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  01/04/2025


“A multicampia não é o problema, mas a solução”, afirmam docentes em II Seminário de Multicampia e Fronteira do ANDES-SN



 

Sue Anne Cursino

 

De 13 a 15 de março, o II Seminário de Multicampia e Fronteira do ANDES-SN integrou sabores, saberes e vivências. A atividade foi realizada em Boa Vista (RR) e reuniu cerca de 70 docentes de diferentes estados do país para compartilhar experiências e debater os desafios e possibilidades da educação em regiões fronteiriças e/ou áreas distantes da capital e de difícil acesso.

 

Organizado pelo Grupo de Trabalho de Multicampia e Fronteira (GT Multi-Front) em parceria com a Seção Sindical dos Docentes da Universidade Federal de Roraima (Sesduf-RR), o seminário proporcionou um mosaico de experiências e reflexões acumuladas sobre o tema, apontando para a construção do modelo de universidade almejada pela categoria docente.

 

Nos primeiros dias, os três campi da UFRR foram os cenários para o diálogo sobre a expansão das Instituições de Ensino Superior (IES). Já no terceiro dia da programação, as vidas dos(as) participantes foram marcadas por uma visita à Comunidade Indígena Raposa I, localizada na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, onde vivem cerca de 27 mil indígenas dos povos Macuxi, Wapichana, Taurepang, Patamona e Ingarikó.

 

Em preparação para as experiências que seriam vividas no local, Joana Macuxi (61) realizou o ritual de defumação. “Quando a fumaça entra é uma limpeza. Todos os propósitos aqui são de cura”, explicou Enoque Raposo, coordenador de turismo da comunidade.

 

De mãos dadas, o grupo dançou sob o som do canto parixara, uma canção de boas-vindas e agradecimento. “Muitas vezes não conhecemos as pessoas, nem seus pensamentos. A defumação e o canto deixam de fora as coisas ruins para que todos possam viver melhor”, acrescentou Enoque.

 

Foi um dia de imersão na cultura indígena, que incluiu oficinas de trança de palha de buriti, pintura com jenipapo, produção de panelas de barro, uso do rapé, confecção de artesanatos com palhas e sementes e de arcos e flechas. A culinária local também foi um destaque: docentes aprenderam a preparar a damurida, prato típico feito com pimenta, tucupi e peixe, que foi servido no almoço acompanhado de sucos de frutas regionais, como jenipapo, murici e caju, além de bebidas como pajuaru e caxiri. 

 

Numa analogia às calhas dos rios do Amazonas, pode-se dizer que a ADUA esteve plenamente representada, carregando experiências moldadas nos diversos territórios onde se encontram quatro dos seis campi da Ufam. Do Baixo Amazonas vieram Gladson Rosas, Patrício Ribeiro e Maria Audirene Cordeiro, docentes do ICSEZ/Parintins; da calha do Madeira, onde está localizado o IEAA/Humaitá, no sul do estado, veio o professor Jordeanes Araújo; da calha dos rios Negro e Solimões, participaram Ana Lúcia Gomes (ICB), Karime Bentes (ICE), Maria Rosaria do Carmo (ICE), Francisco Jacob Paiva (Faced), Raimundo Nonato da Silva (IFCHS) e Marcelo Vallina (IFCHS), docentes de Manaus. Já do Alto Solimões, da tríplice fronteira Brasil-Peru-Colômbia, participaram Solano Guerreiro, Célia Maia e Gilvânia Braule, que atuam no INC/Benjamin Constant. Um total de 13 docentes que carregam uma fonte de experiências e possibilidades a serem compartilhadas.

