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Teve início no dia 6 de janeiro uma série especial do ANDES-SN sobre desigualdades de carreira docente, território e condições estruturais. O material explora as diversas realidades do trabalho de professoras(es) nas instituições públicas de ensino do país.
Por meio do perfil de quatro docentes, a série apresenta o contexto das regiões para evidenciar como o isolamento geográfico, as disparidades entre carreiras e os cortes orçamentários impactam o ensino, a pesquisa e a extensão. E o primeiro deles é do Solano Guerreiro, sindicalizado à ADUA, integrante do Conselho de Representantes das Unidades (Crad) e professor do Instituto de Natureza e Cultura da Universidade Federal do Amazonas (INC/Ufam).
O especial trará ainda relatos de docentes do Instituto Federal do Paraná (IFPR), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS). A série também mostrará como a precarização das condições de trabalho afeta não apenas à docência, mas a organização sindical e a própria vida das trabalhadoras e dos trabalhadores que atuam nas nessas instituições.
Fronteira amazônica
Há mais de 17 anos em Benjamin Constant (AM), Solano Guerreiro leciona no INC/Ufam. O município está localizado na fronteira com o Peru, a cerca de 1.300 quilômetros de Manaus, percorridos pelos rios do Amazonas.
A saída aérea da cidade depende de Tabatinga, município vizinho situado na região da Tríplice Fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Ao descrever a dinâmica de deslocamento e abastecimento na região, Solano destacou as limitações impostas pela ausência de rodovias.

“Um barco saindo de Manaus, levando suprimentos para a região, leva em média de seis a sete dias para chegar ao município de Benjamin Constant. Quem abastece os municípios são os barcos; não há abastecimento aéreo, e pelas rodovias não é possível, porque não existem rodovias interligando a maioria desses municípios. A ligação se dá por hidrovias, pelos rios”, relatou.
O docente chamou atenção para o impacto dessa realidade no custo de vida da população. “Na época da vazante, que é como chamamos a seca na região, quando o rio baixa bastante, uma botija de gás que antes custava 120 ou 130 reais pode chegar a 200 ou 250 reais. Um garrafão de água já chegou a 30 reais. Então, os custos ficam elevadíssimos, quase dobram, e o salário da população continua o mesmo. Já é difícil se manter normalmente; nesse período, fica ainda mais”, completou.
Solano Guerreiro explicou que a limitação orçamentária e o alto custo das passagens — que podem superar R$ 5 mil por trecho — afetam não apenas o cotidiano, mas também a participação docente em eventos acadêmicos, como bancas, projetos e parcerias, o que compromete a integração institucional e limita a visibilidade das pesquisas desenvolvidas na região, além da atuação sindical.
Diante desses entraves, a participação remota passou a ser utilizada como alternativa, ampliada após a pandemia da Covid-19. Segundo o professor, no entanto, esse recurso não supera os entraves estruturais impostos pelo isolamento geográfico e pela falta de financiamento.
Apesar das dificuldades, Solano afirmou que a permanência no município é uma escolha consciente. “Já tive outras possibilidades de ir para a capital, mas, por escolha minha, optei por permanecer em Benjamin Constant, que é uma cidade tranquila e boa de se morar, apesar das muitas dificuldades que os interiores do Amazonas têm — diferentes dos interiores de outros estados. Isso porque, em Benjamin Constant e em mais de 90% dos municípios, tudo é feito por via fluvial; a gente não pensa em horas, pensa em dias”, contou. O docente destacou ainda o papel estratégico da universidade em uma região de fronteira, onde ensino, pesquisa e extensão têm impacto direto nas comunidades locais.
Para Guerreiro, os cortes orçamentários nas instituições de ensino impactam diretamente o cotidiano do trabalho docente. “As nossas condições de trabalho são bastante desafiadoras por causa dos recursos minguados e das inúmeras atividades que precisamos realizar com pouco recurso. Fazemos um esforço enorme para manter o ensino, a pesquisa e a extensão — e agora também a parte administrativa. Estão jogando cada vez mais para os docentes a responsabilidade pela administração das instituições de ensino superior, em razão da redução do número de técnicos, justamente pelos cortes que as instituições vêm sofrendo. Então, é realmente muito desafiador trabalhar nessas condições”, disse.
A experiência de Solano Guerreiro, na fronteira amazônica, não é um caso isolado. Ela dialoga com a realidade de docentes de diferentes regiões do país, que enfrentam desigualdades históricas de condições de trabalho, assimetrias de carreira, cortes orçamentários e sobrecarga de funções.
Para o ANDES-SN, enfrentar essas desigualdades passa pela defesa de uma carreira única, de condições dignas de trabalho e do financiamento público adequado, elementos centrais para garantir ensino, pesquisa e extensão de qualidade e socialmente referenciados.
* Os demais perfis serão publicados nas próximas semanas no site do Sindicato Nacional.
Fonte: ANDES-SN com edição da ADUA
Fotos: Doverno Federal e Daisy Melo/Ascom ADUA
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