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  06/04/2026 - por Valter Mattos da Costa



Aposentar o professor ou exauri-lo?



Foto: José Cruz/Agência Brasil 

 

Em editorial, “Aposentadoria especial é distorção sem cabimento”, publicado na terça-feira (24), o jornal O Globo sustenta que regras diferenciadas para professores e outros grupos seriam privilégios injustificáveis, desconsiderando as especificidades concretas do trabalho docente.

 

Transformar a aposentadoria docente em privilégio revela menos sobre a Previdência e mais sobre a lógica que rege o trabalho no Brasil. O problema não é o excesso de direitos, mas a escassez de reconhecimento.

 

Ao tratar a aposentadoria especial como distorção, o editorial ignora a materialidade do trabalho docente. Salas superlotadas, múltiplas jornadas, violência simbólica e precarização produzem desgaste contínuo, invisível para quem observa de fora.

 

O professor não carrega peso físico comparável a outras profissões insalubres. Carrega algo mais difícil de medir: o esgotamento psíquico, a exigência emocional permanente e a tensão constante da relação pedagógica.

 

Esse sofrimento não é episódico. Ele se estrutura na própria organização do trabalho. Exige do professor uma presença subjetiva contínua, uma escuta ativa, uma mediação constante de conflitos e expectativas contraditórias.

 

Reduzir isso a uma questão de longevidade biológica é um erro conceitual. Não se trata apenas de viver mais, mas de como se vive e se trabalha ao longo dessa vida.

 

O discurso que nega a especificidade do magistério opera como estratégia ideológica. Ao apagar o sofrimento, transforma a exceção em privilégio e desloca o debate da proteção social para o moralismo fiscal.

 

Nesse movimento, constrói-se uma narrativa em que direitos aparecem como excessos. O professor deixa de ser trabalhador submetido a condições adversas e passa a ser visto como beneficiário de vantagens indevidas (contribuindo para o anti-intelectualismo que vivemos).

 

Essa inversão não é neutra. Ela reorganiza o senso comum, produzindo consentimento em torno da retirada de direitos. O que antes era proteção passa a ser apresentado como distorção.

 

Paulo Freire já alertava que a educação não é neutra. Tampouco é neutra a forma como se fala sobre os educadores. Deslegitimar sua condição de trabalho é também deslegitimar sua função social.

 

Há estudos (inclusive da OCDE) que demonstram o alto índice de adoecimento mental entre professores, além de problemas vocais e exaustão crônica. Não se trata de opinião, mas de evidência acumulada.

 

Ignorar esses dados é uma escolha. E essa escolha serve a um projeto: reduzir custos sociais, mesmo que isso implique aprofundar o sofrimento daqueles que sustentam a escola pública.

 

O professor, nesse cenário, é convocado a dar mais de si — mais tempo, mais energia, mais subjetividade — sem que isso seja reconhecido como desgaste legítimo.

 

Quando adoece, é individualizado. Quando reivindica direitos, é acusado de privilégio. Quando se aposenta, é tratado como distorção.

 

O regime de aposentadoria diferenciada, longe de ser um excesso, é uma tentativa — ainda insuficiente — de responder a um trabalho que consome não apenas o corpo, mas a própria condição subjetiva do trabalhador.

 

Negá-la é reforçar um modelo que extrai ao máximo até o esgotamento. Um modelo que transforma o compromisso pedagógico em fonte de desgaste contínuo e silencioso.

 

Não se trata de defender privilégios. Trata-se de reconhecer que nem todo trabalho se desgasta da mesma forma — e que justiça social exige considerar essas diferenças.

 

O verdadeiro escândalo não é a aposentadoria do professor. É a naturalização de um sistema que o adoece e, ao mesmo tempo, o responsabiliza por isso.

 

Enquanto este debate neoliberal permanecer preso à lógica da contenção de direitos, continuará ignorando o essencial: a educação pública se sustenta sobre corpos e mentes exaustos. (Lembrem-se: o apagão da profissão de professor só aumenta).

 

Um país que trata seus professores como distorção revela, no fundo, o valor que atribui ao próprio futuro.

 

 

*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História Social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora.

 

** Artigo Publicado originalmente em ICL Notícias no dia 26 de março de 2026. 

 

 







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