Crédito: Sue Anne Cursino

Encontro reune docentes de quatro estados da região Norte
Sue Anne Cursino
Docentes de seis seções sindicais do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN) reuniram-se nos dias 5 e 6 de junho, na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), campus de Ji-Paraná (RO), durante a 45ª Reunião das Seções Sindicais da Regional Norte I do Sindicato Nacional. Com o tema “Luta Sindical na Amazônia: financiamento das IES, conflitos agrários e desafios da multicampia”, o encontro também reforçou a necessidade de ampliar a articulação entre o movimento docente e os movimentos sociais na defesa da educação pública.
Participaram docentes filiados(as) das seções sindicais do ANDES-SN do setor das federais: do Amazonas (ADUA); de Rondônia (ADUNIR); de Roraima (SESDUF-RR) e do Acre (ADUFAC), assim como das estaduais de Roraima (SINDUER-RR) e do Amazonas (SIND-UEA).
A ADUA foi representada pelas professoras Ana Lúcia Gomes (ICB), Karime Bentes (ICE) e pelo professor Paulo Holanda (Faartes), docentes lotados em Manaus, além dos professores Alexandre Mascarenhas (IEAA-Humaitá) e Edilson Albarado (ICSEZ – Parintins), que, para participar da atividade, tiveram que se deslocar de avião, de van na estrada e de lacha no rio.
A abertura contou com representantes da UNIR, do Sinasefe, do movimento estudantil, de movimentos sociais e de organizações ligadas à luta pela terra, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). Os discursos convergiram para a defesa do fortalecimento das entidades sindicais e da unidade das categorias diante dos desafios enfrentados pelos trabalhadores e trabalhadoras da educação.
A primeira mesa abordou o tema “Desfinanciamento e ataque à autonomia”. O 1º vice-presidente da Regional Norte I, Marcelo Vallina, apresentou dados que demonstram a redução contínua dos recursos destinados às universidades federais ao longo da última década.
No dia 29 de maio, o governo federal publicou um decreto que bloqueou R$ 1,6 bilhão do orçamento destinado ao Ministério da Educação (MEC) para verbas discricionárias.
Em nota pública, o ANDES-SN repudiou o bloqueio, que se soma a sucessivos cortes orçamentários desde 2015 (totalizando mais de R$ 3 bilhões), e exigiu o desbloqueio imediato, além de uma política efetiva de recomposição orçamentária, necessária para reverter as perdas acumuladas nos últimos 11 anos.
Segundo Vallina, a diminuição dos investimentos tem levado as instituições a dependerem cada vez mais de emendas parlamentares para garantir seu funcionamento, cenário que traz impactos para a autonomia universitária. “É um recurso perigoso. Isso envolve articulação política das reitorias e impacta diretamente a disputa interna de projetos entre docentes e a autonomia das universidades”.
Vallina também relacionou a redução dos investimentos à queda nas matrículas e ao aumento da evasão estudantil, apontando os cortes na assistência estudantil como um dos fatores que contribuem para esse cenário. “Hoje, praticamente, as universidades não têm recursos para pagar o básico”, observa.
A professora Karime Bentes comentou sobre o ingresso de estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica na Ufam e defendeu o fortalecimento das políticas de permanência. “Na UFAM, cerca de 50% dos estudantes ingressam em situação de vulnerabilidade socioeconômica. A universidade precisa garantir condições para que esses alunos permaneçam”.
A realidade das universidades multicampi apareceu diretamente relacionada à questão orçamentária.
Ana Lúcia Gomes destacou a importância dos dados sistematizados pelo ANDES-SN para subsidiar as lutas da categoria e chamou atenção para as condições de trabalho dos(as) docentes nos campi do fora de Manaus. “Esses dados precisam ser divulgados e precisamos nos apropriar desse debate. A comunidade precisa saber o que está acontecendo dentro da universidade. Nós, amazônidas, sabemos mais do que ninguém o que é trabalhar em uma universidade multicampi”.
