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  13/08/2026


Seis anos após massacre dos rios Abacaxis e Mari-Mari, familiares e entidades cobram justiça



 

Seis anos após o massacre que vitimou oito pessoas nos rios Abacaxis e Mari-Mari, entre os municípios de Nova Olinda do Norte e Borba, no interior do Amazonas, familiares das vítimas, movimentos sociais e entidades de defesa dos direitos humanos voltaram a cobrar justiça, responsabilização e reparação. A mobilização ocorreu na manhã desta quarta-feira (12 de agosto), durante encontro realizado no Auditório Rio Solimões, do Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS), no Setor Norte da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em Manaus.

 

Organizado pelo Coletivo pelos Povos do Abacaxis, o encontro reuniu comunidade acadêmica, movimentos sociais, organizações de defesa dos direitos humanos e sociedade civil. A atividade teve como objetivo manter viva a memória das vítimas, discutir as violações cometidas contra povos indígenas e comunidades tradicionais e cobrar respostas do sistema de Justiça brasileiro.

 

 

Na mesa de abertura estiveram Alessandrine Silva, do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos da Amazônia; Silvia Elena Moreira Batista, secretária de Direitos Humanos do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), na coordenação regional do Amazonas; Rosa Helena Dias, da Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI); Tiago Maiká Schwade, vice-diretor do IFCHS/Ufam; Mariazinha Baré, da Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (APIAM); e o professor José Alcimar de Oliveira, representando a ADUA. Pela Defensoria Pública da União (DPU), participou por chamada de vídeo Fabiana Nunes Silva.

 

A mensagem “Nossa luta é contra a impunidade” esteve entre as principais manifestações do encontro. No encerramento, foi lido um manifesto assinado pelas entidades presentes.

 

Processo segue sem definição

 

Seis anos após os crimes, o caso ainda aguarda uma definição para avanço da ação penal envolvendo os acusados de participação no massacre. O processo tramita em diferentes frentes, nas esferas criminal e cível.

 

De acordo com as informações apresentadas durante o encontro, a ação penal tramita na Justiça Federal e envolve 13 denunciados, entre eles dois apontados como supostos mandantes e 11 executores.

 

Os ex-integrantes da cúpula da segurança pública do Amazonas, o ex-secretário de Segurança Pública do Estado, coronel Louismar Bonates, e o ex-comandante da Polícia Militar, coronel Ayrton Norte, foram indiciados em 2023 como supostos mandantes do massacre. O processo relacionado aos dois está atualmente no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), em Brasília, onde aguarda definição sobre a competência para julgamento.

 

Segundo Vanildo Pereira, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a sociedade civil organizada segue cobrando uma resposta do Tribunal. “Nós estamos nessa situação de cobrar respostas, de exigir que o TRF1 faça o seu papel o quanto antes, afinal é um caso emblemático de repercussão e de comoção da sociedade como um todo. Não há razões para tanta demora”, afirmou.

 

Para os familiares e entidades que acompanham o caso, a demora no processo prolonga a espera por responsabilização e aumenta a sensação de impunidade.

 

“Desde setembro de 2025, as ações seguem paralisadas, sem definição de competência de quem vai julgá-las. Por isso esse seminário marca a urgência de uma resposta que o Estado brasileiro ainda deve às vítimas familiares e sobreviventes do massacre do Rio Abacaxis”, enfatizou Raphael Diniz, membro do Coletivo pelos Povos do Abacaxis, na abertura do encontro.

 

Reparação também está entre as reivindicações

 

Além da responsabilização criminal, familiares e entidades defendem medidas de reparação pelos danos provocados pelo massacre.

 

Na esfera cível, o Ministério Público Federal (MPF) move uma ação coletiva de indenização, que inclui pedidos de reparação e medidas relacionadas à melhoria das condições de saúde e segurança pública no território. Já a Defensoria Pública da União (DPU) atua em ações individuais envolvendo familiares das vítimas.

 

A DPU esteve representada no encontro por Fabiana Nunes Silva, que participou da atividade por vídeochamada. Segundo ela, embora processos judiciais demandem tempo para a apuração dos fatos, a demora não pode resultar na ausência de respostas às famílias. “Essa questão que se apresenta é na verdade pra gente natural, decidir a nossa função profissional, de assistência judiciária. Eu acho importante informar que é um processo judicial e há inevitavelmente uma demora na apreciação da apuração, isso demanda tempo, mas o tempo também não pode ser fator de injustiça, já que esse caso tem seis anos. E o que eu posso dizer é que a Defensoria Pública, como instituição, está presente, assim como as outras instituições de justiça também. E eu acho que é alguma coisa que a gente tem que pensar, que existe uma rede de proteção, mas que é insuficiente”.