 

Delegação da ADUA foi composta por docentes de quatro campi da Ufam  - Foto: Sue Anne Cursino (Ascom ADUA)

 

Para o professor Jordeanes Araújo, as atividades possibilitaram conhecer e se aproximar de diferentes culturas, ressaltando que, enquanto categoria docente sindicalizada e presente na multicampia, é essencial aprofundar cada vez mais a compreensão sobre os desafios enfrentados a partir das diferentes perspectivas, a fim de transformar a realidade evidenciada pelas reflexões. “Fiquei lembrando das dificuldades enfrentadas pelos estudantes indígenas em nossos campi, como os desafios de locomoção e a ausência de um acolhimento diferenciado por parte da gestão administrativa, que não está preparada para lidar com diferentes perspectivas culturais dentro do ambiente universitário. De Boa Vista até a Terra Indígena, percorremos 300 km. Na minha unidade de trabalho, IEAA, os indígenas da região enfrentam as mesmas dificuldades de deslocamento, além de problemas sociais e econômicos que impactam sua permanência na universidade”, afirmou.

 

A visita ocorreu após dois dias de intenso diálogo iniciado na tarde de 13 de março, na abertura do encontro, ocorrida no Colégio de Aplicação da UFRR, no campus Paricarana, onde estiveram representantes de entidades sindicais, institucionais e movimentos sociais, que reafirmaram a defesa de um ensino público que atenda às necessidades dos diferentes campi.

 

Docentes participaram de oficina de produção de panelas de barro  - Foto: Sue Anne Cursino (Ascom ADUA)

 

Entre os(as) participantes estiveram Ana Lúcia Gomes, 1ª vice-presidente da Regional Norte 1; Francisco Rafael Leidens, presidente do Sindicato dos Docentes da Universidade Estadual de Roraima (Sinduerr SSind.); Jennifer Webb, 1ª tesoureira do ANDES-SN; Antônio Carlos Araújo, presidente da Sesduf-RR SSind.; Laura Beatriz Secundino, presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFRR; Maria de Nazaré Nunes, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); e Ornildo Roberto de Souza, presidente do Sinasefe.

 

Os(as) convidados(as) da mesa de abertura compartilharam aspectos centrais, como a defesa da educação pública. Também enfatizaram a unidade entre sindicatos, estudantes e movimentos sociais para fortalecer a defesa de políticas públicas que garantam melhores condições de ensino, aprendizagem e trabalho na educação.

 

Percurso histórico

 

Na tarde do 13 de março, foi abordado o tema “Histórico dos debates sobre multicampia e fronteira no ANDES-SN”, a partir de exposição feita pelo 2º secretário do ANDES-SN e coordenador do Setor das Instituições Estaduais, Municipais e Distritais de Ensino Superior (Iees, Imes e Ides), Alexandre Galvão, e pela professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Andreia Moassab.

 

Galvão levantou reflexão sobre como ocorreu a expansão de IES em múltiplos campi, destacando que, embora represente crescimento, traz desafios como a fragmentação geográfica e organizacional, com dificuldades na mobilização sindical e na participação democrática, além da precarização das condições de trabalho. Entre os principais problemas apontados, mencionou a ausência de políticas de fixação de docentes no interior e a falta de autonomia administrativa e didático-pedagógica.  “Quando falamos de multicampia e fronteira, estamos falando de um projeto de universidade, de cidadania e de políticas educacionais”.

 

O tema da multicampia, segundo Galvão, tem sido central nos debates do ANDES-SN desde o 16º Congresso, em 1997. Neste percurso, ele aponta que a expansão das universidades estaduais foi essencial para democratizar o ensino superior. O docente pontua ainda que a partir de 2013 foram aprofundadas as discussões sobre multicampia e organização sindical, tendo em 2016, no 35º Congresso do ANDES-SN, um outro marco, que foi a consolidação de diretrizes para garantir condições adequadas à expansão e interiorização das universidades, incluindo pontos como necessidade de financiamento, concursos públicos, políticas de moradia e transporte para docentes e estudantes. Já a partir de 2019, passou-se a abordar as questões relacionadas às universidades em regiões de fronteira, incluindo consequentemente, devido a construção da conjuntura, os debates sobre os impactos da pandemia da Covid-19 e o uso de tecnologias.  “A multicampia é uma realidade complexa, mas há soluções organizativas flexíveis previstas no estatuto do ANDES-SN. A precarização do trabalho docente continua sendo um desafio central, e a participação democrática e a autonomia sindical são fundamentais para fortalecer a nossa base sindical”.