O professor Edilson Albarado relatou as desigualdades na distribuição dos recursos entre as unidades e a necessidade de assistência psicológica para a comunidade acadêmica. Ele também alertou para a perda de matrículas para instituições privadas.
“Eu sou ribeirinho e tenho percebido essa redução das matrículas na universidade. Há uma disputa na qual estamos perdendo espaço para instituições privadas, muitas delas com apenas um dia de aula presencial e o restante das atividades realizadas por educação a distância (EaD). Essa é a realidade que vivemos em Parintins”, afirma.
Crédito: Sue Anne Cursino

Karime Bentes destaca necessidade de orçamento para assistência estudantil
Disputas
Os conflitos agrários, a situação dos povos indígenas e o avanço da extrema direita na Amazônia foram temas centrais da segunda mesa do encontro.
Na abertura do debate, o 2º secretário da Regional Norte I, Antônio Carlos Ribeiro (SESDUF-RR), destacou que a expansão da pecuária, do agronegócio e da mineração tem ocorrido frequentemente sobre territórios indígenas e áreas tradicionalmente ocupadas.
“Os conflitos agrários e indígenas não representam apenas disputas pela terra, mas confrontos entre diferentes concepções de desenvolvimento, democracia, cidadania e uso do território”, afirmou.
A professora Marilsa Miranda apresentou um panorama histórico da questão agrária na Amazônia e destacou a permanência da concentração fundiária, da violência no campo e dos conflitos relacionados à exploração dos recursos naturais. “A história da Amazônia é uma história de saque das nossas riquezas naturais. O Brasil é o país do latifúndio”.
Ao analisar a conjuntura política, Marilsa relacionou a expansão da fronteira agrícola ao crescimento da extrema direita na Amazônia. Problemas como contaminação por minérios, dificuldade de acesso à água e pesca predatória também aparecem entre as principais causas de conflitos.
Na sequência, Claudinei “Tijolão” destacou que as transformações recentes da agricultura mundial alteraram profundamente a relação com a terra.
Segundo ele, a terra deixou de ser vista apenas como meio de produção para se tornar um ativo econômico global, processo que chamou de mercantilização da natureza. “A terra agora é dinheiro”, enfatiza.
Tijolão também destacou o processo de financeirização da agricultura, marcado pela atuação de grandes conglomerados internacionais que controlam sementes, agrotóxicos, preços e cadeias produtivas.
Representando os povos indígenas, Ângela Jabuti, do povo Djeoromitxí, do Sul de Rondônia, relatou os impactos da contaminação ambiental e das disputas territoriais sobre as comunidades tradicionais. “Temos medo de beber a água do rio. Já tivemos pessoas que comeram peixe e ficaram doentes”, relatou.
Ela também destacou a relação dos povos indígenas com a floresta e reforçou a necessidade de apoio à demarcação dos territórios. “Cada árvore que está em pé é muito significativa para nós. Cada árvore e cada rio vivo são um pedaço de nós”, explica.
Durante o debate, a docente Annie Martins, do Sind-UEA, indígena das etnias Tikuna e Kanamari, ressaltou a importância da sensibilidade na defesa dos territórios e dos modos de vida tradicionais. “Quando cortam uma árvore, é como se cortassem uma parte de nós”.
No encerramento foi destacada a necessidade de fortalecer as formas de resistência popular diante da violência no campo e dos interesses econômicos que disputam os territórios amazônicos.
Crédito: Sue Anne Cursino

Mesa debate os desafios da docência na multicampia e em regiões de fronteiras
Memória e luta sindical
A trajetória ANDES-SN, desde sua criação durante a ditadura empresarial-militar até os desafios contemporâneos de enfrentamento às diversas formas de opressão, foi tema da palestra ministrada pelo historiador José Sávio Maia, filiado à Adufac.
