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  01/07/2026


Extrema direita: Ataque às universidades representa ofensiva contra pensamento crítico



 

 

 

Crédito: Wildally Souza/Reprodução

Discentes foram atacadas(os) pela PM em ato contra ação violenta da polícia na USP

 

 

Daisy Melo

 

Espaços de pluralidade de pensamento e produção de conhecimento científico, as universidades federais brasileiras têm sido alvos frequentes de ataques e ameaças em 2026. As ofensivas partem, principalmente, de políticos e influenciadores de direita, que têm como método a geração de conteúdo midiático falacioso e a disseminação do discurso de ódio contra a Universidade Pública e sua comunidade acadêmica, e ainda de ações da Polícia Militar (PM).

 

No primeiro semestre, foram identificados, pelo menos, dez ataques às instituições em levantamento feito pela ADUA. Além dos casos na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), foram registrados episódios na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e na Universidade de Brasília (UnB).

 

Fascismo

 

A geração do medo é uma estratégia de grupos extremistas, alerta o sociólogo e professor do Departamento de Ciências Sociais da Ufam, Luiz Antonio Nascimento de Souza. “Para se afirmar, a extrema direita trabalha com a perspectiva do medo, que produz nelas uma disposição para renunciar valores e sentidos na tentativa de se proteger”.

 

Faz parte da tática dos extremistas, segundo o docente, “dar cara e nome” ao gerador desse medo. “Eles dizem: ‘Você está sofrendo, porque os comunistas, os judeus ou qualquer outro grupo está fazendo isso’ e assim fazem com que as pessoas amedrontadas carreiem sua força para combater o causador do medo. Isso tem nome na Ciência Política e nas Ciências Sociais: fascismo”, explica Luiz Antonio. 

 

Crédito: Daisy Melo/Ascom ADUA

Professor Luiz Antonio classificou as ações como fascistas

 

O fascismo foi citado pelo ANDES-SN ao comentar o penúltimo episódio, ocorrido em 30 de maio, contra as universidades públicas, situação em que o dono das lojas Havan, Luciano Hang, afirmou que “as universidades federais são guetos da esquerda” e “o atraso do Rio Grande do Sul”. O Sindicato destacou que as declarações são a evidência do avanço de setores fascistas no Brasil, que vêm atacando violentamente a educação pública e, particularmente, as universidades, institutos federais e Cefets, e da tentativa de distorção da realidade com práticas intolerantes e mentirosas.

 

Para a 1ª secretária da ADUA, Valmiene Florindo, as ofensivas se fundamentam na desqualificação do pensamento crítico promovido na universidade. “A extrema direita e esses grupos violentos atentam contra o exercício do livre pensar e do questionamento à ordem vigente, porque isso põe a nu as contradições das relações sociais. De forma estrategicamente sórdida essas ações são feitas através de discursos mentirosos que tentam minar a imagem do Ensino Superior público”.

 

A docente chama a atenção para a globalização desse movimento. “Percebemos que há internacionalmente o avanço das forças de extrema direita que aludem à justificativa de liberdade de expressão para destilar inverdades para que a opinião pública desacredite na ciência e na universidade como saída e potencialidade, sobretudo, para a classe trabalhadora”, afirma Valmiene.

 

Prática ditatorial

 

Durante a ascensão da extrema direita ao cargo político máximo no Brasil, as universidades federais e suas comunidades foram vítimas de uma massiva campanha caluniosa com acusações de “doutrinação marxista” e “balbúrdia”. Ao adotar esse discurso, o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) tentou asfixiar as instituições de ensino federais com, por exemplo, a aplicação de sucessivos e severos cortes orçamentários e a nomeação de interventoras(es) nas reitorias.

 

A gestão de Bolsonaro é, até hoje, a com o maior patamar de militarização desde a redemocratização. Em levantamento feito em 2021 pelo Tribunal de Contas da União (TCU), identificou-se que 6.175 militares ocupavam cargos do governo federal em 2020. Ou seja, a Ditadura Empresarial Militar (1964-1985) havia sido o último período com registro recorde de membros das Forças Armadas no poder, e suas práticas de perseguição à Universidade Pública e à comunidade acadêmica foram reproduzidas enquanto o ex-capitão do Exército era presidente da república e são, ainda hoje, por políticos de direita.

 

Ao se posicionar sobre ameaças de uso de força policial no campus da Unesp, a Associação dos Docentes da instituição (Adunesp) citou, em publicação em seu site em maio, a similaridade do modus operandi com o do período ditatorial. “Essas iniciativas nos reportam à repressão perpetrada durante a ditadura empresarial militar pelo coronel Erasmo Dias contra os estudantes reunidos na PUC/SP em setembro de 1977”. A associação questionou ainda se a Administração Superior estaria flertando com leis editadas durante o regime militar, como o Decreto-Lei nº 477/1969, conhecido como “AI-5 universitário”, que criminalizava manifestações e instituía graves punições para membros da comunidade.

