Crédito: Sue Anne Cursino/ Ascom ADUA

Cartazes do movimento estudantil foram al vos de ataques de grupo da extrema direita
Sue Anne Cursino
Sob o grito de “Recua! Recua!”, estudantes e o professor do Departamento de Ciências Sociais, Luiz Antonio Nascimento de Souza, enfrentaram, no dia 5 de maio, um grupo ligado ao Partido Liberal (PL), que invadiu o hall do Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS), no Setor Norte da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Entre os(as) integrantes do grupo estava o vereador de Manaus Ubirajara Rosses, coronel da Polícia Militar. O episódio mobilizou organizações estudantis, coletivos e sindicatos, que classificaram a ação como tentativa de intimidação e ataque à autonomia universitária.
Dias antes, em 25 de abril, a universidade já havia sido alvo de ação semelhante. Um grupo entrou no campus e rasgou cartazes que estavam em exposição nos corredores do IFCHS.
Os episódios registrados recentemente na UFAM não são casos isolados. Nos últimos anos, universidades públicas brasileiras passaram a enfrentar ações de intimidação, ataques ideológicos, destruição de materiais políticos estudantis e campanhas de descredibilização nas redes sociais.
Casos semelhantes foram registrados em instituições como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal do Ceará (UFC), entre outras.
Em abril de 2025, por exemplo, um vereador de Campinas foi à Unicamp para gravar vídeos criticando políticas de diversidade e cotas. Seguindo a mesma narrativa de como ocorreu na UFAM.
Especialistas apontam que essas ocorrências fazem parte de um fenômeno mais amplo, identificado como “ódio ao conhecimento”, caracterizado pela tentativa de deslegitimar universidades, pesquisadores (as) e o pensamento crítico.
Em reportagem publicada pelo Jornal Unicamp, o professor da UnB, Luis Felipe Miguel, afirmou que o fenômeno está relacionado a diferentes fatores, entre eles o incômodo de setores conservadores com a democratização do acesso ao ensino superior, a autonomia universitária e a produção de pensamento crítico dentro das instituições.
Há um crescimento de discursos que associam universidades públicas a espaços de “doutrinação”, ignorando o papel das instituições na produção de conhecimento científico, pesquisa e extensão, com formação política cidadã.
A pesquisa “Difamando a Ufam em 3,2,1... Já: Representações manauaras sobre o ‘nosso maior patrimônio’”, desenvolvida por Fábio Lima e Raissa Cândido, analisa justamente como discursos de desinformação e difamação sobre universidades públicas passaram a circular com maior intensidade nas redes sociais e em setores da sociedade, inclusive no âmbito familiar de estudantes.
O estudo aponta que a estratégia de difamação das universidades ganhou força entre 2018 e 2022, período marcado por ataques a docentes, gravações ilegais em salas de aula, hostilização de estudantes e propostas legislativas voltadas ao enfraquecimento da autonomia universitária, inclusive com o não respeito as escolhas das reitorias.
A pesquisa também relaciona esse processo ao avanço da privatização do ensino superior e ao crescimento acelerado da educação à distância (EaD).
Episódio na Ufam
De acordo com depoimentos de estudantes, o vereador Rosses disse que estava na universidade para fazer uma investigação com relação aos cartazes que fazem parte de ações políticas do movimento estudantil voltadas à ocupação na universidade.
“Entendemos que a universidade deve ser um espaço vivo de debate, construção coletiva e expressão, e é nesse sentido que promovemos atos que articulam formação crítica e mobilização”, disse o presidente do Centro Acadêmico de Geografia e coordenador nacional da Juventude Manifesta, Gustavo Fernandes.
Segundo ele, os cartazes que foram rasgados expressavam críticas à precarização do ensino público, à gestão institucional e às correntes políticas autoritárias.

Professor é agredido em ação de grupo invasor na UFAM - Crédito: Divulgação
As mensagens denunciavam o feminicídio, o antirracismo, a privatização do ensino; e defendiam pautas como a diversidade, o direito à educação e apoio à Palestina.
“Produzimos sentidos, posicionamentos e formas de presença dentro da universidade. O ataque foi compreendido como uma tentativa de setores alinhados ao fascismo de se apropriar da nossa indignação para gerar engajamento, ao mesmo tempo em que desrespeitam a autonomia dos estudantes. A maioria das pessoas desse grupo não é da universidade, mas indivíduos que se deslocaram até o espaço com o objetivo de provocar, registrar e repercutir nas redes sociais, esvaziando o sentido real sobre o que fazemos aqui”.
Vídeos divulgados nas redes sociais mostram o parlamentar discutindo com o professor Luiz Antonio, apontando o dedo em seu rosto e elevando o tom da discussão.
Em depoimento à ADUA, o professor Luiz Antonio, que é sindicalizado à ADUA, afirmou que o grupo chegou ao espaço universitário com postura intimidatória. “Não me coube outra atitude senão sair em defesa da universidade e dos estudantes, sempre lembrando a eles que aquele não é um espaço de violência ou confronto físico, mas sim de confronto de ideias”, declarou.
