), Conselho Terena, Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpinsul) e ATY GUASU.
Para além da Tenda Principal, a cada ano a dinâmica da governança do movimento indígena modifica possibilidade do debate no ATL a partir das demais tendas organizadas pelo movimento indígenas em tratativa de debates específicos por segmentos, conhecidas como Tendas Regionais.
Esse ano como Tendas Regionais, além das organizações que compõe a Apib, o ATL contou com as Tendas Regionais da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira e Cafi Parentinho, ambos espaços pensados por mulheres e para mulheres. O Cafi Parentinho é um espaço pensado desde o ano passado para atender as crianças que participam do ATL com seus familiares. Nesse sentido, atividades específicas para as crianças são desenvolvidas no Cafi Parentinho ao longo da programação do Acampamento.
Além dos espaços políticos, desde 2023 foi estabelecido na territorialidade do ATL o espaço de tratamento e cura espiritual, com a presença de pajés, kumus, sacacas, parteiras, entre outras especialidades indígenas. O espaço funcionou durantes todos os dias do Acampamento.
Em 2026, Três tendas centralizaram as atividades internas do ATL no que responde a região Norte do país: a principal da Apib, a da Coiab e a da Umiab. Além dos debates políticos determinados, duas grandes marchas foram realizadas para demarcar a presença de diferentes povos indígenas no Brasil: a primeira delas, considerada como a Marcha Principal, caminhou por Brasília sob o tema “Congresso inimigo dos povos: Nosso futuro não está à venda”, que buscou denunciar a PEC 48/2023, os PDLs e os PLs do agro.
Já a segunda marcha foi marcada por palavras de ondem que cobravam do governo a agilidade da demarcação de terras indígenas. A segunda marcha, cujo tema foi “Demarca Lula: Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida” buscou chamar a atenção do presidente Lula para os diferentes processos de demarcação das Terras Indígenas que ainda não aconteceram até o tempo do presente e que estão sendo diretamente ameaçadas pela conhecida Lei do Marco Temporal.
Para além do debate político, a Tenda Principal do ATL foi cenário para diferentes manifestações culturais, valorizando a cultura dos povos indígenas e do movimento negro de Brasília. Dessa maneira, o debate político se relaciona diretamente com a valorização da cultura para manutenção da existência dos povos indígenas.
Alguns momentos da conjuntura política atual também marcaram o ATL de 2026, um deles foi a posse da nova presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Lúcia Alberta Baré, mulher indígena com origem em São Gabriel da Cachoeira (AM) que foi apresentada à Tenda Principal pela delegação do Amazonas com cânticos e ritual de benzimento.
Outro momento significativo foi a apresentação dos candidatos indígenas aos cargos políticos partidários e o debate “Aldeando a Política” que aconteceu na Tenda Principal. Em nenhum outro ATL esse importante debate havia sido realizado.
Mais um marco pontual foram as apresentações do projeto da Universidade Indígena e da Política dos Territórios Etnoeducacionais que contaram com a presença e participação da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi/MEC).
Na tenda da Coiab diferentes temáticas abordaram as questões da Educação Escolar Indígena; da proteção territorial e a questão do Marco Temporal; da juventude indígena e sua percepção sob a crise climática e expectativas de futuro.
O ATL finalizou com uma grande planária realizada na Tenda Principal, cujo objetivo foi a sistematização das discussões e encaminhamentos das Tendas Regionais para elaboração e leitura do documento final que norteia o movimento indígena e sua governança para o restante do ano. O documento final ainda não foi disponibilizado pela Apib.
Foto: Eline Luz/ANDES-SN
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Essa foi a 22ª edição do Acampamento
Marcos históricos
Construído há 22 anos, o ATL se organiza a partir do chamado “Dia do índio”. Em sua primeira edição, apenas 150 indígenas iniciaram esse importante movimento. No entanto, já em sua segunda edição, cerca de 800 indígenas estiveram acampados em Brasília entendendo a importância da mobilização e fortalecendo a governança do movimento indígena.
Ao longo dos anos, o ATL se torna uma referência de luta, resistência e estratégia política para o movimento indígena. A história de resistência dos povos indígenas é marcada por séculos de conflitos e violências, consequência da colonização e do colonialismo que se estende ao ruralismo e ao agronegócio. De tal forma, o ATL é o mais importante cenário para debater a conjuntura política do país e estabelecer estratégias de incidência para o movimento indígena a curto, médio e longo prazo.
Quando apresenta o tema “Nosso Futuro não está à venda: a resposta somos nós!”, o ATL rememora toda a história de luta e resistência dos povos indígenas desde a invasão do Brasil. É fundamental, urgente e imperativo que todas as gerações indígenas possam reconhecer como as origens agrárias da usurpação de terras continuam impactando o presente e moldando o futuro dos povos indígenas.
