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  04/05/2026


Roda de conversa aponta violações no Vale do Javari



Docentes compartilharam experiências em TI Vale do Javar - Crédito: Daisy Melo/Ascom ADUA

 

Sue Anne Cursino

 

Com o objetivo de dialogar sobre violações históricas e atuais na Terra Indígena (TI) Vale do Javari, ocorreu na manhã do dia 31 de março, a roda de conversa “Ação do Fórum Amazônia por Verdade, Justiça e Reparação junto aos povos indígenas do Vale do Javari”, no auditório Professor Osvaldo Coelho, na sede da ADUA, no Setor Sul do campus da Ufam, reunindo docentes, estudantes e representantes de entidades sindicais.

A roda de conversa foi organizada pela Regional Norte I do ANDES-SN, em articulação com ADUA e Sind-UEA e apoio da Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI) e do Fórum Amazônia por Verdade, Justiça e Reparação.  A gravação está disponível no canal da ADUA no YouTube.

 

A mesa foi composta pelo coordenador do Fórum e docente da Universidade Federal do Pará (UFPA), Gilberto de Souza Marques; pela 1ª secretária da Regional Norte 1 do ANDES-SN e professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Ceane Simões, e o antropólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Lino João de Oliveira Neves. O encontro teve como um dos eixos centrais o compartilhamento de experiências vividas durante a Assembleia dos União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), realizada de 25 a 27 de março, no Centro de Treinamento Quixito – TIVJ, em Atalaia do Norte (AM), local construído para formação indígena, com estrutura para abrigar cerca de 200 pessoas, com alojamentos, auditório e refeitório.

 

Ceane Simões iniciou sua fala destacando a complexidade logística e territorial da região amazônica, detalhando o deslocamento até o local da assembleia na TI Vale do Javari. “Nós partimos de Manaus até Tabatinga, no meu caso no dia 23 de março, e no dia seguinte seguimos para Benjamin Constant, em um trajeto de cerca de 30 minutos de lancha. De lá, o percurso foi terrestre até Atalaia do Norte, com duração de aproximadamente uma hora e meia, e depois mais duas horas de lancha até o Centro de Treinamento Quixito”.

 

A docente ressaltou que a participação dela e do professor Gilberto foi apenas como convidados(as), sem interferência na dinâmica da organização da Assembleia, sendo um momento de grande aprendizado. Ela informou que a assembleia na Univaja teve caráter eleitoral e reuniu representantes de diferentes povos para discussão sobre a estrutura organizativa da associação, prestação de contas e deliberações que impactam diretamente o movimento indígena. A docente destacou ainda que a centralidade das discussões abordaram diretamente a defesa do território. “A principal questão tem a ver com a proteção do território, que é garantir a permanência e a vida dos povos indígenas, com ações de vigilância, treinamento de defensores e uso de tecnologias”, disse, complementando que uma importante fala dita pelos indígenas nessa atividade foi: “Nós não temos uma causa, temos uma casa. E é essa casa que a gente quer cuidar”.

 

Nos relatos foram apontas diversas ameaças enfrentadas pelas comunidades, como invasões, mineração ilegal, atuação de grupos religiosos e saída de jovens de suas comunidades.

 

A fala da docente enfatizou que essas populações enfrentam constantemente pressões em seus territórios e que o protagonismo das mulheres é fundamental, apontando para a necessidade de busca de apoio de movimentos sociais e sindicais, já que vivem sob um sistema patriarcal, onde as lideranças são, em sua maioria, homens. “Apoiar o protagonismo político das mulheres e enfrentar as violências que elas sofrem é uma pauta central que emergiu na assembleia. O fato de as mulheres pegarem o microfone para se manifestar já demonstra grande coragem e, entre os pontos destacados na leitura da carta ‘Tecendo redes das mulheres’, estão denúncias graves e a recomendação para que não se fossem acatadas candidaturas de homens envolvidos em casos de violência”.

 

Gilberto de Souza Marques trouxe uma reflexão crítica sobre o papel da universidade nesse processo de busca por verdade justiça e reparação às violações da Ditadura Empresarial-Militar (1964-1985) no país.  “O primeiro passo é diminuir nosso grau de arrogância e entender que temos muito a aprender com os povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas. A universidade deve se somar a essa luta, aprendendo e contribuindo”, disse ao defender uma atuação mais comprometida com as demandas sociais. “Nós, na universidade, muitas vezes somos extremamente arrogantes. Achamos que o diploma nos dá autoridade para falar em nome dos povos, quando, na verdade, precisamos aprender com eles”. 

 

O professor também destacou o histórico de violência enfrentado pelos povos indígenas ao longo da história.  “A trajetória dos povos indígenas é marcada por genocídio e apagamento, tanto que nossos estudos geralmente se iniciam com a chegada dos invasores europeus. Embora seja uma história de violações, também é uma história de resistência. Se os povos originários permanecem, é porque resistem de diversas maneiras. Nosso compromisso deve ser apoiar, sem falar por eles ou assumir suas vozes. Precisamos colaborar para que a voz dos povos indígenas ressoe cada vez mais longe”.

