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Crescimento de “onda” fascista preocupa professores da Ufam
Data: 11/10/18

O resultado do 1º turno das eleições para presidente do Brasil, quando mais de 117 milhões de eleitores foram às urnas no domingo (7), colocou no 2º turno os candidatos que lideravam as pesquisas: Jair Bolsonaro (PSL), com 49,2 milhões de votos (46,03% do total de válidos), e Fernando Haddad, com 31,3 milhões (29,28%). Mas, mais do que uma disputa de programas políticos, o pleito tem chamado a atenção pela crescente onda de intolerância, provocada por discursos de ódio contra as minorias, partidos e a tudo que se apresenta como diverso do padrão social e culturalmente constituído.

Marcado por uma polarização acentuada, boataria, desrespeito à dignidade humana e com registro de uma série casos de violência com motivação política pelo país afora, o pleito tem revelado uma forte ameaça fascista. Essa “onda”, que já vem invadindo o espaço acadêmico nos últimos tempos, levando inclusive a criação de uma comissão especial para tratar sobre o tema, tem ganhado ainda mais intensidade. As universidades públicas – tidas como espaços libertários e abrigo da diversidade de saberes e da pluralidade de ideias – tornaram-se uma arena.

Um dos últimos casos foi registrado, na terça-feira (9), na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Um estudante, que usava um boné com a marca do Movimento dos Sem Terra (MST), foi atacado por um grupo de homens aos gritos de “aqui é Bolsonaro”. Cerca de 15 pessoas vestidas com a camisa da torcida da Império, do clube Coritiba, atacaram o jovem. “De repente, o rapaz de vermelho levou um soco e quando isso aconteceu todo mundo da torcida começou a quebrar garrafas e ir para cima do cara. Uma covardia”, disse uma estudante a um jornal local. Na ação, vidros da Biblioteca Central da Reitoria foram quebrados.

Uma semana, três casos

A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) também entrou nesta estatística negativa. Em menos de uma semana, três casos de violência dentro da instituição já fazem disparar o alerta pela necessidade de combater essa prática. Primeiro foi um professor da Faculdade de Letras (FLet), atacado enquanto abordava o fascismo em uma disciplina do curso de Língua Espanhola. Um de seus alunos atirou uma mesa contra o docente, e, apesar de ter sido contido pela turma, ainda tentou continuar as agressões. Na ocasião, a ADUA-SS emitiu uma nota de repúdio.

“Tu é ‘Ele não’?”, perguntou um rapaz, que não foi identificado, antes de agredir uma estudante enquanto ela esperava o transporte público na entrada do campus universitário da Ufam, dois dias após a agressão sofrida pelo docente. O caso veio a público após os pais da graduanda publicarem um desabafo nas redes sociais, posteriormente divulgado por blogs e portais locais, em que contaram que o agressor feriu a perna da estudante com graveto e lamentaram os rumos que o país está tomando.

Quatro dias depois, um professor do Instituto de Filosofia, Humanas e Ciências Sociais (IFCHS) foi agredido. “Insatisfação, insegurança e medo tornaram-se sentimentos comuns na vida universitária. Nesse ambiente começam a surgir grupos de indivíduos que dão vazão a suas angústias por meio da violência. Assim é que a agressão física e verbal a estudantes, professores e professoras vem crescendo dentro das universidades”, diz trecho da nota publicada pela ADUA-SS.

O 1º vice-presidente da ADUA-SS, Luiz Fernando Souza, afirma que o fascismo é manifestação ligada com a materialidade das contradições de classes da sociedade capitalista. No plano intelectual, o pensamento burguês é, do ponto de vista da classe que vive do trabalho, reacionário. Porém, o fascismo é a expressão do reacionarismo pela via da irracionalidade, segundo o docente.

“No caso brasileiro, o fascismo bebe na fonte de uma formação nacional excludente, assentada numa negação das regiões economicamente periféricas e no medo-pânico dos subalternos (indígenas, negros, mulheres, juventude, trabalhadores etc.). Na conjuntura atual, esta condição da materialidade da formação da nação num contexto de crise econômica e política, explode na forma de ódio (xenofobia, misoginia, LGBTfobia, racismo, intolerância política). Para não mergulharmos no poço sem fundo da barbárie, é preciso enfrentar as forças reacionárias-fascistas e, ao mesmo tempo, enfrentar a questão nacional – sem descuidar do seu nexo com o movimento global do capital – nos termos como até aqui ela foi constituída”, afirma.

A historiadora e professora da Ufam, Patrícia Melo, analisou que estamos diante de um cenário muito complexo de desinformação, que se soma perigosamente a um antipetismo difuso de muitas origens e um bombardeio sistemático de discussão e ódio. “O fenômeno do fascismo é algo tão assustador porque vai de encontro a algo que é primário: ele ativa o desejo da projeção em função de um medo irracional, que está posto e acionado por alguém. É muito impactante saber que de cada cinco pessoas, duas, três apoiam esse tipo de pensamento. É preciso restabelecer o bom-senso”, afirma a docente, que também recebeu ameaças após assinar e divulgar uma carta, juntamente com outros historiadores do Amazonas, em defesa da democracia.

Em seu perfil no Facebook, o cientista social e professor da Ufam, Marcelo Seráfico, alerta que a promoção da violência atinge a todos, inclusive àqueles que não se percebem como vítimas dela. “Espero que a maioria das pessoas entenda que estão em jogo no Brasil duas visões de sociedade que levam a modos de agir muito distintos: o neo-fascismo, que admite o extermínio da diferença como modo de resolver conflitos, e o democrata-liberal, que aposta em instituições mediadoras. Precisamos da democratização da cultura, da política, da economia. Não de impor bloqueios a ela”, escreveu.

O sociólogo explica que o ressentimento de muitos eleitores – filtrado pela perspectiva política e econômica de Bolsonaro, ex-capitão do Exército, de seu vice, o general reformado Hamilton Mourão e do economista neoliberal Paulo Guedes – chocou o neo-fascismo e essa mistura “sinistra”, segundo Seráfico, do uso sistemático da mentira como método publicitário de fazer política e das tecnologias eletrônicas como meio de fazê-las consumidas pelas massas.

Assembleias

Em reunião conjunta dos Setores das Instituições Federais de Ensino (Ifes) e Estaduais e Municipais de Ensino (Iees/Imes), na sede do ANDES-SN, em Brasília, nesta terça-feira (9), representantes de 25 seções sindicais do Sindicato Nacional, incluindo o 1º vice-presidente da ADUA-SS, Luiz Fernando Souza, debateram a conjuntura eleitoral do país e ressaltaram que a crise não é apenas política, mas social, cultural e econômica.

Um dos encaminhamentos do encontro foi a realização de assembleias de base, plenárias, debates e outras atividades para refletir sobre a atual conjuntura. A partir disso, a ADUA-SS irá promover uma rodada de Assembleias, na próxima segunda-feira (15) e terça-feira (16), para discutir o ataque a docentes na Ufam. A pauta da instância deliberativa inclui também a análise de conjuntura e a criação de uma Frente Antifascismo. 

No Instituto de Educação, Agricultura e Meio Ambiente (IEAA), em Humaitá, a Assembleia Descentralizada irá ocorrer no dia 15, às 19h, no auditório Açaí, na sede do instituto.  Em Manaus, a Assembleia Geral será realizada no dia 16, às 16h, no auditório da seção sindical. Já no Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia (ICSEZ), em Parintins, a Assembleia Descentralizada será realizada, às 9h, na sala de reuniões do instituto. 

Foto: Giovanna Costanti

Fonte: ADUA
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