Movimentos como o ATL reforçam a resistência ancestral dos povos indígenas que persiste apesar das violências históricas, entre elas a catequização, o golpe militar e, principalmente, o projeto de integralização dos povos indígenas. Nesse sentido, a própria organização do ATL permite intersecção de temáticas nos diferentes segmentos do movimento indígena e em diferentes condições de estrutura e acontecimento, uma vez que o debate é circular partindo da Tenda Principal, percorrendo as Tendas Regionais e voltando para a Tenda Principal na realização da plenária final e elaboração do documento final do ATL.
A violência da assimilação forçada deixou marcas profundas nas sociedades indígenas, desafiando a resistência ancestral e a luta contínua pela autonomia e reconhecimento de direitos. A resistência é fortalecida até o tempo do presente pela organização do movimento indígenas e sua culminância hoje na realização do maior movimento indígena do país que é o Acampamento Terra Livre.
O período de refundação da democracia brasileira deu pôr fim a política integracionista e hoje, o movimento indígena luta por reparação e justiça. Muitos povos não conseguiram resistir a todas as atrocidades e tantos outros apresentam marcas profundas até o tempo do presente. Manter a memória viva é fundamental para evitar que atrocidades como as experimentadas em anos anteriores possam se repetir.
O marco da Constituição de 1988 é fundamental para o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas. Direito à terra, assim como a suas especificidades, identidade cultural pluridiversa e coletiva, reconhecimento da governança indígena (movimento social), das línguas, costumes e tradições. Trata-se do direito de permanecer indígena independente do lugar onde estejam (aldeia, distrito, comunidade, terra demarcada, terra não demarcada e cidade).
Quando o ATL 2026 grita que “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós!”, ele grita integração forçada nunca mais e que nada mais poderá ser decidido para os povos indígenas sem os povos indígenas. Como consequência, os povos indígenas aldeiam a política e constroem juntos um processo de reflorestarmentes.
Nesse processo, o movimento indígena foi se organizando, aprendendo maneiras outras de articulação, luta e resistência e alguns marcos para a chegada ao ATL de 2026 e a consolidação da Apib precisam ser pontuadas.
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“Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós” foi o tema deste ano do ATL
1. 1979 Grande Assembleia do Povo Guarani (Aty Guasu)
Quem inaugura esse processo de consolidação da governança do movimento indígena é a Grande Assembleia do Povo Guarani (Aty Guasu) que acontece pela primeira vez em 1979, no Mato Grosso do Sul. A Grande Assembleia surge da necessidade de combater o processo sistemático de genocídio e a expulsão forçada de famílias dos seus territórios tradicionais. Até hoje essa estratégia vem fortalecendo o povo Guarani.
2. Anos 1980 e 1990
Na consolidação da Apib, duas grandes organizações são protagonizadas nos anos 1980. Originalmente nomeado de Comissão Leste-Nordeste é a articulação que inaugura o que hoje é conhecida como Apoinme.
Na mesma época, pela Amazônia Brasileira foi a Comissão Indígena da Amazônia que findou na organização da Coiab, local onde a governança do movimento indígena do Amazonas é representada em nível nacional.
É nos anos 1990 que a Apoinme é fundada. Ela surge na urgência do fortalecimento das lutas por direitos dos povos indígenas, que vivem nos 10 estados situados na região de abrangência da organização.
3. 2005, 2006, 2007, 2009 e 2012
É no ano de 2005 que a Apib é fundada. Trata-se de uma instância de referência nacional do movimento indígena no Brasil, criada de baixo para cima. Nela estão aglutinadas as organizações regionais indígenas do Brasil. A Apib é fruto do movimento indígena e foi fundada no 2º ATL que aconteceu em 2005, em Brasília.
Na mesma época, é criada a Arpinsul. Trata-se de uma organização indígena cuja missão é de articular e representar politicamente os povos indígenas da região Sul do país, nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (Charrua, Guarani, Kaingang, Xetá e Xokleng).
Em 2007 é realizada a criação da Articulação dos Povos Indígenas do Pantanal (Arpinpan) e em outubro de 2009, a Arpinsudeste é fundada para representar os povos indígenas de São Paulo e Rio de Janeiro.
Em uma tentativa de organização que se inicia desde a Guerra do Paraguai, após 177 anos, é fundado o Conselho do Povo Terena, no Mato Grosso do Sul. Entre 01 e 03 de junho 2012, lideranças se reuniram com representantes do povo Guarani, Kaiowá e Kinikinau na terra indígena Taunay/Ipegue, na aldeia Imbirussú, e fundaram a organização.
De uma maneira sintética, todos esses marcos são importantes ora para a fundação do primeiro ATL, assim como para o fortalecimento da governança do movimento indígena. Foram essas trajetórias que possibilitaram a realização do 22º ATL, em 2026.
1º ATL
O chamado “Dia do índio” sempre foi utilizado pelo movimento indígena como oportunidade de gerar visibilidade para a luta e resistência por direitos. Em 2004, Brasília foi territorializada pela primeira vez por diferentes povos e organizações das regiões Sul, Nordeste e Norte do país que se mobilizaram para estar acampados e cobrar o atendimento de demandas políticas e lutar pela garantia de direitos territoriais e políticas públicas diferenciadas.