 

Na sequência, a professora Andreia Moassab trouxe o olhar de atuação na Unila, situada em Foz do Iguaçu (PR), um território de relações fronteiriças com Paraguai e Argentina. Ela pontuou uma série de entraves burocráticos quando são propostas atividades acadêmicas nos países vizinhos, como falta de flexibilização das portarias para viagens, transporte de equipamentos, seguro para atividades, reconhecimento do bilinguismo, adicional de fronteira e revisão dos decretos sobre afastamentos ao exterior.

 

No dia 13 de março foi realizada manifestação por justiça para Marielle Franco, assassinada há 7 anos  - Foto: Eline Luz/ Ascom ANDES-SN

 

Luta política e judicial

 

Realizada na noite de 13 de março, a mesa de debate sobre “Aspectos histórico-legais sobre as questões de multicampia e fronteira relacionadas às professoras e aos professores do ensino federal no Brasil”, foi conduzida pelo 1º vice-presidente da Regional Pantanal do ANDES-SN, Breno Santos e pelo representante da Assessoria Jurídica da Sesduf-RR SSind., Vicente Poerschke.

 

Em síntese, foi explicado que, embora o adicional por atividades penosas esteja previsto na legislação, sua implementação depende de um ato normativo do Executivo. “Precisamos continuar construindo estratégias para que o adicional de fronteira e de penosidade seja garantido, sem que a falta de regulamentação continue prejudicando os docentes que atuam em condições mais adversas”, afirmou Breno Santos.

 

Sem rodeios, o advogado Vicente Poerschke esclareceu que, atualmente, requerimentos para a concessão do adicional de fronteira tendem a ser negados tanto na esfera administrativa quanto judicial. Ele relatou que, desde 2011, a Sesduf-RR tenta obter o benefício, mas enfrenta decisões judiciais contrárias. “Essa situação demonstra que a questão do adicional de fronteira já está pacificada de forma desfavorável à categoria”, concluiu.

 

Rede Unifronteiras

 

No segundo dia, 14 de março, a programação ocorreu em dois campi. Um deles foi o Centro de Ciências Agrárias (CCA), no campus Cauamé da UFRR, onde a mesa teve como tema “Análise das propostas da Rede Unifronteiras e relação com a política sindical e debate”.

 

A secretária-geral do ANDES-SN e docente da Unila, Fran Rebelatto, apresentou um documento lançado em 2024 pela Rede de Universidades de Fronteira (Unifronteiras), que sintetiza demandas identificadas pelas instituições federais que formam essa rede, com o objetivo de desenvolver políticas públicas para as regiões de fronteira, considerando interculturalidade, plurilinguismo e integração regional.

 

Resultado de parceria entre a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) e o Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif), a Unifronteiras agrupa 14 instituições localizadas nas regiões limítrofes e que encontram uma série de entraves para explorar as possibilidades de parcerias com outras instituições dos países vizinhos.

 

A mesa deliberou pela análise das propostas da Unifronteiras e sua articulação com a pauta trabalhista da categoria docente.

 

Caminhos compartilhados

 

Antes do momento destinado para que as e os docentes falassem sobre suas vivências em contextos da multicampia e do ensino superior em regiões de fronteira, foi exibido o documentário “A Multicampia nas Universidades Amazônicas”, produzido pela ADUA e pela Regional Norte 1 do ANDES-SN, sob a direção do professor Tomzé Costa (FIC). O vídeo busca fomentar a reflexão sobre o tema, reunindo relatos de docentes sobre dificuldades enfrentadas pelas universidades públicas da região ao expandirem suas atividades para campi fora das capitais.