Em sua exposição, Sávio dividiu a história da entidade em três momentos fundamentais: a organização do movimento docente durante a ditadura, a consolidação do Sindicato Nacional após a Constituição Federal de 1988 e a atuação atual do ANDES-SN diante das desigualdades e opressões presentes na sociedade.
“O ANDES-SN é o maior sindicato docente da América Latina. É um dos sindicatos com maior enraizamento e tem uma base que se constitui a partir da análise de conjuntura”, afirmou.
Segundo o docente, a entidade ampliou sua atuação ao longo das décadas, incorporando às lutas históricas pautas relacionadas ao combate ao racismo, ao machismo, à LGBTfobia, ao capacitismo e à precarização do trabalho.
O Caderno 2 do ANDES-SN, publicado pela primeira vez em 1981, e atualmente em processo de atualização pela diretoria nacional, foi destacado como um documento que sintetiza a concepção de universidade pelo Sindicato Nacional, que dialoga com diferentes saberes, fortalecendo a relação entre a instituição e a sociedade.
O historiador reforçou a importância da organização coletiva. “Resistir é uma tarefa. A sociedade não vai mudar por meio de planos individuais. Ela só vai mudar com luta, e essa luta precisa ser coletiva”.
Desafios sindicais
No segundo dia do encontro, a Mesa 4 abordou o tema “Os desafios sindicais nas instituições multicampi e de fronteira”. Mediando o diálogo, a 1ª secretária da Regional Norte I, Ceane Simões (SIND-UEA), destacou a dimensão dos problemas apresentados e a necessidade de articulação da luta sindical para enfrentá-los. “Os desafios aqui apontados são de grandes dimensões, o que nos leva realmente a pensar como o enfrentamento, a partir da luta sindical, deve estar muito articulado às questões aqui trazidas”.
Representando a ADUA, Ana Lúcia Gomes chamou atenção para a realidade das unidades da Ufam localizadas fora de Manaus. Segundo a docente, as visitas da Diretoria aos campi fora da sede permitiram constatar situações alarmantes de adoecimento entre docentes.
A ausência da interiorização dos serviços de saúde destinados aos(às) servidores(as), o adoecimento emocional e o assédio institucional foram citados das intervenções. Ceane destacou que a atuação sindical também tem incorporado ações de acolhimento e cuidado. A ADUA é um exemplo, com o lançamento do projeto piloto “Escuta e Acolhimento Docente”, que prevê a oferta de serviço psicoterápico para sindicalizados e sindicalizadas.
Pela a Adunir, o professor Otacílio Medeiros fez uma reflexão sobre o assédio moral nas instituições de ensino superior e denunciou o uso da burocracia administrativa como instrumento de perseguição a opositores das gestões universitárias.
A docente Mariana Pereira, representando a SESDUF-RR, abordou os impactos da questão migratória em Roraima e seus reflexos no cotidiano da universidade, que impõe desafios específicos tanto para a atuação sindical quanto para a formulação de políticas institucionais.
Um panorama preocupante sobre os retrocessos enfrentados pela Universidade Estadual de Roraima (UERR) foi compartilhado pelo professor Francisco Leidens (SINDUER), como a redução da oferta de cursos, a concentração das atividades na capital e em Rorainópolis e a ampliação da contratação de docentes horistas, medidas que aprofundam a precarização já vivida pela categoria.
Compartilhando a experiência do Sind-UEA, Rita de Cássia Machado, citou as dificuldades relacionadas à gestão multicampi e aos problemas de mobilidade enfrentados pelos docentes. Ela criticou a desigualdade de tratamento entre profissionais da capital e do interior. “Essa ideia de que os professores do interior são inferiores aos professores da capital é uma tradução de violência institucional que se expressa de várias outras maneiras”.
Na avaliação de Ceane Simões, as intervenções convergiram para um diagnóstico comum: a expansão e a interiorização das universidades sem infraestrutura adequada têm aprofundado os processos de precarização e produzido sentimentos de abandono e isolamento entre docentes e Técnico-Administrativos(as) em Educação (TAEs).

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