Naquele ano, um grupo de 50 indígenas chega em Brasília cobrando as promessas de campanha da nova proposta de política indigenista para o país e acampam na Esplanada dos Ministérios, em frente ao Ministério da Justiça, entre os dias 26 de junho e 3 de julho. O grupo, que originalmente era composto por 50 indígenas, foi ficando robusto com a chegada de mais 100 indígenas no dia seguinte. Em 2005, a mesma mobilização conseguiu a presença de cerca de 800 indígenas de 89 povos vindos de várias regiões do país e a data mudou para abril.
O ATL surge da necessidade de fazer os direitos constitucionais serem efetivados. Naquele período, a violência contra povos indígenas havia aumentado no Brasil e 150 indígenas inauguraram o ATL. Lideranças dos povos Kaingang, Guarani e Xokleng, entre outros, ocuparam a Esplanada dos Ministérios para exigir audiência com o governo Lula e a regularização de suas terras.
A territorialização de Brasília pelo ATL a transformou em uma grande aldeia multiétnica e ao centro da dela foi instalada uma tenda grande onde foram realizadas seções plenárias para debater os processos de regularização de terras indígenas, os projetos de lei e as propostas de emenda à Constituição que ameaçam os direitos indígenas no Congresso Nacional e a criação do Conselho Nacional de Política Indigenista.
Como consequência do ATL, a primeira audiência do movimento indígena com o presidente foi realizada, como resultado, a promulgação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), um importante marco normativo nas relações entre os estados nacionais e os povos indígenas.
Troca de saberes
Para os povos indígenas, o movimento indígena possui um caráter formativo único e o ATL, para além de tudo que já foi apontado, possui uma dimensão pedagógica e de formação política.
Como consequência ainda dos descimentos e dos diferentes processos de fixação, muitos povos indígenas, embora sejam do mesmo povo, por ocuparem regiões distantes não conseguem trocar experiências formativas a não ser no ATL.
Para além disso, povos indígenas em diferentes contextos histórico-político-social passam a entender suas diferenças e fazer disso uma importante arma de luta por reparação histórica. Nada melhor que a informação contra o preconceito.
O ATL é um importante espaço formativo intergeracional pois possibilita o diálogo entre lideranças com maiores experiências e as mais jovens, articulando a memória e conexão ancestral interétnica.
O acampamento também promove diálogos com universidades, organizações não governamentais e movimentos sociais, ampliando redes de apoio e troca de conhecimentos. A exemplo disso, citamos o lançamento do Programa de Desenvolvimento Acadêmico Indígena (PDAI) pela Capes em pleno ATL de 2026. Trata-se de uma iniciativa nacional voltada a ampliar o acesso, a permanência e o êxito de estudantes e pesquisadores indígenas na pós-graduação stricto sensu. Resultado de demanda do movimento indígena no ATL do ano anterior.
Dessa maneira, o Acampamento Terra Livre não possui a característica de um protesto pontual e específico, mas um espaço em movimento e dinâmico que reflete a própria natureza do movimento indígena na construção contínua de melhores condições de vida para os povos indígenas.
Nos últimos anos, o ATL passou a ter maior visibilidade com o advento das redes sociais e, principalmente, com o engajamento organizado dos jovens comunicadores indígenas. Como consequência, assistimos o surgimento do segmento da juventude indígena.
A juventude indígena ao usar as redes sociais como ferramenta de luta e resistência passa a dar visibilidade a enfrentamentos de grandes proporções como a questão do Marco Temporal e pautas específicas que tratam de questões climáticas, como o Projeto Ferrogrão, por exemplo.
De maneira sintética, é importante pontuar que o Acampamento Terra Livre não é apenas um evento anual em alusão ao mês dos povos indígenas. O ATL é a maior mobilização indígena do país. Esse movimento que a cada ano vem sendo consolidado, é uma manifestação concreta da governança do movimento indígena. É a materialização de sua resistência e potencialidade.
O Acampamento Terra Livre e seu caráter formativo articula diferentes dimensões, entre elas a política, a cultural, a territorial e a educativa. O ATL é um grande espaço de articulação e incidência sobre o Estado e a sociedade civil organizada, pensando sempre em ações para curto, médio e longo prazo.
Ao reunir lideranças indígenas de todas as regiões do país e ao mobilizar todo o cenário nacional, o Acampamento Terra Livre reafirma a luta dos povos indígenas por direitos e por um projeto de sociedade outro, anunciando que o futuro dos povos indígenas não está à venda e que é preciso ouvir o que dizem os povos indígenas.
¹ Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2025
*Danielle Gonzaga de Brito/Danielle Munduruku é professora do curso de letras no Instituto de Educação, Agricultura e Ambiente (IEAA/Ufam).
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