 

Vanildo Pereira destacou que a reparação também precisa considerar os impactos psicológicos e sociais provocados pela violência.  “A gente acredita e espera que dentro do âmbito civil a gente possa alcançar uma reparação coletiva e de modo específico a determinadas famílias que estão traumatizadas, profundamente marcadas por essa situação toda que sofreu. Afinal de contas são seis anos que estamos nesse processo e até hoje a gente não tem a responsabilização dos autores e executores e não tem da parte do Estado uma ação efetiva, que ampare seja nas consequências psicológicas, do corpo, da alma deles, e nem tão pouco da segurança territorial”, explicou.

 

O Coletivo pelos Povos do Abacaxis é formado por organizações da sociedade civil, entre elas a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a Frente Amazônica de Mobilização e Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI), docentes da Ufam e a Casa da Cultura do Urubuí (Cacuí). A entidade atua na cobrança por justiça, condenação dos envolvidos no crime e reparação às famílias das vítimas.

 

Impactos na família

 

Para os familiares, os anos também são marcados pelo medo e pelos traumas deixados pela violência. Um dos familiares das vítimas, que pediu anonimato, relatou durante a atividade que o medo e o trauma permanecem apesar da passagem do tempo. “A gente sente medo, desconforto. Muitos têm muito medo ainda de vir pra cá, de participar desses encontros, não tem resposta à altura que a gente precisa do que aconteceu, foi uma barbaridade. Porque eles foram sem dó e sem piedade. Tem muito trauma, alguns não conseguem nem falar”, declarou.

 

Questionado sobre o que reivindicam, o familiar foi direto: “Justiça! Queremos uma resposta mais rápida dos órgãos competentes. Mas a gente sabe que a gente está mexendo com gente grande, de dentro do sistema. Então quando a gente briga com o sistema você sabe que é mais difícil”.

 

A participação coletiva é apontada como uma forma de manter viva a memória e fortalecer a cobrança por respostas. O familiar relatou que esta foi sua primeira participação no encontro anual promovido pelo coletivo. “Essa atividade acontece uma vez por ano, mas é a primeira vez que eu participo, e somos 11 pessoas aqui dessa vez, e nós estamos muito satisfeitos pelo coletivo, que tem dado apoio e assim poder cobrar, reivindicar”, relatou.

 

Proteção a defensores

 

A situação das comunidades dos rios Abacaxis e Mari-Mari também foi analisada sob a ótica da proteção aos defensores de direitos humanos.

 

A advogada do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH), Alessandrine Silva, afirmou que a proteção das lideranças passa pela garantia de direitos fundamentais, como acesso à terra, comunicação, água encanada e energia. Para ela, a proteção efetiva exige assegurar condições básicas às comunidades e garantir respostas rápidas do Poder Judiciário.

 

 

A advogada acrescentou que todas as pessoas acompanhadas pelo PPDDH recebem medidas protetivas adequadas e alinhadas às necessidades de segurança definidas pelas próprias comunidades e famílias. Por razões de segurança, a identidade das pessoas atendidas e os detalhes das ações adotadas são mantidos sob sigilo.

 

“Nós temos um sigilo importante sobre quem são as pessoas acompanhadas e quais são as medidas de proteção que nós implementamos para cada uma delas, mas a gente também tem uma satisfação de dizer que todas as pessoas que são acompanhadas pelo programa de proteção hoje receberam medidas protetivas adequadas e de acordo com o que elas próprias estabeleceram enquanto segurança e proteção para suas comunidades e para suas famílias”.

 

Memória e resistência

 

Representando a ADUA, o professor José Alcimar de Oliveira ressaltou a importância de manter viva a memória das vítimas e relacionou a atividade à luta contra a naturalização da violência. “Essa manifestação aqui é para manter viva a memória de um massacre que não foi o único. Eu sei que somos poucos e poucas, mas estão aqui os que lutam. E eu acredito que celebrar a memória, manter viva a memória de quem lutou, e, sobretudo, de quem tombou na luta é uma estratégia de resistência”, afirmou.

 

Alcimar criticou ainda a naturalização do massacre e destacou a necessidade de mobilização permanente. “Nós temos que manter viva essa memória com a consciência de que nós vivemos num estado burguês. Então a justiça do estado burguês, ela é voluntariamente programadamente lenta, e, sobretudo, para não funcionar, ser omissa. E se não houver, da parte dos movimentos, das associações, dos sindicatos, uma cobrança permanente, a manutenção dessas coisas tenderá a se repetir. A luta continua”.

