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  18/05/2021


Entrevista com Milena Barroso: Ciência no combate à violência contra a mulher na universidade



A organizadora da pesquisa “Violência contra as Mulheres na Universidade: uma Análise nas Instituições de Ensino Superior no Amazonas”, professora e assistente social Milena Barroso*, concedeu entrevista à ADUA. O estudo, desenvolvido ao longo do ano passado, teve os resultados divulgados em 2021 e rendeu ainda a publicação da cartilha “Universidade sem Violência: Um Direito das Mulheres” e o livro “Violência contra as Mulheres na Universidade”, lançados neste ano.

 

A pesquisa contou com a participação de estudantes, técnico(a)s, professore(a)s e funcionário(a)s terceirizado(a)s do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Foram ouvidas 1.166 pessoas. Do total, 38% afirmam que foram vítimas de algum tipo de violência no ambiente acadêmico nos últimos cinco anos. Entre os registros estão assédio moral e sexual, estupro, racismo, xenofobia, homofobia e transfobia. Confira a entrevista!

 

ADUA: A pesquisa “Violência contra as mulheres na universidade: uma análise nas instituições de ensino superior no Amazonas” ouviu as comunidades acadêmicas da Ufam, UEA e Ifam. Qual a importância desse estudo para as mulheres e para o conjunto da comunidade acadêmica? E quais resultados esse estudo revela?

 

Acreditamos que a importância do estudo está em explicitar a violência contra as mulheres como um problema não apenas de estudo e pesquisa das Instituições de Ensino Superior (IES), mas que atravessa as relações e estruturas das universidades. A pesquisa nos possibilitou acessar muitas informações que envolvem desde a insegurança no espaço das instituições até a vitimização. Foi possível identificar que homens e mulheres são vítimas de violência, mas que as mulheres são as principais vítimas. Também nos chama atenção o fato de que a violência está presente em muitos espaços, sendo a sala de aula o espaço de maior insegurança.

 

ADUA: De acordo com os dados preliminares divulgados pelo estudo, um dos principais problemas identificados é a violência institucional. Como se caracteriza esse tipo de violência e por que há dificuldades para a apreensão por parte das vítimas desse tipo de violência?

 

A violência se dá na prática dos agentes institucionais no exercício de suas funções ou quando há negligência da instituição de alguma espécie. Os dados da pesquisa indicam tanto a ausência e fragilidade dos canais institucionais de denúncia e atenção às situações de violência, como a conivência institucional nos casos de violência quando não apresenta estratégias de enfrentar a questão. A pesquisa apontou um descrédito nas instituições e desconhecimento dos canais institucionais, o que se constitui, muitas vezes, em motivos para o não registro dos casos nas instituições.

 

ADUA: A pesquisa registrou casos de violência como assédios moral e sexual, estupro, discriminação social, racismo, xenofobia, homofobia, lesbofobia e transfobia. Dentre esses, quais foram os citados com mais frequência e os que se percebem terem maior impacto psicológico para as vítimas?

 

O assédio (em suas diversas expressões) foi a violência mais apontada pelas mulheres. Importante considerar a gravidade e as duras consequências dessas experiências, repercutindo na saúde física e mental de quem as sofre. Além do impacto direto na saúde das mulheres, essas violências se colocam como impedimentos, cerceamentos e sofrimentos diversos culminando com a desistência de seguir estudando, com o afastamento do trabalho e até com casos de tentativas de suicídio. A pesquisa também indicou uma forte sensação de medo e vergonha das vítimas, o que as fazem muitas vezes não registrar os casos de violência nas instituições.

 

ADUA: Como as relações desiguais de classe, raça e gênero pesam nesse contexto investigado?

 

As relações desiguais de classe, raça e gênero são determinantes e explicam a complexidade, abrangência, constância e conexão entre as diversas violências vivenciadas pelas mulheres. Essas relações também dizem respeito as desigualdades entre os sujeitos que vivenciam as opressões e, nestes termos, potencializam a exposição de determinados sujeitos a experiências de violência, incidindo sobre as possibilidades ou não de acesso a serviços de cuidado e reparação de danos. Para a maioria das mulheres negras e indígenas, o espaço da universidade ainda se coloca como um não-lugar, um espaço elitizado, hierárquico e colonialista, que exige uma afirmação permanente das suas capacidades, que cobra um modo de ser e está pautado na branquitude e na difícil tarefa de ter que conciliar trabalho e estudo. É um lugar de luta diária de enfrentamento ao sexismo-racista que as percebem como um corpo/objeto.