 

A maioria das intervenções das(os) participantes do seminário destacou as precárias condições de vida e trabalho, a urgência de investimentos no orçamento das IES, a necessidade de políticas públicas e valorização da carreira docente.

 

Entre os principais problemas citados estavam a ausência de laboratórios, a falta de salas adequadas e recursos para pesquisa, além das dificuldades na fixação de docentes. Também foi mencionada a precariedade no acesso à saúde, como no Amazonas, onde não há hospitais de média e alta complexidade fora da capital e dificuldade de acesso à internet de qualidade. Além disso, a concorrência com o ensino privado e a educação a distância (EAD) também foi apontado como fator de esvaziamento das universidades públicas em algumas regiões.

 

A docente Karime Bentes ressaltou a necessidade de discutir a situação dos(as) estudantes estrangeiros(as) que ingressam via Programa Milton Santos de Acesso ao Ensino Superior (Promisaes). “O valor da bolsa é baixo e impede que esses estudantes tenham qualquer tipo de renda, trabalho, bolsa de iniciação científica, extensão, monitoria ou até mesmo acesso aos auxílios da assistência estudantil. As universidades precisam receber orçamento proporcional ao número de estudantes em vulnerabilidade. Hoje, a maior parte do orçamento é destinada à alimentação nos restaurantes universitários, restando poucos recursos para outras necessidades para quem é de baixa renda”, afirmou.

 

O professor Jordeanes Araújo destacou a importância da abordagem sobre a precarização do trabalho docente. “As mesas de debate trouxeram questões essenciais sobre infraestrutura, precarização do trabalho docente, falta de laboratórios, salas de trabalho e recursos para pesquisa. Tudo isso gera adoecimento e desestimula a fixação de docentes no interior. Assim as mesas de conseguiram revelar questões fundamentais para pensarmos o tipo de universidade que queremos”, explicou.

 

O professor Patrício Ribeiro reforçou a importância da multicampia na transformação de vidas, especialmente para estudantes indígenas, rurais e de municípios afastados, que encontram no ensino superior uma oportunidade única. Compartilhando sua própria trajetória como ex-aluno e, posteriormente, docente da Ufam, ele destacou a relevância da diversidade étnica e regional dos(as) estudantes. “Foram levantados vários problemas, mas a multicampia não é um deles. Pelo contrário, ela é a solução para muitas vidas. Eu mesmo fui aluno do campus da Ufam em Parintins e hoje sou docente. O ensino superior transforma vidas, tanto dos estudantes quanto de suas famílias. Por isso, ao discutirmos os desafios da multicampia, devemos também enfatizar sua importância onde quer que esteja presente”.

 

 Célia Maia compartilhou vivências do campus de multifronteiras INC/Ufam  - Foto: Sue Anne Cursino (Ascom  ADUA)

 

Outro ponto relevante foi a necessidade de adaptar os modelos institucionais às realidades locais, incluindo avaliações diferenciadas pelo Ministério da Educação (MEC). Foi enfatizado que, historicamente, a implantação de unidades multicampi nem sempre contou com a participação da comunidade local, sendo muitas vezes impulsionada por interesses políticos. Essa falta de diálogo resultou na oferta de cursos que nem sempre atendem às demandas regionais. Na Amazônia, por exemplo, populações indígenas e comunidades tradicionais enfrentam desafios específicos, que exigem abordagens diferenciadas na estruturação dos cursos.

 

Reflexões e lutas coletivas

 

A professora Célia Maia expressou sua gratidão por participar da atividade, relembrando seu envolvimento na criação do Grupo de Trabalho (GT) sobre o tema. Sua trajetória começou no 42º Congresso do ANDES-SN, em 2024, quando, mesmo inexperiente, levou à plenária a realidade de viver e trabalhar em Benjamin Constant, na fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia. “Hoje, vejo avanços nessa discussão, com a criação do GT e a realização do II Seminário. Já reunimos um acúmulo valioso de informações, mas nosso país é imenso, e ainda há muito a ser debatido.”

