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Podem morrer as pessoas, jamais as suas ideias
Por Lino João de Oliveira Neves

Data: 05/01/2017

Outubro de 1967, a notícia da morte de Ernesto Rafael Guevara de la Serna, o “Che Guevara”, colocou Vallegrande, pequena cidade esquecida no coração da Bolívia, nas primeiras páginas dos jornais de todo o mundo.

Passados 50 anos já não restam dúvidas: falar em “morte” de Che Guevara é não apenas uma imprecisão histórica, mas uma manipulação grosseira dos acontecimentos. Testemunhas ainda hoje vivas contam que não apenas Che, mas também Simón Cuba “Willy” e Juan Pablo Chang “Chino” foram capturados vivos por agentes da CIA e militares bolivianos. Che de fato estava ferido, com “um balaço na perna”, como relatam aqueles que preservam a lembrança dos guerrilheiros heróis chegando à escolinha de La Higuera, onde ficaram presos no dia 8 de outubro de 1967 e assassinados no dia seguinte.

Che, Willy e Chino não morreram em combate, como pretende uma falsa história envergonhada de sua vilania. Che, Willy e Chino foram assassinados, sumariamente executados. Che foi morto com tiro à queima roupa quando estava sendo interrogado na Escuelita de la Higuera.

Nove de outubro de 1967. Um militar boliviano foi quem apertou o gatilho do rifle que disparou o tiro fatal. Mas quem matou Che não foi esse militar, cujo nome, merecidamente, jaz esquecido no lixo infame da história; foi a truculência colonial que aniquila os sonhos de liberdade dos povos.

Nove de outubro de 1967, o dia em que a intolerância pensou que havia matado a liberdade na América Latina. Enganaram-se. Enganam-se todos que assim pensam. A liberdade é muito mais determinada que qualquer arbítrio, que toda imposição.

Che não morreu. Aliás, Che, Willy, Chino e outros três guerrilheiros: Manuel Hernández Osorio “Miguel”, Roberto Peredo Leigue “Coco” e Mario Gutiérrez Ardaya “Julio”, – a Vanguarda da Revolução, como lhes chamava Che, – tombados em 26 de setembro de 1967, não estão mortos.

Como o próprio Che animava os seus companheiros nos momentos difíceis de enfrentamento: “Podrán morir las personas, pero jamás sus ideas”, consigna ainda hoje inscrita em letras vivas em parede de La Higuera.

“Hermanos tuvimos pocos. Hoy somos millones...”; “El revolucionario verdadero está guiado por grandes sentimentos de amor. Es imposible pensar en un revolucionario autentico sin esta cualidad”; “Si el presente es de lucha, el futuro es nuestro”; “Morir antes que esclavos vivir”. As paredes da pequenina La Higuera cultuam a determinação revolucionária de Che.

Cinquenta anos depois, nos primeiros dias do último mês de outubro, as celebrações promovidas pela municipalidade de Vallegrande e seu distrito La Higuera para lembrar o trágico fim de Che foram ignoradas pelos meios de comunicação, enquanto tímidas celebrações ecoavam em várias partes do mundo o ideal de liberdade de Che e seus “camaradas-amigos”.

Ignorado por muitos, cultuado por outros tantos, o ideal de Che e seus combatentes continua presente na lembrança do povo latino-americano e de muitos povos que pelo mundo a fora lutam por se livrar da opressão; povos que não desistem do sonho da liberdade possível.

Pintado em um muro na cidade de Sucre e em outros tantos muros de vilarejos e cidades da Bolívia, o rosto inconfundível de Che com sua boina preta encimada pela estrela de luz grita em letras garrafais que o ideal de liberdade de Che e seus camaradas continua vivo, “Más presente que nunca”, não nos deixando esquecer a possibilidade de um mundo entre iguais.

“Podrán morir las personas, pero jamás sus ideas”. Che está certo.

*Lino João de Oliveira Neves é doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra, professor do Departamento de Antropologia da Ufam e ex-diretor da ADUA.
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