 

 

Para a integrante da APIAM, Mariazinha Baré, o massacre faz parte de um contexto mais amplo de violência enfrentado pelos povos indígenas. “Essa violência, infelizmente, ela representa o que a gente convive no dia a dia enquanto povos indígenas no Brasil. Sendo massacrado, literalmente, no nosso dia a dia dentro e fora dos nossos territórios”.

 

Segundo ela, é necessário fortalecer a articulação em uma unidade de luta para impedir que casos como o do Abacaxis sejam esquecidos. “A gente não quer, enquanto povos indígenas, esquecer, deixar que esse seja mais um caso esquecido pelo Estado. É muito importante que nós, povos indígenas e populações ribeirinhas, a gente esteja mais do que nunca nessa aliança, que a gente esteja junto lutando, em parceria e apoio dos órgãos, das organizações que estão se indignando tanto quanto nós”, disse.

 

A estudante do Programa de Pós-Graduação em História da Ufam, Tamily Frota, também destacou que a luta pela memória não se restringe à punição dos responsáveis. “A luta não é pela punição, essa luta é pela mobilização de uma sociedade que deve não naturalizar a existência dessa violência e que deve estar consciente de que o genocídio é um processo contínuo no nosso país”, afirmou.

 

Falando pela FAMDDI, a professora Rosa Helena Dias destacou a solidariedade às comunidades atingidas e reforçou a necessidade de resistência. “Nós viemos aqui nessa manhã olhar com muito carinho e respeito para cada uma de vocês, cada um de vocês, das comunidades atingidas, e viver juntos a nossa solidariedade. Foi e continua sendo tanta violência, tanto sofrimento, tanta injustiça, mas juntos e juntas somos mais fortes e podemos, hoje e sempre, renovar e fortalecer a resistência e a esperança. Nossa luta é contra a impunidade”, disse.

 

O encontro foi encerrado com a leitura de um manifesto assinado pelas entidades presentes. A atividade reafirmou a defesa da memória das vítimas e a cobrança por justiça, responsabilização e reparação.  “É medida de Justiça que os executores e mandantes sejam responsabilizados, garantindo a não repetição de situações semelhantes e que o Estado brasileiro garanta às vítimas indenização, amparo e reparação por diferentes formas”, afirma trecho final do documento.

 

Leia aqui o manifesto na íntegra.

 

Relembre o massacre dos rios Abacaxis e Mari-Mari

 

O massacre ocorreu em agosto de 2020, após uma operação da Polícia Militar do Amazonas nos territórios indígenas e ribeirinhos dos rios Abacaxis e Mari-Mari.

 

Segundo o manifesto lido durante o encontro, a operação foi deflagrada após o então secretário de Desenvolvimento Social do Amazonas, Saulo Moyses Rezende da Costa, alegar ter sido baleado enquanto tentava pescar sem licença ambiental no rio Abacaxis e prometer vingança.

 

Durante a operação, foram mortos os irmãos Josimar e Josivan Moraes Lopes, do povo Munduruku; Anderson Gonçalves Monteiro; Vandrelânia de Souza Araújo; Matheus Cristiano de Souza Araújo; Eligelson de Souza da Silva; e Benahim da Silva Freire. Adimilson Silva dos Santos foi levado pela Polícia Militar e permanece desaparecido.

 

De acordo com o material apresentado no encontro, em 23 de julho de 2020, as lanchas Arafat e Dona Dorma entraram no território do PAE Abacaxis e da Terra Indígena Maraguá com o objetivo de realizar pesca esportiva sem autorização das comunidades.

 

Os corpos de Anderson Monteiro, Vandrelânia de Souza Araújo e Matheus Araújo, filho do casal, foram encontrados em 6 de agosto de 2020, nas proximidades da aldeia Terra Preta, do povo Maraguá. Admilson nunca foi localizado.

 

Em 28 de abril de 2023, foi anunciado o indiciamento, como supostos mandantes do massacre, do ex-secretário de Segurança Pública do Amazonas, coronel Louismar Bonates, e do ex-comandante da Polícia Militar, coronel Ayrton Norte.

 

Até o momento, agosto de 2026, o processo penal está parado no Tribunal Regional Federal da 1ª Região em Brasília.  As famílias seguem sem respostas.

 

 

Fonte: ADUA

Fotos: Daisy Melo/ Ascom ADUA

 



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