
Mulheres negras, mortas em casa e, na maioria das vezes, pelo companheiro atual ou ex. Esse é o principal cenário dos feminicídios registrados no Brasil, conforme pesquisa com dados de 2025 divulgada na quarta-feira (04) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. No ano passado, foram contabilizadas 1.568 feminicídios, aumento de 4,7% em relação ao período anterior.
O registro de 5.729 casos entre 2021 e 2024 mostra que 62,6% das vítimas eram negras (3.587 mulheres), enquanto 36,8% eram brancas (2.107). Essa informação indica que a violência letal de gênero também está associada a desigualdades raciais e sociais. De acordo com o relatório, mulheres negras estão, em média, mais expostas a condições de vulnerabilidade socioeconômica e têm menor acesso a serviços públicos de proteção.
Os números indicam que a violência atravessa diferentes fases da vida, mas se concentra na idade adulta. Entre os casos analisados, 1.685 vítimas tinham entre 18 e 29 anos (29,4%), enquanto 2.864 mulheres estavam na faixa de 30 a 49 anos (50%). Outras 887 vítimas tinham mais de 50 anos (15,5%).
Na maioria das ocorrências, o agressor tinha relação direta com a vítima: 59,4% das mulheres foram mortas pelo parceiro íntimo e 21,3% pelo ex-parceiro. Entre os casos com autoria identificada, 97,3% foram cometidos por homens. Apenas 4,9% dos casos foram cometidos por desconhecidos. Em relação ao instrumento utilizado, 2.790 feminicídios ocorreram com arma branca (48,7%), como faca ou machado. Outros 1.443 casos envolveram arma de fogo (25,2%).
A diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, explica que o feminicídio muitas vezes ocorre com objetos disponíveis em casa. “Muitas vezes é uma faca de cozinha, um machado ou um objeto que já está dentro da residência”, afirma. Esse padrão, segundo ela, reforça o caráter doméstico da violência. “O feminicídio é um crime de proximidade. Ele acontece no contexto das relações íntimas e dentro do ambiente doméstico, onde esses instrumentos estão facilmente disponíveis”.
A residência aparece como o principal cenário dos crimes. 3.797 feminicídios ocorreram dentro de casa (66,3%), enquanto 1.099 aconteceram em vias públicas (19,2%).
Desde a tipificação do feminicídio na legislação brasileira, em 2015, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas no país por razões relacionadas ao gênero, conforme dados do Fórum. Parte do crescimento das notificações observado no período é atribuído a uma melhora na qualidade do registro.
A defensora pública e pesquisadora em violência de gênero, Rosana Leite Antunes de Barros, destaca que os dados mostram os desafios da sociedade, principalmente, em dar crédito à mulher. “Por muito tempo as mulheres foram desacreditadas em suas vivências, inclusive, com o apagamento na história. As estatísticas, diga-se de passagem, com subnotificações, estão a externar o quanto as mulheres precisam se creditadas em suas palavras, vidas e vivências”.
Ela pontua que a gravidade da situação somente tem peso quando há evidências em vídeos. “Eles já foram externados mostrando inúmeros crimes cometidos contra mulheres em vários lugares, até em elevadores, hospitais, ruas. Mas, não precisamos de vídeos e áudios. Quando uma mulher afirmar estar sendo vítima, o que ela precisa é de proteção efetiva”.
Fonte: Folhapress com edição da ADUA
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
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