 

Para a professora Gilvânia Plácido, realizar essa atividade em um espaço de fronteiras geopolíticas, culturais e étnicas amazônicas foi um convite à reflexão. “Percebemos realidades semelhantes em diversos campi, considerando os aspectos socioeconômicos, políticos, culturais e ambientais, além das condições de trabalho e de vida. Como classe trabalhadora, convergimos em ideias e experiências, unindo-nos na atuação profissional e política pela sociedade brasileira. Esse alinhamento é o primeiro passo para conquistas da Amazônia aos Pampas.”

 

Para o professor Gladson Rosas, o seminário trouxe um novo fôlego para as lutas. “Buscamos estreitar os laços entre a sede, os campi do interior e outras seções sindicais. Isso demonstra a consolidação de forças para as batalhas que virão na defesa da universidade pública, socialmente referenciada”.

 

Esse engajamento reflete no fortalecimento do espaço de luta e construção coletiva, impulsionados pelo trabalho dos GTs e pelas discussões aprofundadas sobre a docência. “Além de possibilitar esse intercâmbio de experiências, essas atividades têm fortalecido o sentimento de pertencimento e criado espaços para que docentes expressem suas demandas”, disse Ana Lúcia Gomes, enfatizando que a multicampia é uma realidade que precisa ser gerida com responsabilidade pelas reitorias, pois sem essas unidades, muitas pessoas jamais teriam acesso ao ensino superior. 

 

Resistência diante dos desafios

 

A jornada de parte da delegação da ADUA pela BR-174, no trajeto Manaus-Boa Vista, foi marcada por canções que transitavam pela MPB, carimbó e toadas de Boi-Bumbá, além de provocações amistosas, simbolizadas por uma bandeira vermelha que desafiava os torcedores do boi azulado. O ânimo se manteve firme, especialmente durante a contemplação das árvores, rios e imponentes paredões de terra, cujas formações foram explicadas pela professora Rosária do Carmo, que abordou tempos geológicos, bacias sedimentares e os diferentes tipos de vegetação que compõem as paisagens da região.

 

 Docentes enfrentaram desafios no deslocamento para Roraima  - Foto: Sue Anne Cursino/Ascom ADUA 

 

Mas, como parte das histórias do seminário, os desafios da multicampia também renderam a foto acima, na qual alguns docentes empurram a vam que estavam viajando, após uma pane no veículo que atrasou o percurso até Roraima e gerou uma história de união e perseverança a ser compartilhada no seminário.

 

Propostas para fortalecer a Multicampia

 

Como resultado das discussões, foram sistematizadas 21 propostas para fortalecer a luta sindical. Esses encaminhamentos servem de base para que as seções sindicais do ANDES-SN, incluindo a ADUA, elaborem Textos de Resolução (TR) e incorporem pautas das atividades de reflexão e ação do GT Multi-Front. O objetivo é contribuir para a construção da universidade desejada pela categoria docente e encaminhar essas proposições aos espaços deliberativos do Sindicato Nacional, com destaque para o 68º Conad, que ocorrerá em julho deste ano, em Manaus.

 

A seguir, confira a síntese dos encaminhamentos do II Seminário de Multicampia e Fronteira do ANDES-SN:

 

1. Sistematizar os dados do levantamento sobre multicampia e fronteira e produzir materiais para dar continuidade à luta.

2. Levantar dados sobre universidades e institutos federais que recebiam indenização de fronteira e perderam esse direito.

3. Coletar informações sobre o custo de vida em diferentes regiões de fronteira.

4. Articular-se com a Rede Unifronteiras a partir das pautas trabalhistas da categoria docente.

5. Estabelecer diálogo com parlamentares para avançar na regulamentação dos adicionais de penosidade (fronteira, difícil fixação etc.).

6. Reivindicar que o ANDES-SN inclua a regulamentação do adicional de penosidade nas mesas de negociação nacional e setorial.