 

ADUA: Por quais razões há ocorrência frequente de violência contra mulheres nos ambientes acadêmicos, que, pelo senso-comum, julga-se serem espaços frequentados por pessoas mais politizadas e bem-informadas? 

 

A universidade não é uma bolha, sendo, pois, produto da sociedade e de suas relações. É uma instituição contraditória e, a despeito de sua relevância pela produção do conhecimento científico socialmente referenciado e importância inquestionável no processo de transformação social, é também um espaço de produção e reprodução de violências. Precisamos desnaturalizar a violência que ocorre nesse espaço, entendendo que reconhecer esse espaço como lócus de violência em nada interfere do mérito e/ou relevância destas instituições. Por outro lado, significa avançar na construção de processos educacionais e rotinas educacionais verdadeiramente emancipatórios.

ADUA: Das 1.166 pessoas consultadas na pesquisa, 38% afirmaram que foram vítimas de algum tipo de violência no espaço universitário nos últimos cinco anos, é um dado expressivo. Você acredita que a naturalização da violência teve impacto nesse resultado? Por quê? 

 

Sim, certamente. Quando estimulados com uma lista de violências não diretas, esse número subiu para 74,82%. Além da naturalização, esse dado também tem impacto na dificuldade das pessoas de se reconhecerem nestas situações. Dentro e fora das universidades, o fenômeno da naturalização da violência tem contribuído para a maior exposição das mulheres à violência. Ademais, o processo de identificação, reconhecimento e elaboração dessas experiências são processos, quase sempre, lentos e duradouros.

 

ADUA: Em sua opinião como estudiosa da área e docente, há atualmente oferta de espaço de acolhimento para quem sofre algum tipo de violência nessas instituições de ensino? Quais os motivos para grande parte das vítimas não oficializar a denúncia?

 

Como destaquei anteriormente, a ausência de serviços de atenção às vítimas e o desconhecimento dos serviços existentes foram motivos apontados pelas mulheres para o não registro dos casos nas instituições. Além de espaços de denúncia, como as ouvidorias, as instituições carecem de serviços que compreendam a violência contra as mulheres em sua integralidade. A denúncia é importante, mas ela precisa estar relacionada a uma política de acolhimento e acompanhamento dos casos, do contrário, pode implicar em uma revitimização das mulheres e na ocorrência da violência institucional.

 

ADUA: A partir dos resultados, quais foram os meios propostos para o enfrentamento da violência contra as mulheres nos espaços universitários?

 

Não temos e nem existe uma receita de bolo, mas compreendemos que é importante construir ações em diversos níveis, desde a mudanças de práticas nas relações acadêmicas e de trabalho até na mudança de rotinas institucionais. Temos avançado na possibilidade de debater esse tema mais abertamente, na organização das estudantes para denunciar violências sofridas por seus professores, no estabelecimento das cotas..., mas precisamos revisitar nossas estruturas hierárquicas e rotinas institucionais sexistas que apesar de absorveram mulheres em seus espaços, se constituem em processos violentos de humilhação, adoecimento, desqualificação, epistemicídio e assédio. Que possamos construir espaços educacionais e de trabalho tendo como horizonte a liberdade!

 

Cartilha e livro servem como material para estudo e combate à violência

 

Colocar em pauta a violência contra as mulheres no Brasil se faz necessário para a construção de medidas de enfretamento. Neste sentido, a Cartilha “Universidade sem Violência: um direito das mulheres” expõe o silenciamento das mulheres e as dificuldades institucionais para combater a violência, e orienta como proceder para realizar a denúncia. Na cartilha, é abordado a importância de discutir o tema e construir práticas antissexistas e racistas, a fim de transformar o ambiente acadêmico em um lugar seguro para todos (as).

O livro “Violência contra as mulheres nas universidades” traz uma coletânea de textos de mais de 30 pesquisadoras feministas do Brasil, Argentina e Canadá em um debate articulado entre militância e produção acadêmica. Em processo de impressão, a obra tem lançamento virtual previsto ainda para este primeiro semestre de 2021. O material é constituído de 250 páginas, com 15 artigos, e terá também uma versão no formato e-book.

 

 

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*Milena Fernandes Barroso é graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), mestre em Serviço Social pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e doutora em Serviço Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social e Sustentabilidade da Amazônia (PPGSS/Ufam).



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