 

Essa perseguição histórica tem uma razão, destaca Valmiene. “A universidade exerce um papel importante na transformação da vida das pessoas e da sociedade, e o pensamento científico é alvo porque promove debates sobre as agendas conservadoras que impedem a ampliação de direitos humanos e sociais”.

 

Luiz Antonio também tem pensamento semelhante sobre a motivação. “Isso acontece porque a extrema direita encontra nas universidades uma resistência teórica, ideológica, de pensamento crítico. As universidades são o porto seguro em que está atracado o conhecimento que produz a capacidade de compreender o mundo. É a educação, os professores que demonstram que não há um inimigo. Por isso, os fascistas tentam combater os produtores de esclarecimento, para que o discurso deles passe a ser uma verdade inconteste”.

 

O sociólogo foi, inclusive, um dos membros da comunidade da Ufam a enfrentar um grupo de pessoas ligadas ao Partido Liberal (PL), entre elas o vereador de Manaus, Ubirajara Rosses, que também é coronel da PM do Amazonas, em 05 de maio, no Instituto de Filosofia Ciências Humanas e Sociais (IFCHS), Setor Norte do campus de Manaus. O objetivo do grupo, segundo depoimentos de estudantes, era confrontar dizeres de cartazes afixados por discentes. Esse foi o segundo caso registrado na universidade neste ano. Em abril, outro grupo foi à Ufam e rasgou cartazes com mensagens feministas, antirracistas, antilgbtfóbicas e em prol da diversidade, da causa Palestina e da educação pública. Na ocasião, a ADUA e o ANDES-SN emitiram notas repudiando os ataques à Ufam.

 

Na UEA, o ataque ocorreu em maio, quando um estudante da juventude do PL rasgou cartazes com mensagens contra o ataque sofrido pela Ufam, no campus da Escola Normal Superior (ENS), em Manaus. Em nota, o Sindicato dos Docentes da UEA (Sind-UEA) afirmou que a estratégia da direita se baseia na “na tentativa de deslegitimar espaços de pensamento crítico”.

 

Ação similar aconteceu na UFSCar em 8 de junho. Um grupo liderado por um pré-candidato a deputado federal invadiu o campus e promoveu ações de vandalismo, intimidação e incitação à violência. Em nota, o ANDES-SN manifestou repúdio e afirmou que o episódio foi um claro ataque à autonomia universitária e à convivência democrática no interior da universidade pública.

 

Crédito: José Cícero/Agência Pública

Direita tenta difamar Universidade Pública e comunidade

 

 

Já no campus da Unicamp, em 27 de maio, militantes da extrema direita, entre eles do Movimento Brasil Livre (MBL), invadiram o acampamento de estudantes em greve. Essa foi a segunda denúncia de intimidação, neste ano, registrada por estudantes. Na primeira vez, discentes chegaram a ser agredidas(os) fisicamente.

 

No mesmo mês, um grupo formado por políticos, entre eles os vereadores Rubinho Nunes e Adrilles Jorge - ambos do partido União Brasil - e o influenciador, Robson Fuinha, entrou em confronto com estudantes da Unicamp, da USP e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). As(os) discentes protestavam, no centro de São Paulo, contra a desocupação do prédio da reitoria da USP feita de forma truculenta pela PM, ocorrida um dia antes da manifestação. As(os) estudantes em greve reivindicavam a ampliação dos auxílios estudantis e melhorias nas condições de permanência na universidade e dos restaurantes universitários.

 

Outro episódio ocorreu no início do ano contra o Centro Acadêmico do Curso de Biologia (CABio) da UnB. O local sofreu um ataque de um influenciador e integrante do movimento “Limpe as Universidades”. Em nota, o CABio informou que pessoas invadiram o local, no dia 5 de janeiro, e realizaram gravações. “Tal conduta configura violação de autonomia dos espaços estudantis e desrespeito aos princípios democráticos”.

 

 

Ano eleitoral

 

A intensificação dos ataques às universidades públicas tem ainda relação com as eleições de 2026. Para alguns membros de comunidades acadêmicas, a geração de conteúdo midiático e a disseminação do discurso de ódio contra as instituições têm como meta angariar votos.

 

O Diretório Central Estudantil (DCE) “Honestino Guimarães” da UnB, por exemplo, afirmou na nota sobre o ataque ao centro acadêmico que o método das ofensivas é criar pânico moral contra a educação pública com fins políticos. “Seu objetivo, porém, não é a melhoria da universidade em nenhuma instância: é, na verdade, contra a universidade pública, gratuita e livre, com pluralidade de pensamento. Seu projeto político é, de um lado, se eleger na onda do pânico moral e, de outro, privatizar a educação e moralizar o que pode e o que não pode ser dito, acabando com o pensamento livre e crítico”.