O docente criticou a atuação do parlamentar, afirmando que o debate deveria se concentrar em questões como o transporte público para estudantes e trabalhadoras(es) e a segurança na cidade.
“Ele [o vereador] vem dizer que vai fiscalizar a universidade? Sendo vereador, ele deve se colocar no seu lugar. Não tem competência institucional nem mandato para confrontar estudantes dentro da universidade, nem trabalhadores. Sou servidor público, estava no meu local de trabalho e fui confrontado de forma violenta”.
O professor afirmou ainda que a atitude do grupo remete ao fascismo, que busca silenciar estudantes e professoras(es). “Depois queimam livros, queimam professores, queimam a sociedade. Eles querem silenciar o pensamento crítico”, disse.
A presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE), Thaly Duarte, também classificou a ação como uma tentativa de intimidação. “Eles chegaram com intenção clara de confrontar os estudantes. O vereador tentou transformar o campus em palco político, mas a comunidade acadêmica reagiu”, afirmou.
Para o jornalista e professor, Antônio José da Costa (FIC), ações desse tipo seguem uma estratégia dos grupos de extrema direita, que se utilizam de confrontos para gerar imagens e narrativas de vitimização nas redes sociais. “Eles provocam uma reação e depois divulgam os vídeos como se fossem vítimas. Isso funciona muito bem e rapidamente nas redes, porque não há uma análise sobre os fatos”, avaliou.
Diante da repercussão, o professor Luiz Antonio disse que a situação diz respeito a toda a comunidade universitária e destacou o papel histórico da Ufam na formação profissional e acadêmica da população amazônida.
“Nós estamos fazendo aquilo que é da nossa competência: formar uma massa crítica capaz de pensar criticamente a sociedade e a universidade”, afirmou
Enfrentamento
Entidades sindicais, movimentos estudantis e organizações sociais passaram a discutir estratégias de enfrentamento aos ataques contra a universidade pública.
“Não é a primeira vez que um grupo de extrema direita entra na UFAM. Sabemos que isso é uma estratégia para projeção de candidaturas. Esse não é um problema só nosso, é de toda a sociedade”, afirmou o 3º secretário do ANDES-SN, Jacob Paiva (Faced).
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Entidades sindicais e estudantis discutiram estratégias de enfrentamento a ataques à universidade pública - Crédito: Daisy Melo
Representantes estudantis criaram um Grupo de Trabalho para debater o tema e pensar em estratégias de ação diante de possíveis novos casos de intimidação. Um dossiê foi encaminhado à Ouvidoria da UFAM solicitando apuração dos fatos e acionamento do Ministério Público Federal (MPF).
O Fórum Unidade na Luta do Amazonas também promoveu reuniões para discutir formas de organização coletiva e debater termas como segurança nos campi, fortalecimento da organização estudantil, valorização da universidade pública e construção de respostas articuladas entre sindicatos, movimentos sociais e centros acadêmicos.
“Os ataques da extrema direita atingem todas as universidades públicas no estado do Amazonas, mas é importante que toda a comunidade entenda que temos questões estruturantes para enfrentar. É nisso que esse Fórum irá concentrar atenção, para que possamos construir uma ‘vacina social’ contra os ataques da extrema direita”, afirmou a 1ª secretária da Regional Norte I do ANDES-SN, Ceane Simões, docente da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), instituição que também sofreu ataques.
Já o 1º vice-presidente da Regional Norte 1, professor Marcelo Vallina (IFCHS), destacou a necessidade de organização diante do contexto eleitoral. “Nós temos que nos organizar, trocar ideias, pensar estratégias, porque nesse ano eleitoral a tendência é a situação piorar. Se acontecerem novos casos, poderemos acionar a todos”.
Solidariedade
O caso na UFAM gerou manifestações de solidariedade. Em nota pública, a ADUA repudiou a invasão do espaço universitário e classificou a ação como atentatória à liberdade de expressão e à autonomia universitária. “Nossa Seção Sindical vem publicamente, e de forma a mais veemente, rechaçar o ato inominável, intimidatório, de invasão do espaço da Universidade Pública e atentatório contra o direito constitucional de expressão política, como já ocorrera na semana anterior, no mesmo espaço, em que um séquito de intolerantes fizera o mesmo contra Centros Acadêmicos e divulgado em forma de propaganda midiática, o que está a exigir medidas legais, institucionais e preventivas por parte das instâncias superiores da UFAM”.
O ANDES-SN divulgou nota pública afirmando que o livre pensamento e o debate crítico são princípios fundamentais da universidade pública.
O Consuni da UFAM, em nota, afirmou que atos de intimidação dentro da universidade representam agressão aos pilares do Estado Democrático de Direito e à autonomia universitária.
O Colegiado do Departamento de Ciências Sociais também se posicionou defendendo a universidade como espaço de diversidade, produção de conhecimento e pluralidade política.
A Reitoria da UFAM tratou as invasões como atos de violência e tentativas de silenciamento, além de afirmar que as autoridades competentes seriam acionadas diante de qualquer violação ao exercício profissional.
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