7. Solicitar às ouvidorias dados sobre vacância, remoção e redistribuições.

8. Mapear propostas legislativas sobre adicionais, por meio da assessoria parlamentar.

9. Entregar aos parlamentares o relatório da UFMT sobre multicampia e fronteira.

10. Construir um projeto comum de multicampia.

11. Produzir uma cartilha/caderno especial e materiais audiovisuais sobre a realidade da multicampia, fronteira e precarização.

12. Aprofundar o debate sobre a evasão nos cursos dos campi fora da sede e o modelo de expansão baseado no Reuni.

13. Ampliar o diálogo com o Sinasefe e a Fasubra sobre a precarização nas realidades de multicampia e fronteira.

14. Incentivar as seções sindicais a elaborarem reivindicações para as reitorias.

15. Discutir a organização das seções sindicais na multicampia.

16. Defender critérios diferenciados de avaliação pelo MEC dos cursos situados em multicampia e fronteira.

17. Articular debates com os GTs (GTPE, GTPFS, GTO e GTVerbas), especialmente sobre orçamento, currículo, avaliação e condições de trabalho.

18. Reforçar a presença do sindicato na multicampia, considerando a realidade de novos docentes e a atuação da Proifes.

19. Desenvolver eixo de trabalho voltado ao projeto de universidade popular; avaliar processos de desenvolvimento e expansão das IES; projetos de encontros de saberes em diferentes territórios e discutir como isso contribui para o projeto de universidade que a categoria reivindica.

20. Estudar a possibilidade de realizar um dia de paralisação com foco na abordagem da pauta: precarização da multicampia nas IES.

21. Redigir uma carta a ser enviada ao MEC, ANDIFES, CONIF e outros órgãos do governo, denunciando o corte de orçamento, as condições de trabalho e a falta de infraestrutura, entre outros pontos.

 

Desafios e resistência no ensino superior da Amazônia

 

“Sou fruto da multicampia. Há cerca de 30 anos, quando eu me formo pela Universidade Federal do Pará, o projeto de Multicampia, que começa em 1989, se espalha e serve de modelo para muitos espaços de democratização e acesso de ensino superior nesse país”. Essas foram as primeiras palavras da professora do ICSEZ/Ufam e membro do GT Multi-Front da ADUA, Audirene Cordeiro, durante a mesa Condições de trabalho, fixação e orçamento, realizada no dia 14 de março, no auditório da Escola Agrotécnica da UFRR, no campus Murupu.

 

 Maria Audirene Cordeiro compartilhou desafios e possbilidades a partir da vida docente na Amazônia - Foto: Eline Luz (ANDES-SN) 

 

Ao destacar sua trajetória, Audirene dialogava diretamente com uma plateia composta por docentes que compartilhavam reflexões sobre a expansão universitária, atravessados por diferentes perspectivas históricas e geográficas. A precarização das instituições, a dificuldade na fixação de professores(as) e as desigualdades orçamentárias foram temas centrais. Segundo a docente, essas questões se traduzem, sobretudo, nas condições de trabalho nas universidades da região Norte, onde os pontos desafiadores são, principalmente, estruturas precárias e políticas públicas desiguais. “Nenhum projeto de construção de universidade na região Norte foi pensado. A política de expansão da universidade na região foi feita ‘a puxadinho’ e ‘no laço’ com o curral eleitoral”.

 

No mapa projetado no telão a docente exibiu a expansão da Ufam, evidenciando as distâncias entre os campi de Manaus, Itacoatiara, Coari, Parintins, Humaitá e Benjamin Constant. 

 

Com voz firme, carregada de segurança e criticidades para expor as realidades de docentes, estudantes e outros trabalhadores(as) que constroem a educação em territórios longínquos no Amazonas, Audirene afirmou que a presença das universidades no interior da Amazônia é um feito de resistência, mas atravessado por obstáculos, como grandes distâncias, dificuldades para participar de eventos científicos, infraestrutura precária, dificuldade em fixação de docentes, risco de isolamento em períodos de estiagem ou cheia dos rios, além da falta de hospitais de média e alta complexidade, dentre outros. 