 

Para o 3º secretário do ANDES-SN e docente da Faculdade de Educação (Faced) da Ufam, Jacob Paiva, as ações fazem parte de uma tática com finalidade eleitoreira. “Não é a primeira vez que um grupo de extrema direita entra na Ufam. Sabemos que isso é uma estratégia inclusive para projeção de candidaturas”, afirmou, em maio deste ano, em reunião entre docentes da universidade, após os ataques à Ufam.

 

Essa busca por votos também foi comentada por Luiz Antonio que acredita que os ataques não são apenas para essa finalidade, mas que acabam levando popularidade a esses grupos entre seu público e eleitoras(es). “Não são por acaso, não são à toa e não são só porque estão atrás de likes, mas claro que os likes funcionam. E num processo eleitoral é importante que ascendam, conquistem prestígio nas redes. Quem produz tumulto, confusão, atrito, vai ter mais alcance nas redes sociais”.

 

Truculência

 

Em alguns dos ataques deste ano percebe-se também a participação de um dos principais aparatos repressivos do estado, a polícia. Essa atuação foi destacada pelo ANDES-SN em nota de repúdio sobre a ação da PM contra o acampamento de estudantes da USP. Para a entidade, a operação policial, marcada pelo uso de bombas, gás lacrimogêneo, agressões físicas, detenções arbitrárias e práticas humilhantes, evidencia a escalada repressiva. “A naturalização da presença policial como instrumento de resolução de conflitos internos representa grave ameaça à autonomia universitária, às liberdades democráticas e ao direito à organização e à manifestação”.

 

Também repudiou e destacou a ilegalidade da atuação policial o Fórum das Seis, que reúne entidades sindicais e estudantis da USP, Unicamp, Unesp e Centro Paula Souza. “As cenas de violência da ação policial mancham a história da USP, trazendo à lembrança os sombrios períodos da ditadura militar-empresarial. Universidade pública é local de diálogo democrático!”.

 

Sobre as ameaças e o caso do pedido de reintegração de posse do Instituto de Artes da Unesp, a Adunesp rechaçou a “ação da Polícia Militar de São Paulo dentro do campus para cumprimento da decisão, assim como a penalização e a criminalização de estudantes em razão do ato político de ocupação do prédio”.

 

Crédito: José Cícero/Agência Pública

Universidade mantém forte resistência nas ruas

 

 

Resistência e ciência

 

O valor social das universidades foi destacado pelo ANDES-SN e pela Seção Sindical dos Docentes da Universidade Federal de Santa Maria (Sedufsm) ao rebaterem as declarações de Luciano Hang. O Sindicato Nacional afirmou, em 10 de junho, que as falas do empresário contrariam qualquer senso de responsabilidade ao vilipendiar um dos mais importantes patrimônios da sociedade brasileira. “O ataque do empresário driblador de impostos se enquadra no contexto das investidas permanentes da extrema direita às instituições que, com seu trabalho de ensino, pesquisa e extensão, resistem aos interesses predatórios de quem só consegue enxergar sua insaciável busca de lucro”.

 

O ANDES-SN frisou também que as universidades “produzem mais de 95% das publicações científicas brasileiras indexadas internacionalmente e, em conjunto com outras instituições públicas de pesquisa, respondem por algo entre 25% e 35% dos depósitos de patentes de residentes brasileiros” e constituem ainda “lugar onde se produz, com criatividade, o pensamento crítico, o avanço da ciência, da tecnologia e onde se formam as(os) melhores profissionais brasileiras(os)”.

 

Já a Sedufsm declarou que a atitude de Hang demonstra profundo desconhecimento e descompromisso com o futuro do país, e tenta reduzir o papel estratégico da educação pública. A entidade destacou ainda que a tentativa de desvalorizar o ensino superior público choca-se com a realidade. “As universidades federais e estaduais são responsáveis por cerca de 90% da ciência produzida no Brasil. Mesmo sob o sufocamento de um subfinanciamento constante e de sucessivos cortes orçamentários que limitam sua atuação plena, as instituições resistem e entregam à sociedade pesquisas de ponta, extensão comunitária e a formação de profissionais de excelência em todas as áreas do conhecimento”.

 

A denúncia da estratégia da direita tem sido uma das ações da ADUA frente a problemática, destaca a professora Valmiene. “A ADUA tem denunciado publicamente, junto com outros setores, a infame propaganda e os ataques diretos a alunos e professores que grupos políticos e militares têm feito sistematicamente. Não admitimos que a Universidade seja alvo de pretenso golpe, pois esta não somente é formadora de quadros profissionais qualificados, mas opera através da crítica contundente, rigorosa e propositiva para mudanças estruturais que viabilizam a implementação de direitos nesse território”.



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