 

Debate

 

O público também enfatizou a necessidade de ampliar o debate sobre os impactos da Ditadura Empresarial-Militar na Amazônia e suas consequências atuais.

 

Na mediação do diálogo, abrindo espaço para reflexões ao longo da roda de conversa, o professor Lino João de Oliveira Neves ressaltou a historicidade das violações na região do Vale do Javari, destacando que “a agressão aos povos é bem anterior à Ditadura”, mas que se intensificou com projetos de infraestrutura e expansão econômica na Amazônia.

 

Outras falas reforçaram a gravidade da situação no Vale do Javari. Silvio Cavuscens, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que também esteve na Assembleia como observador, destacou as tensões vividas em razão da falta de políticas públicas adequadas. “A gente percebeu tensões enormes porque são povos indígenas que não receberam a devida proteção do governo. Eu diria que a ciência tem que se aliar aos saberes tradicionais”.

 

O indigenista também chamou atenção para o fato de que: “Demarcação em si não protege. As invasões ocorrem, e fazer a vigilância em áreas recortadas por rios não é um trabalho fácil. A Univaja está realizando um trabalho importante nesse sentido”, avaliou Silvio.

 

A estudante indígena Sara Almeida, dos povos Sateré-Mawé e Miranha, destacou que é a primeira de sua família a ingressar em uma universidade federal. Cursando Pedagogia, ela afirma acreditar que a educação transforma vidas e compartilhou a situação de deslocamento da comunidade onde reside em Manaus. “Recentemente, a nossa terra, que ficava na Avenida do Turismo, foi deslocada para outro local. A gente lutou 50 anos pela demarcação da terra e fomos indenizados, sendo trasferidos para outro lugar. E, infelizmente, outros povos nem têm essa oportunidade: são simplesmente expulsos, como algo descartável, e isso é muito triste. Ver a nossa história apagada como se fosse nada é desolador, e falar sobre isso é muito delicado”.

 

Já o estudante Guilherme Pontes, do curso de Pedagogia, chamou atenção para a dívida histórica da sociedade brasileira com os povos indígenas. “Os povos indígenas têm o direito constitucional de ter seus direitos humanos garantidos. A partir do momento em o Estado falha em protegê-los, está falhando com os direitos humanos de todo cidadão. Devemos reconhecer que a cultura que temos no Brasil também vem deles. E, ao protegê-los, estamos também protegendo a cultura, a Amazônia e tudo o que vem sendo construído há décadas”, disse, destacando a necessidade de uma postura mais comprometida de toda a sociedade.

 

O 1º vice-presidente da ADUA, professor José Alcimar de Oliveira, reforçou o papel do debate, realizado em uma data simbólica: 31 de março de 2026, quando foram completados 62 anos do Golpe Empresarial-Militar no Brasil. “Eu vejo essa ação como fundamental diante do que têm sido, para nós, as consequências do desconhecimento da história. Por que não só o desconhecimento dos diversos efeitos da Golpe Empresarial-Militar civil continua, mas também o reconhecimento dos impactos dessa ditadura sobre os povos indígenas segue como um capítulo marginal da história?, questionou”.

 

Atividade reuniu docentes, TAEs e estudantes no auditório da ADUA - Crédito: Daisy Melo/ Ascom ADUA 

 

A atividade evidenciou que, apesar dos avanços organizativos do movimento indígena, persistem desafios estruturais relacionados à proteção territorial, às violações de direitos e à ausência do Estado em diversas regiões. Ao mesmo tempo, reforçou a importância de iniciativas que promovam o diálogo entre universidade, movimentos sociais, sindicais e povos indígenas, apontando caminhos para uma atuação mais solidária e comprometida com a justiça social na Amazônia.

 

TI Vale do Javari é a segunda maior do Brasil

 

A Terra Indígena Vale do Javari foi homologada pelo Governo Federal em 2 de maio de 2001, possuindo cerca de 8,544 milhões de hectares, localizada no estado do Amazonas, abrangendo áreas dos municípios de Atalaia do Norte, Benjamin Constant, São Paulo de Olivença e Jutaí, na região de fronteira entre Brasil e Peru.

 

Conforme dados do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Vale do Javari, vivem na TI aproximadamente 6.321 pessoas, falantes de duas famílias linguísticas: Pano e Katukina. “Cada um dos nossos povos tem sua própria história, seus próprios costumes e formas de resistir”, destaca a entidade.

 

Além de sete povos (Kanamari, Korubo, Kulina, Mayuruna, Marubo, Matis e Tsohom Dyapa), há registros de 19 grupos em isolamento voluntário, “povos livres” ou “autônomos”. Segundo a Univaja, o termo “isolamento”, utilizado pelo Estado, refere-se ao nível de interação social desses povos com instituições estatais. “São povos que decidiram não estabelecer relações permanentes com seu entorno, incluindo outros povos indígenas do Vale do Javari e os não-indígenas (nawa). Essa escolha é resultado da defesa de sua autonomia e da preservação de suas formas de viver, diante das muitas ameaças que vêm do mundo exterior”.

 

Proteção dos territórios dos povos in dígenas marca a Assembleia da Univaja - Crédito: Ceane Simões/ UEA 

 

 



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