 

Para Audirene, a luta docente vai além de melhores salários: trata-se da construção de políticas públicas que respeitem as especificidades. “O cálculo do Dieese para o salário-mínimo brasileiro não considera as adversidades regionais. Como falar de equidade sem reconhecer essas diferenças? Como falar de linha única no contracheque?”, questionou.

 

Essa realidade impacta diretamente a permanência e a qualidade de vida de docentes e discentes. “Muitos professores do Sul e Sudeste desistem ao se deparar com essas condições. Mas há quem permaneça. E quem fica tem direito a melhores condições de trabalho e valorização salarial”.

 

 A docente reitera que, no contexto do ANDES-SN, a luta vai além de adicionais financeiros, é preciso atuar na construção de políticas específicas e cobrar do governo as melhorias nas condições de vida, além de ouvir quem vive nessas realidades: “A multicampia é uma resposta às demandas dos movimentos sociais por acesso e permanência na universidade pública e deve ser definida por quem faz parte desse complexo processo”, afirma Audirene.

 

Tomando como base a frase de Nietzsche, de que “a desigualdade dos direitos é a primeira condição para que haja direitos”, a docente encerrou sua participação sob aplausos, afirmando que educação não é apenas um direito, mas também um ato de resistência.

 

Arte e Resistência -  A poesia do mundo verde na voz de Eliakin Rufino

 

“Todo mundo nasce artista, depois vem a repressão.” A frase, tirada de uma de suas músicas, ecoa a essência do artista roraimense, Eliakin Rufino. Com uma voz inconfundível e um espírito indomável, aos 68 anos, o professor, poeta, jornalista e cantor roraimense apresentou sua arte no II Seminário de Multicampia e Fronteira, realizado em Boa Vista (RR), de 13 a 15 de março, na UFRR.

 

 Eliakin é filiado à Sesduf-RR há 18 anos - Foto: Sue Anne Cursino (Ascom ADUA) 

 

Acompanhado de acordes no violão, compartilhou sua voz e alegria, ao cantar “letras ácidas”, e uma serenidade intocável ao recitar poemas que trazem reflexões profundas sobre o meio ambiente, a sociedade e a política, como “Cidade do Campo”, “Cavalo Selvagem” e “O Sonho do Xamã”.

 

Já aposentado, Eliakin ostenta o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Roraima (UERR), além de uma vasta produção musical, cinco álbuns e onze livros publicados. Esses são frutos de quem nunca abandonou a arte, semeada na adolescência, quando ganhou de sua mãe dois presentes: um violão e uma máquina de escrever.

 

Entre as muitas histórias que o cercam, um fato curioso se destaca: antes de se graduar em Filosofia pela Ufam, na turma de 1984, Eliakin precisou abandonar o curso de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás em 1975, no mesmo ano em que o jornalista Vladimir Herzog foi morto pela Ditadura Empresarial-Militar.  Em meio a essas reviravoltas, se autoexilou na Venezuela de 1978 a 1979.

 

De peito aberto cantou exaltando suas raízes: “Quem é filho do Norte/É neto do Nordeste/ Sou farinha de caboclo/ Eu sou cabra da peste”.

 

 

Eliakin também frisou, a partir de seu poema “Cidade do Campo” que, no Monte Roraima, habita o verdadeiro Makunaima, entidade sagrada para os povos indígenas Pemon, Taurepang, Wapichana e Macuxi.

 

Ao final da apresentação, dobrou o punho direito da camisa social, revelando, tatuada no braço, a palavra que nenhuma repressão conseguiu arrancar dele: poesia. Com um último dedilhar no violão, a plateia, em coro, cantava junto e o aplaudia. Acesse as obras no site do autor. 

 

 

 



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